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Padrinhos de fogueira

Jurani Clementino. Publicado em 27 de junho de 2019 às 8:39

Com um pedaço de madeira que restou da fogueira de São João ou de São Pedro vi muita gente se tornar padrinho ou afilhado de alguém. Era um ritual simples e rápido. Pegava-se o tição, colocava-se no chão ali mesmo perto das cinzas da fogueira ou das chamas dela ainda acesa. O afilhado estendia a mão direita para o padrinho que também lhe oferecia a mesma mão direita. E cercando aquele pedaço de madeira estendido ao chão, repetiam uma espécie de oração ou ritual sagrado do batismo iniciado pelo padrinho:

– São João disse.

E o afilhado respondia:

– São João disse.

Na sequência falava novamente o padrinho:

– São Pedro confirmou.

E o afilhado repetia a mesma frase:

– São Pedro confirmou.

Então o padrinho dizia:

– Pra você ser meu afilhado.

Nessa hora o afilhado respondia invertendo o sujeito da frase:

– Pra você ser meu padrinho.

E o padrinho concluía atribuindo a benção daquele batizado ao santo para qual a madeira daquela fogueira, tivesse sido acessa;

– Que São João ou São Pedro mandou.

Da mesma forma o afilhado seguia a frase dita pelo padrinho.

Na sequência os dois trocavam de lado e repetiam a oração. Tendo sempre o pedaço de madeira estendido ao chão entre o padrinho e o afilhado. Ao final de todo o ritual, o afilhado já pedia a bênção e recebia o “Deus abençoe” ali mesmo, ao lado das brasas, cinzas, ou labaredas da fogueira ao santo junino.

Essa celebração, ao contrário do batizado feito na igreja, era um ato espontâneo e de total autonomia de padrinhos e afilhados. Especialmente do afilhado que já tinha a iniciativa de escolher para ser o seu padrinho entre aquelas pessoas que ele mais gostava, admirava e queria por perto. Não era mais uma escolha feita pelos pais como havia sido anteriormente no batismo religioso da igreja. Esse primeiro batismo era feito com as crianças muito novinhas, elas não sabiam quem eram esses padrinhos. Já os padrinhos de fogueiras eram brincadeiras de adolescentes. Mas, embora fosse uma diversão, esse ato era levado a sério. Às vezes, muito mais sério do que mesmo o batismo oficial. Porque havia uma consideração maior. Um compromisso em pedir sempre a bênção do padrinho e respeitá-lo.

Naturalmente que, em todo caso, há também as exceções. Conheço padrinhos que depois de muito tempo se apaixonaram pelas afilhadas e/ou vice-versa. Bem, em casos assim, não há de se negar que um problema estava criado. Como pode uma madrinha ou padrinho estabelecer uma relação carnal com o seu afilhado ou afilhada? A grande vantagem é que nos casos de padrinhos e madrinhas de fogueira, o compromisso divino parecia mais simples de romper. O pecado era aparentemente menor. Bastava, pouco a pouco, ir deixando de lado aquele compromisso religioso. Um deixa de pedir a bênção e o outro de abençoá-lo. E aos poucos, como num milagre, tudo voltava ao normal. Homens bons e generosos, totalmente a favor do amor como os apóstolos João e Pedro não iam impedir um sentimento tão nobre desses, não é mesmo? Oremos.

 

Jurani Clementino

Campina Grande – Paraíba – 26 de junho de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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