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Padre Assis: Somos esperantes

. Publicado em 30 de novembro de 2019 às 12:10

Um novo ano litúrgico começa com o evangelista Mateus e o começamos por um discurso apocalíptico, onde Cristo nos fala da sua vinda, ou melhor, da sua segunda vinda. Porque o evento Jesus Cristo comporta duas vindas: morte e ressurreição. Este é o mistério da Páscoa, o fundamento da fé e espiritualidade cristã, da fé da Igreja.

O Advento é um tempo de preparação para acolher Cristo nessas duas vindas, isto é, para acolhê-lo na sua humanidade, vivendo como nós, e para acolhê-lo na sua divindade, como Ressuscitado através da Igreja Corpo de Cristo que somos. Encontramos essas duas vindas do Cristo no Evangelho deste primeiro domingo do Advento. A perícope de Mateus (cf. Mt 24,37-44) é composta por três sequências que falam de situações da vida cotidiana, da nossa rotina: alimentar-se, beber, casar-se, trabalhar, vigiar para evitar um assalto… A primeira faz a memória do dilúvio (vv. 37-39); a segunda fala de homens e mulheres no trabalho (vv. 40-42); a terceira usa como comparação a chegada de um ladrão (vv. 43-44).

Ao se referir ao dilúvio, Mateus não qualifica as ações dos contemporâneos de Noé como imorais ou incrédulos. Ao contrário, ele usa o verbo “compreender”: eles “nada compreenderam” e foram destruídos. Assim chama a atenção para que seus ouvintes tenham uma postura diferente dos contemporâneos de Noé e estejam preparados para quando o Senhor voltar, um evento que ocorrerá em momento desconhecido. Por outro lado, o texto chama atenção para o perigo da ignorância e do despreparo: são essas as atitudes que levam a comunidade à destruição.

A vinda do Filho do Homem não é um megaevento, para o qual alguém tem que interromper todas as suas atividades e ficar sem fazer nada à sua espera, pois ninguém sabe o dia e nem a hora. Por isso “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor.” (v. 42) Vigiar nos faz assumir a atitude de “esperantes” sentinelas, que numa posição elevada, são capazes de ler a realidade, vislumbrar o novo e assumir atitudes coerentes.

Em cada ano, no tempo do Advento, a liturgia da Igreja nos mobiliza a esperar. Nem sempre nos damos conta que tenhamos a Quem esperar. Então, nos dispersamos “esperando algo”, vivendo a lenta e inevitável fila das esperas. Como seres humanos fomos feitos “esperantes”. Em cada etapa de nossa vida esperamos algo: esperar realizar um sonho, esperar terminar os estudos, esperar um trabalho, esperar um amor, esperar comprar a casa própria, esperar um filho, esperar o resultado de um exame médico, esperar que as coisas melhorem… Nossa história pessoal e a própria história da humanidade é um “advento”, uma sucessão interminável de esperas, algumas vezes indesejadas e angustiosas, outras vezes surpreendentes, plenificantes… Às vezes esperamos sem saber muito bem o quê ou quem esperamos. Outras vezes, a espera se vê realizada, mas o resultado da mesma é tão pífio, tão frustrante, que os “esperantes” terminam por pensar se valeu a pena tanta mobilização. Existem também esperas doentias, que provocam ansiedade, medo e nos paralisam; esperas centradas em nós mesmos.

Esperar, para quê? A quem? De onde nasce a necessidade de esperar? Vivemos tempos carregados de “pressas”, não temos paciência de esperar, essa pressa nos mantém tenso; queremos resultados imediatos e nos angustiamos na impaciência. Mas a vida cristã precisa de muito Advento, muita espera e paciência. No nosso interior uma voz diz serenamente: “Dá prá esperar?”

A vida cristã não é movida por sonhos utópicos, mas de esperas carregadas de esperança. Esperar é uma forma de viver. Nós somos o que esperamos. “Só quem espera pode ver”, já disse alguém. O Deus da revelação de Jesus tem um nome: “Deus da esperança” (Rm 15,13). O Pai que entrega ao mundo Jesus, seu Filho, devolve ao mesmo tempo a esperança ao mundo. Sem Cristo, a humanidade fica sem esperança (Ef 2,12), porque Ele é a nossa esperança (1Tm 1,1), tão íntima que está dentro de nós: “Cristo em nós, esperança da glória” (Cl 1,26-27). De fato, Ele é o sustento e o fundamento da esperança na vida eterna (Tt 1,2).

Esse tempo litúrgico nos motiva a esperar com esperança, sabendo a Quem esperamos; mais ainda, sabemos que, Aquele que esperamos, já chegou, já está entre nós, cujas promessas esperadas já estão cumpridas. Aquele que esperamos já está presente, dando um sentido de eternidade à nossa espera.

A espera nos faz criativos, intuitivos, nos faz sair de nós mesmos, nos descentra, a abrir-nos à realidade que nos cerca e crescer em comunhão com tantos esperantes. A espera revela nossa identidade, aponta para onde está nosso coração.

O “que” ou “quem” esperamos? Se não sabemos o que esperamos, ou se nada mais esperamos, a vida perde sabor e sentido; quem não espera, não busca, não amadurece. No supermercado da vida há muitas ofertas que pretendem preencher o vazio da espera, mas não tem consistência, não nos saciam não nos preenchem, e não nos indicam um horizonte de sentido ou de felicidade. O maior inimigo da espera é a dispersão, ou seja, apego ao imediato e à rotina da vida: “comer, beber, casar… como nos tempos de Noé”, vivemos tempos de dispersão, cativados pela mídia, pelas ofertas alucinantes das “black friday”… Isso corrói nossa interioridade, nossa visão se atrofia e o horizonte fica obscurecido. A espera vigilante implica ampliar o olhar para além dos nossos pequenos interesses.

Advento é tempo propício para ampliar a visão, olhar mais além. A espera vigilante pede uma visão de longo alcance e, ao mesmo tempo, um olhar que capta os pequenos sinais da Presença d’Aquele que sempre está vindo, no cotidiano e na simplicidade da vida.

Advento não é aguardar alguém ausente; mas despertar para fazer presente Aquele que está sempre presente. Ser “esperante” é “estar acordado”, “estar preparado”, no sentido de “estar atento” à Presença daquele que se “desvela” sempre de forma inesperada, surpreendente e provocativa.

A espera de alguém desperta nossa sensibilidade para perceber que assim como quando esperamos alguém que amamos o nosso coração se dilata, sendo “esperantes” a vida se torna mais leve e feliz porque percebendo os sinais e vozes de sua presença, teremos a mesma atitude da raposa do Pequeno Príncipe: “disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!” (Saint Exupéry)

Enfim, o convite de Jesus neste primeiro domingo do Advento é para dilatar nosso olhar e o nosso coração para sermos felizes porque ansiosamente esperamos Alguém que amamos. Aquele que esteve, está e estará sempre presente em nossas vidas.

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