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Padre Assis: Ser buscadores apaixonados de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 5 de janeiro de 2020 às 8:11

Celebramos neste Domingo do Tempo do Natal a festa da Epifania. Se o Natal é a festa que alude ao nascimento do Menino Deus, Epifania significa a manifestação desse Deus e sugere a ideia de iluminação ou de luz. Por conseguinte, a metáfora bíblica desta festa é a luz, a estrela dos magos que guia os Magos do Oriente.

Jesus é a luz que veio resplandecer nas nossas trevas. Já o profeta Isaías (cf. Is 60,1-6) adianta o sentido da festa: o universalismo da salvação de Deus. Ele se vale da imagem de Jerusalém, símbolo da presença de Deus, para afirmar que todos os povos buscarão a esse Deus, todas as nações dirigirem-se para Cristo, esplendor do Pai, revelação da sua eterna glória.

Mas, para o significado desta festa é mais iluminador ler o texto de Mateus (cf. Mt 2,1-12) sem buscar exageradamente coincidências históricas. A perícope é um texto complicado, simbólico, prefigurativo. Todos estes adjetivos se usam na hora de ler e interpretar o relato de Mateus sobre os magos, que veem em busca de uma estrela.

E a verdade é que a exegese bíblica já deu numerosas mostras de maturidade na hora de interpretar um relato deste tipo, que desde logo, não pode ler-se histórica ou factualmente, ou menos ainda com opções fundamentalistas. Mateus não faz história, faz teologia a partir do Deus que se fez Menino. 

Temos que reconhecer que nos encontramos diante de uma magnífica página teológica, com sabor oriental e com uma cristologia das primeiras comunidades cristãs. Especialmente a comunidade de Mateus, de origem judeu-cristã necessitou ler muito as Escrituras, o Antigo Testamento, para rastrear sua identidade e aceitar Jesus como o Messias em todos os sentidos. 

Interessa-nos ressaltar a atualização e adaptação dos textos bíblicos feita pela comunidade cristã. A fé dos primeiros cristãos teve que formular-se e expressar-se simbolicamente. A verdade é que os cristãos aceitaram Jesus como o Messias verdadeiro, o que traria a salvação a todos. Não havia mais outro remédio que rebuscar na Escritura para dar sentido a tudo isso.

Jesus nasce em Belém para todas as pessoas, para as de perto e para as de longe, para os judeus e para os gentios, como nos fala o Apóstolo Paulo na Carta aos Efésios (cf. Ef 3,2-3a. 5-6) “…também os gentios são coerdeiros…”; para os pastores e para os magos que veem do Oriente. Não há acepção de pessoas. Mas os primeiros a recebê-lo serão os pobres, os pastores, para que se veja que “os pobres são evangelizados”, como havia dito o profeta Isaías. E, depois, chegaram os magos guiados por uma estrela e buscando seu significado. 

Quem eram esses “magos”?  Não importa se eles eram três ou mais, se vinham do Oriente ou do Sul da Espanha, o importante é que foram adorá-lo. Os Magos desempenham o papel daqueles que estranhos ao judaísmo e à sua religião, buscaram e interpretaram os sinais dos tempos e se arriscaram também a aceitar o Menino de Belém como sua luz.

É verdade que estes textos de Mateus, como os de Lucas, não podem ter sido escritos senão depois que as comunidades cristãs proclamaram Jesus Ressuscitado. Não podia ser de outra maneira. Mas o texto de Mateus é mais especial, está cheio de alusões a textos veterotestamentários que se leem com o sentido de cumprimento de profecias. 

Todos os grandes personagens da história tiveram sua “estrela”, Alexandre Magno, Augusto, e o “rei dos judeus” não podia ser menor, na hora de ser apresentado a toda humanidade.

“A grande conjunção de Júpiter e Saturno no signo zodiacal de Peixes nos anos 7-6 a.C., parece ser um fato confirmado. Podia orientar astrônomos do ambiente cultural babilônico-persa para o país de Judá, para ‘um rei dos judeus’. Saber detalhadamente como esses homens chegaram à certeza que os fez partir e os levou, finalmente a Jerusalém e a Belém, é uma questão que temos de deixar em aberto. A constelação estelar podia ser um impulso, um primeiro sinal para a partida exterior e interior; mas não teria conseguido falar a esses homens se eles não tivessem sido tocados também de outro modo: tocados interiormente pela esperança daquela estrela que devia surgir de Jacó (cf. Nm 24,17).

A estrela que nos conduz a todos deve ser a que nos tira de casa, da acomodação dos bens e opiniões, das certezas humanas, da pretensão de possuir a verdade. É a pergunta sobre o sentido de nossa vida, que buscamos e nos põe a caminho, para além dos nossos prejuízos e interesses. Os que se creem na posse da verdade a única coisa que fazem é ensinar “suas verdades”. Os magos não foram a Belém, carregados de razão, mas sim preocupados e encaminhados por uma pergunta. Aproximaram-se do presépio de Belém para contemplar a verdade feita carne.

Os magos de Oriente como primeiros buscadores de Deus a Deus encontraram, pois aquele que o busca, é porque Deus mesmo suscita o desejo de buscá-lo. Os magos do Oriente encontraram a Deus seguindo a luz de uma estrela; cada um de nós deve buscar insistentemente a Deus, seguindo as luzes que Deus vai pondo continuamente em nosso caminhar pela vida.

Pode ser a luz de uma pessoa, ou de um livro, ou de um acontecimento pessoal especialmente significativo, ou… Deus deposita na alma de todas as pessoas desejos de encontrá-lo, o que nós devemos fazer é purificar os olhos da alma para descobrir a Deus ali onde Ele quer fazer-se nos visível. Os magos do Oriente como buscadores de Deus devem ser para nós um bom exemplo de inquietude religiosa e de busca da verdade.

Costumo dizer que estrelas, luzes estão no céu para todo mundo ver. A vida está cheia de “estrelas”, recados de Deus para nós. Os fatos, os acontecimentos da vida são estrelas que podem nos atrair a Jesus; é preciso estar atentos e saber interpretar o que essas estrelas nos dizem.

Os magos souberam interpretar a estrela e discernir o seu significado. Mais do que ver, identificaram o recado que ela trazia. Outras pessoas podem ter visto a estrela, e não ter entendido ou não ter se importado. Uma estrela, mesmo muito brilhante, só se torna estrela guia para quem como os Magos sabem interpretá-la e está disposto a se por a caminho, como eles. 

A celebração da Epifania nos conduz para o núcleo de nossa vocação cristã ser buscadores apaixonados de Deus, para além de todos os convencionalismos, e ser anunciadores e mensageiros de Jesus, colaborar com a estrela santa na tarefa de manifestar o Filho de Deus, superando todas fronteiras.

Que esta celebração nos convoque a todos os cristãos para a grande missão de fazer brilhar em pleno século XXI a Luz que é Jesus e anunciar a todos os que se encontram afastados da fé cristã e da Igreja que o Menino Deus continua a brilhar para todos, como sinal de salvação e libertação, pois Ele é a “Luz do mundo”.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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