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Padre Assis: O fariseu e o publicano que nos habitam

Padre José Assis Pereira. Publicado em 26 de outubro de 2019 às 13:28

Na pregação e na prática de Jesus nós nos deparamos com uma espiritualidade que brota do encontro com a fragilidade humana. Ele, conscientemente, se compromete com os publicanos e pecadores, com os pobres e excluídos da sociedade e da religião, até pagãos, porque sente que eles estão mais abertos ao amor de Deus. São Lucas nos diz que Jesus contou a “parábola do fariseu e do publicano” para “alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros.” (cf. Lc 18,9-14)

Os “fariseus” ou “justos”, vivem centrados em si mesmos e são aqueles que entram em permanente conflito com Jesus. Eles são típicos representantes de uma espiritualidade legalista, distante da realidade humana. Eles não percebem que, observando detalhadamente todas as leis, não estão pensando em Deus, mas sim, em si mesmos. No fundo, não tem necessidade de Deus. Acreditam que cumprindo todos os mandamentos por suas próprias forças, tem o direito de exigir de Deus uma recompensa.

De tanto se fixarem sobre as normas, esquecem o que Deus realmente deseja do ser humano, tornam-se frios, insensíveis e assumem o papel de juízes para julgar o comportamento dos outros. Por isso Jesus os condena duramente, enquanto para os pecadores e fracos Ele se apresenta misericordioso.
Mas, qual é a atitude justa e verdadeira diante de Deus? Esta é a pergunta de fundo desta parábola.

O que para Lucas Jesus proclama como tão revolucionário para aqueles que o escutam, é que não parece justo que o fariseu “excomungue” seu companheiro de oração. Mas, a cegueira religiosa às vezes é tão dura, que o bom é sempre mau para alguns e o mau é sempre bom. Sabe o que é bom neste publicano? É que ele era mau e sabia que o era. Era cobrador de impostos, sabia todas as coisas que havia praticado; todo o dinheiro que havia extorquido, as pessoas a quem havia feito sofrer. O sabia e se envergonhava. Seu dedo não aponta ninguém e sim a si próprio. Seu coração estava vazio, ali pode entrar Deus sem dificuldade.

O fariseu ao invés de confrontar-se consigo mesmo e com Deus, se confronta com o pecador; aqui há um vicio religioso seu. Na realidade somente se vê a si mesmo. O pecador que está ao fundo e não se atreve a levantar seus olhos, se confronta consigo mesmo e com Deus e aí está a explicação do porque Jesus está mais perto dele que do fariseu. O pecador soube entender a Deus como misericórdia. O fariseu, pelo contrário, nunca entendeu a Deus humana e retamente. Este extrai de sua própria justiça a razão de sua salvação e de sua felicidade.

Mas, não vamos cair aqui no maniqueísmo tão presente em nossos dias: os “homens de bem e os marginais, os de direita e os de esquerda…”, bom e mal, cristão praticante, cristão não praticante. Temos a tentação farisaica de pensar que as atitudes do fariseu estão presentes em outras pessoas que devem ser por nós exortadas, julgadas e até excluídas. Na verdade precisamos aceitar que esses são aspectos presentes no nosso próprio eu. Muitas vezes cego para as fragilidades e feridas presentes em nós. A parábola do “publicano e do fariseu” é como o espelho interior que nos “desvela”, nos ajuda a descobrir e acolher o que somos na realidade.

Os dois personagens correspondem a dois aspectos de nossa própria pessoa. Vive em cada um de nós um eu prepotente, que se considera justo e rejeita todo o imperfeito; é o “eu rígido”, que se identifica com a imagem idealizada de si mesmo e se alimenta do orgulho. Mas junto a ele, e com frequência sufocado, vive “outro eu” que teve de esconder-se porque não se sentiu reconhecido em sua verdade, nem aceito em seus limites. Quando nos vemos demasiadamente legalistas, perfeitos, exigentes, rígidos, intolerantes, seria bom se nos perguntássemos a nós mesmos o quanto do “fariseu” nos habita.

Impressionante! Jesus com dois personagens: o “fariseu” e o “pecador” que se retratam a si mesmo em seu modo de orar, consegue nos colocar diante do espelho de nossa interioridade, desmascarando-nos e nos animando a atitude da humildade.

Mas o espelho mostra igualmente que os papéis estão invertidos. Aquele que afirma ser “justo” e perfeito cumpridor das leis, na realidade é o desumano. E aquele que se reconhece pecador, prostrando-se, na realidade é o mais humano, porque “desceu” do pedestal do seu ego, encontra a reconciliação. Somente quando integrarmos e nos reconciliarmos com os aspectos que tínhamos negado ou até rejeitado, em nós mesmos poderemos alcançar a harmonia.

A parábola nos revela que a reconciliação ou “justificação” virá por esse lado. Precisamos abraçar toda a nossa frágil realidade em toda a sua verdade. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pela porta da fragilidade e da limitação; ao contrário, não encontra acesso à nossa vida quando estamos fechados em nossa soberba.

Como vemos esta parábola não se refere à oração, mas à nossa vida e ao nosso comportamento, que precede, acompanha e sucede a oração ou relação com Deus. Jesus nos conta esta parábola chamando-nos a olhar para o nosso interior para aí descobrirmos o fariseu e o publicano que nos habitam. Tampouco a parábola não trata das qualidades externas da oração, técnicas ou fórmulas de oração. E sim trata do sincero reconhecimento da própria condição de nulidade do ser humano que se encontra diante da infinita misericórdia de Deus.

Essa parábola está dirigida aos fariseus de todos os tempos, porque na Igreja sempre existiu e existe o perigo do maniqueísmo, do farisaísmo, dos guetos, grupos eclesiais “conservadores” que se apresentam como possuidores da verdade e os outros é que estão errados; os que se consideram os mais justos e santos. A pertença a uma Igreja santa não deve converter-nos, em “santos fariseus”, melhores ou acima dos outros. Mas, os membros dessa Igreja Santa, devem ser os publicanos que conhecem seus pecados e sua fraqueza e não têm dedos para apontar ou julgar com desprezo aos outros. “Quem sou eu para julgar?… Por trás da rigidez, há algo escondido na vida de uma pessoa. A rigidez não é um dom de Deus. A ternura sim. Mas a rigidez, não! Por trás da rigidez, há sempre alguma coisa escondida, em inúmeros casos, uma vida dupla, mas há também algo como uma doença.

Quanto sofrem os rígidos: quando são sinceros e se dão conta disso, sofrem! E sofrem muito!” (Papa Francisco)

A conclusão da parábola é bem clara e desconcertante: “Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.” (v. 14) A humildade é o coração da mensagem bíblica; ela é a leve e transparente verdade que dá a exata medida de nossa fraqueza e limitação. “A humildade é a verdade” diz Santa Tereza d’Ávila; ser o que se é, nada acrescentar, nada tirar, aceitar seu “húmus”, suas grandezas e seus limites; maravilhar-se de que esta “barro” infinitamente frágil seja habitado pela santidade e seja capaz de amar e perdoar.

A humildade, portanto, implica reconciliar-nos com a nossa condição terrena. O caminho para Deus passa sempre pela experiência da própria fraqueza. Quando não conseguimos mais nada, quando tudo nos foi retirado das mãos, quando somos forçados a constatar que fracassamos, aí é também o lugar onde já não nos resta outra coisa senão entregar-nos nas mãos de Deus, abrir nossas mãos e apresentá-las vazias a Deus, dizendo: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (v. 13)

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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