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Padre José Assis Pereira: O perdão sem limites

Padre José Assis Pereira. Publicado em 13 de setembro de 2020 às 8:30

No domingo passado vimos que a comunidade cristã é o lugar da correção fraterna, da reconciliação e da oração; assim reconciliada e orante ela também se torna o lugar privilegiado da presença de Jesus: “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18,20). Porém, realizar a reconciliação no interior da comunidade cristã requer o perdão constante e repetido.

No evangelho deste domingo (cf. Mt 8,21-35) que conclui o chamado “discurso sobre a comunidade” cap. 18 de Mateus, Jesus fala-nos do perdão e apresenta-nos um Deus que ama sem limites, sem cálculos, pois seu amor é misericordioso.

Pedro faz uma pergunta a Jesus, muito lógica e humana sobre os limites do perdão: “quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (v.21) Jesus responde que, para seus seguidores, o perdão não tem limites, posto que tem que perdoar sempre e em toda circunstância.

Não é fácil o perdão, nem tampouco é fácil o amor. O autêntico amor e o autêntico perdão são gratuitos. Por isso seu alcance é universal. E o mais interessante: o perdão não é um favor que fazemos ao ofensor, é um bem que fazemos a nós mesmo. O primeiro beneficiário do perdão é o que perdoa.

O perdão é uma das mais exigentes modalidades do amor, é a mais alta manifestação do amor. É impossível um verdadeiro amor que não traga consigo o perdão. O perdão só pode nascer de um verdadeiro amor: “O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta…” (1Cor 13,7)

O perdão é necessário para se conviver de forma saudável. Na convivência humana em geral, e nas diferentes formas de convivência familiar ou comunitária, podem surgir problemas, mal entendidos, discussões e inclusive ofensas entre as pessoas. Temos de reagir ante agressões, injustiças e abusos. Quem não sabe perdoar pode ficar ferido emocional e espiritualmente para sempre. Neste caso, o cristão é chamado à reconciliação. E o caminho da reconciliação passa pelo reconhecimento do próprio pecado e ou pelo perdão ao ofensor.

Da mesma forma que o amor tem diversas dimensões e alcances: amor entre os esposos, amor aos familiares, aos amigos, aos companheiros de trabalho… O amor cristão alcança dimensões universais, pois não conhece limites, encontrando no amor ao inimigo, ao que não o merece, seu alcance mais universal. Também o perdão cristão tem diferentes dimensões e um alcance universal. O perdão não tem limites.

Através da “parábola do devedor implacável” (cf. Mt 18,23-35) Mateus recolheu as instruções de Jesus sobre a relação entre os irmãos e irmãs na comunidade e ensina a descobrir a grandeza do amor de Deus e sua bondade e misericórdia, sinal da nova comunidade cristã.

Na parábola o protagonista não é nenhum dos dois empregados que o rei resolveu acertar as contas. Nosso olhar deve voltar-se para o “rei”, ele é o verdadeiro protagonista. Um rei que perdoa incondicionalmente ao que não pode pagar-lhe sua dívida. Nele podemos ver o Deus que em Jesus Cristo se revela, um Deus de misericórdia e de bondade. Este Deus se revela em seu Filho Jesus, não só acolhendo os pecadores, mas sobretudo, na cruz, perdoando seus inimigos. Jesus, o verdadeiro “rei dos judeus”, na cruz, não só perdoa, mas se converte no advogado de defesa de seus assassinos, para atenuar a sua pena: “Pai, perdoai-lhes: não sabem o que fazem”. (Lc 23,34) Esta parábola nos convida a identificar-nos com este surpreendente “rei perdoador”.

Na parábola, um empregado na hora de prestar contas ao rei, revela-se incapaz de saldar sua impagável dívida. É uma “enorme fortuna”, segundo o modo de falar no tempo de Jesus, destina-se a mostrar a imensidão da misericórdia de Deus. Não há pecado algum que Ele não perdoe, não há pecado algum maior do que o seu amor.

“Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo!” (v.26) Perante a humildade e a submissão do empregado, o rei deixa-se dominar por sentimentos de compaixão, conhece a situação desesperada do empregado e perdoa-lhe integralmente a dívida impagável. Em contraste com esta bondade inesgotável, há a mesquinhez do coração do empregado, que não sabe perdoar uma dívida infinitamente menor. Esse devedor perdoado, que experimentou a misericórdia do rei, se recusou a perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia muito inferior, apenas “cem moedas”. (v. 28) A grave pergunta que sobressai da narração também é feita a nós: “Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (v.33)

Portanto, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos e irmãs que erram. Somos às vezes mais duros uns com os outros que Deus. Revelamos frequentemente em nossas relações interpessoais verdadeira dureza de coração. E é uma desgraça ser duros de coração. Somos compreensivos consigo mesmo, e queremos e até exigimos que seja Deus conosco. Ele perdoou todas as nossas faltas, mas nós não fazemos o mesmo com os outros. Não devíamos nós nos tornar imitadores da misericórdia que sempre vem ao nosso encontro. Porque somos lentos à misericórdia e no perdão?

Há um problema. Não por parte do rei que perdoa sem impor condições, mas sim por parte do destinatário do perdão. Porque o perdão como o amor, necessitam ser acolhidos, para produzir seu efeito transformador. E quando são acolhidos? Quando se transmitem.

O problema do empregado devedor é que não soube acolher o perdão. A prova está em que não o transmite, não o compartilhe. Por isso, na oração de Jesus se nos recorda que, para ser de verdade perdoados, para que o perdão nos mude e produza efeitos transformadores, nós necessitamos perdoar também aos que nos ofendem: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Ao perdoarmos nos identificamos com o Pai do Céu. A Ele temos que olhar, a este “rei” da parábola que o representa, para identificar-nos com Ele.

Este tema do evangelho de hoje é de uma surpreendente atualidade. Em nosso mundo abundam os delitos e expressões de intolerância. As denúncias por crimes de ódio, preconceito, homofobia, xenofobia, racismo e violência doméstica aumentam a cada ano. Das tribunas políticas aos sites se prega a intolerância e se lançam notícias falsas sobre diversos grupos sociais. Os cristãos somos chamados a “ir contra a corrente”, e a combater as ondas de violência e intolerância com gestos e palavras de acolhida, compreensão, misericórdia e perdão.

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Padre José Assis Pereira

Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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