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Padre José Assis Pereira: De quem é a imagem gravada em meu coração?

Padre José Assis Pereira. Publicado em 18 de outubro de 2020 às 8:00

As elites políticas e lideranças religiosas de Israel sentiram-se profundamente atingidas pelas três parábolas (cf. Mt 21,28–22,14) que Jesus lhes dirigiu denunciando o seu fechamento ao anúncio do Reino e que refletimos nos últimos domingos. Agora essas lideranças passam ao ataque, tentando envolver Jesus com perguntas maliciosas que o condenassem por suas próprias palavras.

Hoje o evangelho de São Mateus (cf. Mt 22,15-21) nos situa no coração das polêmicas que Jesus mantém com os dirigentes em Jerusalém e que os evangelistas situam no final da sua vida, precedendo à sua paixão. Desta vez queriam comprometê-lo com as autoridades romanas, que vigiavam qualquer movimento social ou político para castigar qualquer rebeldia. Opor-se a César, inclusive em nome de Deus, era ir contra a “pax romana”, um dos mitos da época. Os espiões fariseus e herodianos e talvez alguns cobradores de impostos pretendem agradar o governador romano Poncio Pilatos, que era um governante de uma crueldade sem consideração, vingativa e arbitrária. Os judeus o odiavam.

Tanto os fariseus como os partidários de Herodes sabiam muito bem que Jesus não atuava como uma liderança política, mas como líder religioso. E como tal eles nunca encontraram nele alguma falha, nem em suas palavras, nem em suas obras. Mas, ao mesmo tempo, notavam que a autoridade religiosa de Jesus era superior à autoridade que eles tinham ante seus partidários. Precisavam encontrar o quanto antes algum meio para desautorizar a Jesus, ou desacreditá-lo junto ao povo. Para tanto tinham que misturar religião com política para conseguir o seu intento.

Isto foi o que uniu estes dois grupos tão diferentes. Ambos são colaboracionistas do poder romano dominante e lucram com este seu apoio, ao contrário dos zelotes ou dos saduceus que não aceitam este domínio. Os fariseus se escondem detrás de um legalismo narcisista. Os herodianos se aproveitam de sua influência política. Para ambos, a pessoa de Jesus de Nazaré é um problema, já que suas palavras e seus gestos põem em evidência que seus corações estão longe de Deus, longe da Lei e longe do povo que deveriam guiar, acompanhar e cuidar. A pessoa de Jesus, a revelação do Pai e seu anúncio do Reino, visibilizam a mediocridade e a incoerência tanto dos fariseus como dos do partido de Herodes.

A pergunta ardilosamente feita pelos fariseus a Jesus foi: “É lícito ou não pagar imposto a César?” (v. 17) Jesus, em sua resposta, tinha que pôr-se necessariamente contra os fariseus, ou contra os herodianos. “Hipócritas!” Diz Jesus. Sua resposta surpreenderá a todos: “Mostrai-me a moeda do imposto! … De quem é a figura e a inscrição desta moeda? Eles responderam: De César. Jesus então lhes disse: Dai pois a César o que é de Cesar, a Deus o que é de Deus.” (vv. 19-21)

Ao pedir intencionalmente a moeda do tributo com a imagem de Tibério, e uma inscrição em latim que dizia: “Tibério César, filho do divino Augusto”; Jesus deixa que seus interlocutores se autodenunciem pelo fato de possuírem a moeda, de se beneficiarem economicamente desta situação de dominação. A moeda tem que ser dada ao imperador; por quê? Porque é o dinheiro, e o dinheiro é o mais sujo deste mundo. Os que cunham moedas têm poder e pelo dinheiro dominam. Então, tem que submeter-se a ele? Não! Por isso Jesus acrescentou: ”a Deus o que é de Deus”. O dinheiro não é de Deus, nós é que somos de Deus. Por isso mesmo, nós somente devemos estar submetidos a Deus.

A resposta de Jesus não é evasiva, senão profética; porque às armadilhas legais não valem mais que respostas proféticas. O tributo ou imposto é socialmente necessário; o coração, não obstante, leva a imagem de Deus de onde o ser humano recobra toda sua dignidade, ainda que perca o “dinheiro” ou a imagem de César que não valem nada.

Hoje poderíamos fazer-nos uma pergunta essencial: De quem é a imagem que está gravada em meu coração? De Deus ou de César? O coração é uma realidade mais radical que uma moeda. A imagem cunhada no coração é a que configura em toda pessoa uma forma de vida, uma forma de espiritualidade e uma forma de compromisso com a realidade.

Como dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, sem fugir do mundo e refugiar-se no Céu? Uma leitura limitada desse texto apresentaria a possibilidade de manter separados a ordem temporal e a ordem religiosa, as coisas do mundo e as coisas de Deus, as realidades profanas e as realidades sagradas.

O mistério da Encarnação nos dá uma outra chave de leitura: Deus entrou em diálogo com a humanidade e criou um espaço sagrado no coração da história. À imagem de Cristo, os batizados somos todos chamados a criar laços de fraternidade que rompam os esquemas de “eles e nós”. A corresponsabilidade dos cristãos na busca do bem comum e no cuidado da “casa comum” nos chama a respeitar a pluralidade de opiniões e visões. A solidariedade afetiva e efetiva deve levar-nos a reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. A presença nos lugares donde se gesta e se decide o rumo da política, da economia, da educação, da cultura e da fé, requer de nós idoneidade e valores evangélicos.

Não se trata de contrapor realidades, mas sim de ser criativos na vivência da fé e no compromisso com a realidade. Não se trata de diluir realidades, mas sim de respeitar a justa autonomia e a sadia diversidade. Como Jesus, é importante não cair nas armadilhas de quem quer, pela direita ou pela esquerda, uniformizar ou formatar tanto as pessoas, como as instituições ou a realidade. Como Jesus, somos chamados a responder a partir da nossa experiência de Deus, da imagem de Deus gravada em nosso coração e de nossa fé.

Mas, para poder plantar os valores do seu Reino na sociedade humana e na história é necessário que a fé, o cristão não fique fechado no âmbito do pessoal ou privado. Por isso, este evangelho dá para falar da importância que tem os cristãos leigos e leigas participarem ativamente exercendo sua cidadania na vida política, reconhecendo o lugar de Deus e o de César.

A fé cristã não pode ser vivida de uma maneira desligada das realidades deste mundo, não pode ser praticada apenas em segredo, no próprio quarto, ou somente entre quatro paredes da igreja. A religião condiciona todas as escolhas da pessoa e todas as horas da sua vida, portanto não pode deixar de influir também sobre opções políticas e sobre o exercício da cidadania.

Esta resposta de Jesus tornou-se para a comunidade cristã primitiva modelo para o seu relacionamento com os poderes políticos e que serve para nós hoje. A expressão “a Deus que é de Deus” implica reconhecer o que devemos fazer para honrá-lo e demonstrar-lhe nosso amor: sua vontade é que colaboremos na construção de um mundo mais humano e isto implica eliminar as estruturas injustas e comprometer-se ou tomar partido no sentido positivo, em tudo aquilo que respeita e realiza a pessoa humana e lhe confere a dignidade de filho ou filha de Deus.

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Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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