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Padre José Assis Pereira: O Reino de Deus é dos que amam o pobre

Padre José Assis Pereira. Publicado em 21 de novembro de 2020 às 13:10

No último domingo do Ano Litúrgico, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, ouvimos a página que conclui o discurso escatológico do Evangelho segundo Mateus, aquele em que Jesus anuncia o juízo final. É uma passagem extraordinária, que sintetiza de forma simples a singularidade cristã, colocando claramente cada discípulo de Cristo perante a sua própria responsabilidade concreta para com os irmãos, em particular para com os últimos.

A Liturgia que celebra Cristo, o faz hoje a partir de duas imagens: do Pastor e do Rei. São dois títulos que não se limitam a nos apresentar, por assim dizer, duas faces diversas da mesma pessoa. Entre aqueles dois títulos de Cristo perpassa toda a história da Salvação e é, por isso, uma grandiosa teologia da história que nesta solenidade somos chamados a aprender da Liturgia.

No Antigo Testamento, a imagem do Deus-Pastor é característica do profeta Ezequiel (587-571 a.C.). A metáfora do pastor (cf. Ez 34, 11-12,15-17) é compreensível no contexto do Oriente antigo, onde os reis eram chamados por excelência “pastores dos povos”. O Senhor será um Pastor de verdade: “Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar… vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito… eu farei justiça entre uma ovelha e outra.” (vv. 15-17) O Senhor assim expressa sua ternura infinita, seu amor pelas pessoas mais desprotegidas; “tratar”, “cuidar” de quem está “ferido”.

Jesus, na narração do “Juízo Final” (cf. Mt 25, 31-46), reivindica para si o título de Rei-Pastor e a função de juiz universal. As imagens são simples, a linguagem é popular, mas a mensagem é extremamente importante: é a verdade sobre o nosso destino último e sobre o critério com o qual seremos avaliados, é a gramática da vida: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era estrangeiro e me recebestes em casa. Estive nu e me vestistes, doente e cuidaste de mim, preso e fostes me visitar.” (vv. 35-36)

São Mateus abre aqui uma grande porta à ação salvadora de Deus com toda a humanidade e atualiza a presença de Jesus nos fracos, nos pequenos, nos marginalizados, nos excluídos, nos estigmatizados. Na carne do pobre, sofre a carne de Jesus.

O Rei-Pastor-Juiz reúne todos, quer salvar a todos. Os misericordiosos não têm motivo de temer o julgamento, mesmo aqueles que não o conhecem: “Quando foi que ti vimos…? (v. 38). Servindo-se da imagem tirada da profecia de Ezequiel, Jesus afirma que o Filho do homem “separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda” (cf. Ez 34,17). Esse juízo, que é ao mesmo tempo universal e pessoal, não ocorre – como poderíamos esperar – ao término de um processo: aqui, é apresentada apenas a sentença, porque toda a nossa vida é o lugar de um “processo” muito particular.

Aqueles que amaram sem preconceitos quem estava necessitado, não procuraram retribuição. Deram amor na simplicidade e na gratuidade, não têm o que temer: “Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos menores, a mim o fizestes” (v. 45). “Viste-me” no rosto semelhante ao de Deus, do ser humano criado à sua imagem, neste mesmo ser humano irmão do “Filho do Homem”, com os sinais do sofrimento, do abandono extremo e da Cruz, no menor destes irmãos com os quais o Rei da glória estabeleceu aliança.

Neste julgamento não se pede nada de religioso aos julgados. Não se pergunta se se cumpriram preceitos religiosos, mas tão somente, como se relacionaram com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos.

O texto também responde a uma pergunta crucial: os não cristãos podem se salvar? De acordo com o texto, pode-se afirmar: é mais fácil um não cristão que ama o próximo se salvar do que um cristão, que conhece Jesus, mas vive sem compromisso.

No último dia, todos, cristãos e não cristãos, serão julgados sobre o amor, e só nos será pedido que prestemos contas do serviço amoroso que tivermos praticado cotidianamente aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados. Seremos julgados pelo amor e pela capacidade de criar no mundo condições e relações mais humanas e fraternas de vida.

O amor não é uma ideia abstrata, um bom sentimento, uma palavra romântica ou carinhosa. São ações concretas: Dar de comer, vestir, visitar… E fazer tudo isso não necessariamente “por amor a Deus”. Basta que se faça por “amor ao ser humano”. Ninguém será julgado por sua doutrina, pelas ideias que teve sobre a religião, pelos dogmas nos quais creu.

Só contarão os atos de serviço ao próximo, os atos de justiça com o irmão oprimido e necessitado de nossa ajuda. Contará o ter cuidado com uma caridade e dignidade, da promoção e defesa dos direitos de quem passa fome e sede, a prática da justiça, traduzida em solidariedade e partilha dos bens. Coisas tão simples e tão básicas, elementares que nos salvarão.

Assim, o juízo revelará a verdade profunda da nossa vida cotidiana, se vivemos ou não o amor aqui e agora. “O último e decisivo ensinamento de Jesus é o seguinte: o reino de Deus é e será sempre dos que amam o pobre e o ajudam nas suas necessidades. Isto é o essencial e definitivo. Um dia os nossos olhos irão se abrir e descobriremos com surpresa que o amor é a única verdade e que Deus reina ali onde há homens e mulheres capazes de amar e preocupar-se com os outros.” (José Antonio Pagola)

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Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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