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Padre Assis: O impacto histórico trágico da morte de Cristo e da pandemia

Padre José Assis Pereira. Publicado em 5 de abril de 2020 às 20:30

Neste Domingo iniciamos a Semana Santa nessa situação peculiar, por estarmos num tempo tão incerto no nosso país e no mundo devido à pandemia do “Covid-19” que afeta toda humanidade. Nesta Semana Santa não teremos grandes celebrações ela será celebrada nas nossas casas, com as ruas das grandes cidades quase desertas, uma população em casa.

Quantas vezes podemos dizer que vivemos um momento histórico que será lembrado pelos próximos anos? O impacto histórico e trágico desta pandemia é também oportunidade para refletirmos sobre o impacto histórico e trágico da morte de Cristo, mas que sabemos que não termina na tragicidade da morte, mas na certeza da vida eterna.

Quem somos nós diante das tragédias que assolam a humanidade? Ficamos paralisados no desespero ou agimos confiantes na esperança da nossa fé? Como nós cristãos, nos posicionamos e agimos em situações críticas e desafiadoras? Este momento único na nossa história pode transformar-se numa ocasião privilegiada para aproximar-nos mais de Jesus.

O Evangelho da procissão de ramos, (cf. Mt 21,1-11) recorda a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém logo antes de sua Paixão e Ressurreição. Já o relato da paixão de Cristo segundo Mateus (cf. Mt 26,14 -27,66) nos leva passo a passo pelo caminho que faremos mais profundamente durante esta semana, desde a traição de Judas, os preparativos e a celebração da ceia pascal, a passagem pelo Getsêmani e pelo Sinédrio, até a discussão de Pilatos com Jesus, sua Paixão, Morte e sepultamento.

A leitura da Paixão sempre nos deixa comovidos. É um chamado à conversão. Na Paixão de Jesus o Pai é que nos disse todo seu amor, nos mostra até onde está disposto a chegar em seu amor à humanidade: até dar-nos o mais querido, seu próprio Filho.

Deus quer persuadir-nos com este fato a que nos deixemos convencer de que só respondendo com amor ao seu amor assim expressado, poderemos alcançar o que sonhamos no fundo de nosso coração e que com frequência buscamos por outros caminhos: vida plena e felicidade completa.

Os quatro evangelistas coincidem no essencial à hora de narrar a Paixão do Senhor; mas cada um deles se fixou em certos detalhes que não contam os outros, pondo assim seu próprio acento. Em todos estes relatos chama a atenção o silêncio de Jesus; Ele fala pouco; são os outros que dizem e fazem. Jesus cala.

Como não podemos comentar todo o texto da Paixão, nos centraremos somente nos episódios que só se encontram na versão de são Mateus. Ele é o único que nos diz o preço que os Sumos Sacerdotes pagaram a Judas em troca de sua traição: “trinta moedas de prata”. Este detalhe tem uma grande importância, pois esse era o preço fixado por Lei para a compra de um escravo.

Esse preço mostra o “desprezo” tanto dos Sumos Sacerdotes como de Judas para Jesus. Esse dinheiro serviu para comprar o “Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos estrangeiros” (27,7). Este “Oleiro” é Deus, que na criação modelou o homem do barro. Por esta compra os estrangeiros que morriam em Jerusalém obtiveram um lugar onde ser enterrados.

O preço de Jesus nos faz refletir hoje sobre o preço ou apreço que nós sentimos por Ele. Que valor damos a Jesus em nossas vidas?

Outro detalhe é que durante o interrogatório de Jesus diante de Pilatos, a sua mulher enviou alguém para lhe dizer: “Não se envolva com esse justo, porque esta noite, em sonhos, sofri muito por causa dele” (27,19). Fica claro que este julgamento incomodava muito a Pilatos, mas ele não teve a coragem de fazer justiça, pois sabia que Jesus era inocente e que os lideres religiosos só o haviam entregado por inveja.

Mesmo assim lavou suas mãos, mas aquela água não pode apagar a grave responsabilidade que ele tem neste assunto. Seu comportamento mostra a perversidade de uma justiça que chega ao ponto de condenar à morte um inocente, por medo do poder.

A atitude de Pilatos ante Jesus é um exemplo de como não podemos esperar de quem está no poder. Segue tendo toda sua atualidade. Optar pela justiça supõe sempre coragem. Para isso é preciso educar constantemente nosso espírito no Espírito da Verdade do Evangelho.

Outro detalhe narrado na Paixão de Cristo segundo Mateus é a menção das mulheres: “o grande número de mulheres que estavam ali, olhando de longe. Elas haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia, prestando-lhe serviços.

Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (27,55-56). Pode parecer à primeira vista até irrelevante. No entanto, podemos reconhecer nestas mulheres a convicção profunda do seguimento a Cristo: não abandoná-lo mesmo diante do horror da violência e da morte.

Diante da pandemia, das calamidades e sofrimentos que o mundo enfrenta hoje, nos omitimos, nos deixamos levar pelo medo, ou nos mantemos de pé com os olhos fixos em Jesus assim como aquelas mulheres?

O Papa Francisco na sua oração solitária na Praça de São Pedro disse diante do crucificado:“Na cruz dele fomos resgatados. Temos esperança: em sua cruz, fomos curados e abraçados, para que ninguém ou nada nos separe do seu amor redentor”. Peçamos ao Senhor que no meio do isolamento em que estamos sofrendo a falta de afetos e encontros, a falta de tantas coisas, até do que comer, saibamos ouvir mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive.

No momento da morte de Jesus nos três primeiros evangelhos contam que o véu do templo se rasgou de cima abaixo, em duas partes, mas Mateus é o único que diz: “a terra tremeu e as pedras se partiram.

Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram! Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, apareceram na Cidade Santa e foram vistos por muitas pessoas” (27,52-53). A morte de Jesus revolve a história, o presente e o futuro da humanidade. Sua morte desemboca na ressurreição que restaura todas as coisas.

Um último detalhe próprio da Paixão de Mateus é que “os Sumos Sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos, e disseram: ‘Senhor, nós nos lembramos de que quando este impostor ainda estava vivo disse:

‘Depois de três dias ressuscitarei!’ Portanto, manda guardar o sepulcro até o terceiro dia, para não acontecer que os discípulos venham roubar o corpo e digam ao povo: ‘Ele ressuscitou dos mortos!’ Pois essa última impostura seria pior do que a primeira” (27,62-64). Porém nem a vigilância mais estrita seria capaz de reter Jesus no sepulcro. Nenhum túmulo retém o Autor da Vida.

Neste Domingo de Ramos e da Paixão contemplamos Jesus Crucificado, nele somos chamados a colocar nossa confiança, nossa vida e a vida de todas as pessoas que amamos. Acolhamos esta Semana Santa assim como Jesus Cristo foi acolhido com ramos, sinal da vitória, em sua entrada messiânica em Jerusalém, de maneira simples, mas com total entrega.

Mergulhar na celebração pascal da Paixão e Morte do Senhor neste momento já tão sofrido em nosso mundo será um exercício desafiador, mas caminho único para uma verdadeira e profunda celebração de sua Páscoa, de sua Ressurreição, vitória sobre a calamidade.

Que esta semana seja uma oportunidade de crescimento na intimidade da escuta da Palavra de Deus, o Cristo vivo, Aquele que é o Messias ontem, hoje e sempre, mesmo em tempos de pandemia!

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Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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