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Padre Assis: Um Rei servidor do povo

Padre José Assis Pereira. Publicado em 23 de novembro de 2019 às 16:16

Para nós cristãos católicos o ano litúrgico termina com a festa de Cristo Rei. Esta festa reveste-se de significado especial, ao fazer sobressair o caráter absoluto e definitivo da soberania de Cristo, ao mostrar como para Ele converge toda a história da humanidade e do mundo. É, podemos afirmá-lo, a coroa de todas as festas em que celebramos Jesus Cristo.

O Evangelho de São Lucas nos deu a chave durante este ano litúrgico para descobrir Jesus, como o Salvador da humanidade. Sabemos que este evangelista trata de por em primeiro plano a misericórdia de Deus com sinais visíveis da atuação de Jesus. E se preocupou de modo especial com os pobres, as mulheres e marginalizados. Apresentou todas estas atitudes numa longa viagem que Ele fez com seus discípulos, desde a Galileia até Jerusalém. Ali foi entregue à morte, mas Deus o ressuscitou como o anunciavam as Escrituras. E segue presente em sua Igreja, que é enviada a realizar a tarefa que o Pai lhe havia encomendado.

Muitos se perguntam que sentido tem, no calendário litúrgico a festa de Cristo Rei. Não se lhe podem aplicar imagens fantásticas extraídas das fábulas, nem dos contos de reis, seria quase ofensivo, e a função concreta que tem hoje os reis e rainhas não concorda com a ideia que deve expressar esta festa. Com isso emerge, sem duvida, um aspecto positivo, quer dizer, a consciência de que a majestade de Cristo é totalmente especial.

O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 23,35-43) apresenta a realeza de Jesus no auge da sua obra salvadora e o faz de maneira surpreendente. Narrando a crucificação quer apresentar algo mais profundo e extraordinário que a simples execução de um profeta, por isso chama a atenção na sua narrativa para as atitudes dos que assistem a cena: o povo olhando, os chefes dos judeus e os soldados zombando dele; diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo”. (vv. 35b-37) Entre esta última tentação e aquelas primeiras, no deserto (cf. Lc 4,3) Jesus se manteve fiel aos planos de Deus. Não é rei para dominar. Recusa o prestigio, o poder, o domínio sobre os outros, e só busca, a humildade, a simplicidade, o serviço até dar a vida. Cumpre-se o que Ele havia manifestado: que é Rei, mas com uma maneira peculiar de reinar, o seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18,36-37).

A sua realeza é paradoxal: a cruz é o trono de um Rei que escolhe reinar no coração das pessoas através do amor e do dom da vida. Um rei que usa palavras de amor e de perdão para com todos; a sua coroa é de espinhos; não tem um cetro, mas põem uma vara na sua mão; não usa vestes suntuosas, mas é privado da própria túnica; não tem anéis brilhantes nos dedos, mas as mãos transpassadas pelos pregos; não possui um tesouro, mas é vendido por trinta moedas.

Verdadeiramente não é deste mundo o Reino de Jesus, Ele não obriga os seus inimigos a “comer o pó”, mas é Ele que tem de beber o vinagre que lhe apresentam; a seu lado não se encontram os seus ministros, nem os comandantes dos exércitos, mas dois malfeitores. Do alto da cruz, Jesus indica a todos quem é o rei que Deus escolheu: é aquele que aceita a humilhação, que sabe que a única maneira de dar glória a Deus é descer até o último lugar para servir os pobres.

Mas é pouco crer que Jesus é Rei do universo e centro da história sem fazê-lo tornar-se Senhor da nossa vida; tudo aquilo será vão, se não o acolhermos pessoalmente e se não acolhermos também o seu modo de reinar. Nisto ajudam os personagens presentes no Evangelho de hoje. Além de Jesus aparecem três tipos de figuras: o povo que olha, o grupo que está aos pés da cruz e um malfeitor crucificado ao lado de Jesus.

Lucas engendrou um “diálogo” assombroso na hora da cruz, com os dois malfeitores crucificados com Jesus (vv. 39-43). “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”. (v. 42) Este pedido do ladrão arrependido oferece a Jesus a possibilidade de dar vida e salvação a quem irá morrer como Ele a mesma morte desprezível. É como uma prece do “bom ladrão” a Jesus crucificado. A interpretação desta prece é para Lucas todo um ensinamento de que o Crucificado é o verdadeiro salvador e de que por meio de sua vida e de sua morte, “Deus salva”.

Este “hoje estarás comigo no Paraíso”. (v. 43) é o hoje perene da salvação e da nova humanidade dos redimidos, levados para o Reino de Cristo pelo sangue da sua cruz. Foi assim que Deus Pai reconciliou a humanidade e todos os seres, consigo confirmando o seu Filho na primazia que, pela criação e redenção, exerce sobre o cosmos e sobre os seres humanos, tinha que ser precisamente um malfeitor o que descobriu o reinado de Jesus, tinha que ser na cruz… Alguns não o reconheceram quando fazia milagres e ele o reconheceu crucificado em um madeiro. A oferta do “paraíso” ao ladrão arrependido reflete o ponto culminante da missão de Jesus. “Eu não vim chamar os justos, e sim os pecadores.” (Lc 5,32) Agora, no suplício da cruz, quando os que estão ao seu lado entendiam a salvação de maneira diferente, um ladrão, um bandido ou malfeitor, no último instante soube “roubar” a salvação, um lugar no Reino. Reconhece a realeza de Jesus e se converte no primeiro cidadão do Reino do Céu.

Mas, Jesus sempre esteve cercado de pobres, marginalizados, malfeitores e ladrões. O ladrão foi o último a reconhecer o senhorio de Jesus e Ele oferece tudo o que é e tem. A partir de sua impotência de crucificado, mas de sua posição como Senhor verdadeiro, oferece perdão, misericórdia e salvação. Mostrando que o arrependimento e o perdão de Deus são condições fundamentais para tomar parte no seu Reino. Esta teologia da cruz é a chave para entender adequadamente a soberania de Jesus como o Rei do universo e Senhor.

Cristo reina da cruz porque nela está como que o clímax da sua missão de entrega radical de sua vida por toda humanidade, vida vivida numa profunda atitude de serviço. Se durante o ano litúrgico recordamos os momentos mais significativos da vida de Jesus, neste último domingo queremos resumir essa vida dizendo que Jesus foi toda a sua vida o “servidor” do Pai e dos seus irmãos e irmãs mais desvalidos e que se quisermos ser seus seguidores, temos de imitá-lo e nos pormos ao serviço de nossos irmãos e irmãs, ainda que isso muitas vezes nos custe esforços, sofrimentos, cruzes, compromissos, entregas, etc. Essa maneira de viver e de morrer de Jesus nos ganhou a salvação.

Para que chegue este Reino que proclamamos no Prefácio da festa de hoje, como “um reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”, os cristãos e todas as pessoas de boa vontade trabalhamos, sofremos e oramos: “Venha a nós o vosso Reino”. Poderia se dizer que estamos pondo em nossos lábios o desejo do “ladrão arrependido”: “lembra-te de mim quando estiveres em teu reino.” Assim o Reino de Cristo, que não é deste mundo, o faremos presente para e neste mundo.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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