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Padre Assis: Iluminar e dar sabor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 9 de fevereiro de 2020 às 9:56

Depois de proclamar a seus discípulos as Bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12a) Jesus se dirige aos seus discípulos: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo.” (cf. Mt 5, 13-16) Essa afirmação compreende-se exatamente como consequência das Bem-aventuranças. Jesus quer dizer: se fordes pobres em espírito, os que choram, os humildes, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os que são perseguidos, sereis o sal da terra e a luz do mundo!

Na antiguidade o sal era um bem escasso e tinha um grande valor. Em razão de suas propriedades de conservar, de preservar da corrupção e dar sabor aos alimentos, o sal era considerado como portador de especial força de vida. Por causa de seu efeito de purificação, a Lei judaica prescrevia que se colocasse um pouco de sal em cima da oferenda apresentada a Deus, em sinal de aliança, assim o sal desempenhou também papel no culto.

No tempo de Jesus, eram usados blocos de sal para revestir por dentro os fornos de pão. Com isso, conseguia-se conservar o calor para o cozimento do pão. Este sal, com o tempo, perdia sua capacidade térmica e devia ser substituído. Os restos das placas retiradas eram utilizados para compactar a terra dos caminhos, para ser pisado pelas pessoas. Agora podemos compreender melhor a expressão: “se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (v. 13).

Quando Jesus diz aos seus discípulos que devem ser “o sal da terra”, Ele está a lhes dizer que não se deixem corromper, que lutem contra a corrupção, e que deem sabor cristão a tudo o que dizem e fazem. Para não ser corrompidos é necessário ter a alma como que “blindada” com o sal do Evangelho, porque é facílimo deixar-se contaminar pela corrupção generalizada de nossa sociedade.

Corrupção nas palavras e nas obras, corrupção na vida privada e na vida pública. Às vezes dá a impressão de que só não são corruptos unicamente os que não o podem ou não o sabem sê-lo. Sem generalizar de mais, claro, mas reconhecendo que a corrupção é um fenômeno bastante generalizado em todos os âmbitos da sociedade. Se os cristãos querem ser sal da terra, devem lutar contra esse fenômeno da corrupção.

“Se o sal se tornar insosso… não servirá para mais nada”. Isso é o pior que pode acontecer ao cristianismo, deixar que ele se torne anódino, convencional, exterioridade, tradição cultural e até folclórica. Então ele pode ser descartado ou ser substituído por outros ritos e costumes sociais igualmente meramente convencionais. É que se o cristianismo não tem força interior, ficará só nisso: mimetismo litúrgico, gestos externos, tradições seculares e costumes sociais e convencionais. Mais cedo ou mais tarde, acabará na insignificância e no nada.

“Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte…” (v. 14) A metáfora da luz, tão estendida na fenomenologia da religião, evoca as epifanias ou manifestações reveladoras do Deus transcendente, que busca relacionar-se com a humanidade. A luz para Israel era o símbolo da revelação messiânica que triunfa sobre as trevas do paganismo.

Assim, pois, a comunidade cristã, iluminada pela luz da Palavra, há de pôr-se, a serviço dos outros buscando como orientar e igual ao candeeiro iluminar toda a casa. Os cristãos são chamados a ser a luz do mundo deixando-se reconhecer por suas obras: “brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o Pai” (v. 16) objetivo fundamental de sua missão evangelizadora.

Há um aspecto fundamental no qual o simbolismo do sal e da luz coincide: não têm utilidade por si mesmo. Se o sal permanece isolado em um recipiente, não serve para nada; só quando entra em contato e se dissolve nos alimentos pode realçar o sabor ao que comemos; para salgar, o sal precisa desfazer-se, deixar de ser o que era. Não é o sal que “dá sabor”; ele realça o sabor de cada alimento. O humilde sal é feito para os outros, para que os outros sejam eles mesmos.

O mesmo acontece com a luz; através dela é que percebemos as cores, se ela permanece oculta, não pode iluminar ninguém. Só quando está em meio às trevas pode iluminar e orientar. A luz não é para ser vista, caso contrário, cega. A lâmpada ou a vela produz luz, mas a cera se consome. Imagens que revelam que nossa existência só terá sentido na medida em que nos consumimos a serviço dos outros. Uma comunidade cristã isolada ou fechada do mundo não pode ser sal e nem luz.

A luz pela sua natureza é feita para iluminar, para mostrar visível e, não para ficar escondida ou no anonimato. Acontece que há muitas pessoas que necessitam apagar a luz do outro, apagar seus valores, porque assim acreditam que elas brilharão mais, mas o certo é que esta é uma forma equivocada de ver o outro. Há muitas maneiras de esconder a luz: as críticas, a rejeição, a inveja, o ciúme… tudo gerado por esse olhar equivocado que nem sempre olha para sua realidade pessoal.

Devemos ter cuidado de iluminar, não deslumbrar.

Muitas vezes, nós cristãos somos mais habituados a brilhar, deslumbrar que a iluminar; temos a tendência a ser presença iluminante desde que com isso se potencie nosso “ego”. Porque o ego necessita fazer-se notar e brilhar; não se está disposto a consumir-se, a servir apenas e nem a passar desapercebido.

O chamado a ser sal e luz, a iluminar e dar sabor nos propõe um estilo próprio de vida aberto e expansivo: uma maneira alegre, responsável e generosa de se fazer presente neste mundo onde deve ser central o cuidado com o outro e o trabalho em favor da justiça como dizia a profecia Isaías (cf. Is 58,7-10): “reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres sem abrigo e peregrinos, veste o que não tem o que vestir… então brilhará tua luz”, isto é a luz das boas obras.

O apelo de Jesus nos move a transformar o que, com frequência, é terra insípida e nas trevas em um mundo mais humano, com sabor de lar humanizador. Sejamos lâmpadas acesas, Deus nos dá esta luz e nós devemos levá-la aos outros.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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