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Paim, meu Avohai

Jurani Clementino. Publicado em 16 de agosto de 2019 às 11:22

Hoje vou falar sobre uma das figuras mais importantes de minha vida e que foi um dos homens de uma trajetória marcante no município de Várzea Alegre – CE, especialmente no distrito de Canindezinho. A crônica de hoje é dedicada à memória de meu avô paterno João Leandro da Silva (Paim) que nos deixou no último domingo. Ele sempre foi muito mais do que somente um avô. Como diria a poesia de Zé Ramalho ele foi nosso avohai.  Franzino e de baixa estatura, era um homem simples, daqueles de mãos calejadas e pele queimada pelo sol.

Seu João Leandro foi um desses últimos homens de palavra que o sertão conheceu. Para ele valeria o dito muito mais do que escrito. Era de uma época em que confiança se conquistava encarando a pupila do olhar. Recorro às palavras poéticas de Zé ramalho, para afirmar que “De fato existe um tom mais leve, Na palidez desse pessoal, Pares de olhos tão profundos, Que amargam as pessoas que fitar”. Mas, por muitos anos, ele se disse vítima desses acordos apalavrados que perderam espaço na modernidade. Pessoas assim, quando são decepcionadas, traídas, não tem nada que corrija. Seu João Leandro disse que fez um acordo apalavrado com um antigo vizinho de terras pelas bandas dos sítios Mundo Novo, Unha de Gato. Eram umas sobras de terreno que serviriam para o uso comum. Ninguém tinha a posse delas, mas todos poderiam usar. O fato é que seu João ficara sabendo depois que o proprietário do acordo, feito boca a boca, teria rompido com o acertado anteriormente e, através de um advogado, conseguiu anexar o pedaço de terra ao terreno dele. Desse dia em diante, paim nunca mais perdoou aquele vizinho de terras e cultivou um desprezo indisfarçado pelos advogados. Mas quis o destino que, muitos anos depois, eu e meu irmão, que também se chama João, adquiríssemos aquelas terras. E sentimos que ele ficou feliz em saber.

 Com sua esposa Dona Nenê, tiveram doze filhos, dos quais dez permanecem vivos. Depois vieram os 38 netos e os 21 bisnetos. O casal também apadrinhou mais de cem meninos nascidos ali pelas redondezas. Sobre a relação dele com minha avó dona nenê, as palavras de minha irmã Milca, proferidas na ocasião da missa de corpo presente, simbolizam o que foi essa união,… “Era nítida a preocupação, a atenção, e o cuidado que mantinham um pelo outro. O verdadeiro significado da expressão dita durante o matrimonio ‘na saúde e na doença; na alegria e na tristeza; […] até que a morte os separe’. Fica dessa relação o mais lindo, forte e intenso amor que uniu duas pessoas por quase 70 anos. Falar da relação entre eles talvez seja a parte mais dolorosa dessas breves linhas. Isso porque, por vezes o vi chorando juntos, outras vezes presenciei o esforço dela, que aos 91 anos de idade, sempre fazia questão de estar ao seu lado. Além de dolorosa, por imaginar a dor que ela estar sentindo, é também a parte mais linda desses últimos momentos, exatamente por expressar tanto respeito e amor que havia entre ambos.” Valeria mais um refrão de Avohai “É o terço de brilhante, nos dedos de minha avó. E nunca mais eu tive medo da porteira, nem também da companheira, que nunca dormia só”.

Meu avohai adorava as minhas chegadas. Mesmo velhinho e cansado, sempre ia lá em casa quando sabia que eu havia voltado de férias. Deu trabalho, morada e comida para muita gente. Criou gado, comprou terras, fez cerca, plantou algodão e colheu todo tipo de legumes como arroz, milho, fava, feijão… Quase tudo que possuía era de uso coletivo. Não há na comunidade quem nunca tenha feito uso de algo seu: nem que seja um cavalo ou burro tomado por empréstimo. Nem que seja um banho em algum de seus cacimbões ou açudes. Talvez por sua bondade e generosidade ele tenha escolhido um dia lindo, poético e simbólico para partir. Seu ultimo e demorado suspiro aconteceu no final de tarde do último dia onze de agosto – data em que todos comemoravam o dia dos pais. Paim também saiu de cena, aos noventa e sete anos, num mês festivo – o mês de Agosto.

Para finalizar, quero aqui agradecer todo o cuidado que seus filhos, especialmente que sua filha Iracema teve com ele nesses últimos tempos. Foram meses de muita paciência, sofrimento coletivo e esperanças diminutas.  Gratidão ainda aos amigos, parentes, afilhados, conhecidos que se dirigiram até sua residência para um ultimo adeus. Paim deixou para todos nós um legado de homem simples, de ser humano comprometido com o bem comum, de esposo sempre presente, de um pai de família amoroso, um avô compreensivo, amigo verdadeiro. Sem sombra de dúvida cumpriu, brilhantemente, a sua missão aqui na terra.

Jurani Clementino – Campina Grande- PB

15 de agosto de 2019

 

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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