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Padre José Assis Pereira: Serei cego, Senhor?

Padre José Assis Pereira. Publicado em 21 de março de 2020 às 16:39

O quarto Domingo da Quaresma é também chamado Domingo “laetare”, Domingo da Alegria. O convite a experimentar a alegria nos vem da antífona de entrada da missa: “Alegra-te, Jerusalém!…” (cf. Is 66,10-11) Isso parece chocar-se com o caráter austero da Quaresma, com a realidade da pandemia e a tristeza do isolamento, no entanto, a alegria tem muito sentido com a Quaresma. O nosso esforço de conversão, inclusive nossa penitência, não deve estar impregnado de nenhuma tristeza ou morbidez.

Neste domingo da Quaresma batismal-penitencial, só entenderemos a relação da perícope evangélica da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41) com o sacramento do Batismo se nos lembrarmos de que a Igreja primitiva chamava este sacramento de “iluminação”.

Como ocorreu no domingo passado com a samaritana (cf. Jo 4), o cego de nascimento nos representa a todos. Quem de nós não está cego? Só podemos sair da estreiteza de nossa visão, se ao reconhecer nossa miopia buscarmos Cristo, “luz do mundo”. Esta é a mensagem central do evangelho da cura do cego. (cf. Jo 9,1-41)

“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença“ (v.1). O olhar de Jesus se dirige a uma pessoa cega, seus discípulos lhe perguntam: “Mestre, quem pecou, para que ele nascesse cego: ele ou seus pais?” Eles só veem no cego sua cegueira como castigo do pecado, porque não há sofrimento sem culpabilidade.

Os vizinhos e os que costumavam ver o cego só veem um mendigo que pede esmolas (cf. vv. 8-9) e os fariseus “não veem” o cego, centram seu olhar apenas naquele que lhe devolveu a visão. Também expressaram a concepção dominante de que a pobreza e a doença são castigo pelo pecado: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” (v. 34) Impõem sua verdade chegam inclusive, a expulsar da sinagoga o cego: “Sabemos que esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado… Como pode um pecador fazer tais sinais”. (v. 16)

Cada um pode ver de acordo com as chaves de leitura que levam no coração. Cada um pode ver de acordo com a imagem de Deus que sustenta sua fé. O que Jesus vê nesse homem? Em Jesus há um olhar diferente, Ele vê além do pecado e enxerga nesse cego o desejo de Deus, que, presente nele, quer dar-lhe uma nova vida. Por isso Jesus responde aos discípulos: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (v.3).

Só Jesus reconhece no cego uma pessoa. Só Jesus vê no cego alguém em quem se pode manifestar “as obras de Deus”. Através da humanidade de seu olhar, Jesus revela a ótica de um Deus que vê o coração: “os homens veem apenas com os olhos, mas o Senhor olha o coração.” (cf. 1Sm 16,1.6-7.10-13).

Para o cego de nascimento, a cegueira não foi um obstáculo, pelo contrário, ele é o único a ver Jesus e curado ou iluminado por Ele. Sua cegueira tampouco foi uma fonte de resignação. Muito menos foi um impedimento para crer. Sua cegueira atraiu o olhar de Jesus. Algo em seu coração o fez confiar naquele a quem não via. “o cego foi, se lavou e, ao regressar, já via” (v.7). Ele apenas conta a sua experiência a quem o queira escutar: “Aquele homem chamado Jesus fez lama, coloco-a nos meus olhos… lavei-me e comecei a ver” (v. 11).

Este homem está cego, já que nasceu no mundo fechado e ao longo de toda a sua vida aprendeu a ver com o olho cego da sinagoga. Jesus vai curá-lo através de um gesto de íntima proximidade; não realiza um espetáculo para provocar espanto, nem diz palavras ininteligíveis ou mágicas.

Simplesmente agachou-se, cuspiu no chão e com sua própria saliva fez um pouco de barro; com os seus dedos tocou com ternura os olhos do cego e o enviou a lavar-se na piscina de Siloé (cf. vv. 6-7). É uma cena de reconstrução de uma pessoa quebrada e que nos recorda o primeiro barro com que Deus oleiro criou o primeiro ser humano.

Igual aos sacramentos, no relato desta cura aparece o simbolismo batismal: O barro é o reconhecimento de nosso pecado, nosso “húmus”; a saliva ou hálito simboliza o Espírito, a força curativa e a força de uma pessoa; a piscina é a Igreja, sacramento universal de salvação, o envio à piscina para banhar-se é a água prometida à samaritana (cf. Jo 4) que lava e cura a cegueira do ser humano.

Para curar o cego, Jesus usou meios completamente diferentes. Por que Ele utilizou este estranho método? A fim de que fosse evidente que se tratava de um milagre feito pelo poder de Deus e não pela magia das coisas. Quem devolve a vista ao cego não é a água, é sua fé em Jesus.

Jesus realiza um sinal que mudará radicalmente a vida do homem cego. Todo sinal no contexto do quarto evangelho tem uma função reveladora e pedagógica. Jesus se revela como “luz do mundo” (v. 5), uma luz que ajuda a ver, olhar e contemplar como o faz Deus.

Também nós devemos lavar nossos olhos com a água de Jesus, com a luz de seu evangelho; devemos aprender a ver com os olhos de Jesus. A Luz de Cristo deve dirigir nossos pensamentos, palavras e ações.

O grito de empáfia dos fariseus deveria converter-se em humilde reflexão para cada um de nós: “Porventura, também nós somos cegos?” (v. 40) Aos fariseus não lhes interessava ver a verdade, porque a Verdade de Deus deixava a descoberto suas hipocrisias e falsidades.

Todos nós, de uma maneira ou de outra, somos cegos de nascimento, porque nascemos e crescemos em meio a sistemas sociais e religiosos que domesticaram nosso olhar, nos educaram a ter um olhar limitado e atrofiado.

A fé do cego de nascença desafia a nossa. Somos capazes de reconhecer a presença de Jesus nos acontecimentos de nossa vida? Em cada situação que passamos da escuridão à luz, da tristeza à alegria, vemos a Jesus?

Jesus nos manda lavar não somente nossas mãos, mas, sobretudo nossos olhos enlameados do barro do nosso pecado, e purificar nosso olhar nas águas purificadoras do sacramento da Reconciliação, aí encontrando a luz. É necessário, portanto este exercício de liberdade, humildade e sinceridade para purificar nosso olhar. Até nossos interesses mais egoístas podem servir-nos de “catarata” para turvar a nossa visão.

Como nos é necessária a luz de Cristo para ver a realidade em sua verdadeira dimensão! Sem a luz da fé somos praticamente cegos, faz falta que toda nossa vida seja iluminada pela luz espiritual.

Pensemos nisso especialmente neste momento difícil de confinamento social por conta do Convid-19, que todos os países e sociedades do mundo, inclusive nós estamos atravessando.

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Padre José Assis Pereira

Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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