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Padre Assis: Aumenta a nossa fé!

Padre José Assis Pereira. Publicado em 6 de outubro de 2019 às 9:17

O profetismo foi muito importante para manter a esperança do povo no Deus da misericórdia e paciência. O mundo atual debate-se com muitos problemas, que tem trazido muita insegurança, graves desrespeitos aos mais elementares direitos humanos, sofrimento, violência e injustiças. Queremos saber o motivo porque Deus, nosso Pai, onipotente e infinitamente bom os consente.

O profeta Habacuc (cf. Hab 1, 2-3;2, 3-4) não fala ao povo, fala diretamente ou se queixa a Deus e lhe pede explicações face à sua surdez ou seu aparente silêncio ante as injustiças. Porém, o profeta mostra a fé como resposta misteriosa e, no entanto, a única em que se pode confiar: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti: Violência!, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades, quando tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente, reina a discussão, surge a discórdia”. (Hab 1,2-3)

É certo que muitas vezes nós também enfrentamos a mesma situação que está atravessando o profeta (séc VII e VI a.C.). Olhamos ao nosso redor e só vemos injustiças, iniquidades, a maldade impera. Enquanto quem tenta ser justo em sua vida só recebe pauladas. Então em um gesto de impotência gritamos, por favor, alguém nos escute: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes?”

E o Senhor responde ao profeta que fique tranquilo: “se demorar, espera, a resposta virá com certeza, e não tardará…” porque só sucumbirão os que não forem retos, enquanto o justo viverá por sua fé. E pede a ele que escreva, anote para que se possa ler com facilidade para sempre.

A fé é, no caso, confiança total em Deus, em oposição à autossuficiência, quer dizer, a vida do justo depende de em quem ele põe sua confiança. Esta confiança ou fé transforma sua vida e pode experimentar que nada há de impossível, tudo se enfrenta com segurança.

A pergunta pela injustiça e o mal é comum ao ser humano e tão antiga quanto a vida. Perguntar-se, portanto, é lícito. O que não está claro sempre é de onde virá a resposta e qual será sua natureza. Nós que cremos clamamos a Deus, às vezes, não para que nos responda, mas sim para que solucione nossos problemas. E parece que, tanto o texto do profeta Habacuc como a leitura do evangelho deste domingo (cf. Lc 17,5-10) nos dizem que a solução não é essa. Não é Deus quem vai atuar por nós. Sua mão está disposta a pôr-se de nosso lado, mas só se recordamos que nossa tarefa ninguém pode fazê-la por nós.

Portanto, é mais do que nunca atual o pedido que os apóstolos fazem a Jesus: “Aumenta a nossa fé!” (v. 6) Este pedido revela, sem dúvida, uma situação vacilante dos apóstolos ou da comunidade cristã em

que se gerou os evangelhos; Que os apóstolos sofreram crise de fé é evidente lendo os evangelhos. A crise atual, no entanto, não é apenas de fé ou religiosa, é também uma crise humana. A descrença estende-se a todo programa político, social e econômico… Surge o desencanto, o ceticismo e a indiferença. Situação de crise é frequente na vida de qualquer pessoa ou comunidade cristã. Como então reagir diante desta crise que estamos vivendo?

Jesus responde: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria.” (v.6) Não é Jesus quem nos soluciona a vida. Somos nós quem temos que nos aproximarmos da amoreira e arrancá-la, somos chamados a transformar a realidade, a trabalhar frente às injustiças, a mudar a paisagem com nosso esforço. Com seu apoio, com sua luz, com sua força, e em comunidade, “se vós tivésseis”, diz o texto, para não nos esquecer de que a tarefa é tão somente nossa.

A fé é um dom de Deus que temos que pedir constantemente para nós e para os outros. Temos que fazer nosso o pedido dos apóstolos a Jesus: “Aumenta-nos a fé!” Assim é como a fé nos ajuda a dar sentido a nossa vida e a tomar uma postura ante os acontecimentos que nos rodeiam. É uma verdadeira fé, grande ou pequena, mas comprometida não só um tempo, mas sim em todo momento e circunstância de nossa vida, É a fé que não nos isola do mundo, mas sim que nos ajuda de uma maneira comprometida a realizar o projeto de Deus.

Não se trata de ter fé em algo, nem tampouco força da fé não depende da grandeza, mas sim do seu ponto de apoio que é Jesus. Pedir que Jesus a faça crescer, já é expressão de fé e consciência da própria impotência. Quantas pessoas no meio de nós possuem esta fé forte, humilde, e que faz tão bem!

A fé que move árvores ou montanhas deve mudar muitas coisas. A comparação de que, pela fé, se arranca ou se transplanta uma árvore de grande porte, com raízes fortes e profundas, que ninguém consegue arrancar, afirma Jesus é a fé que consegue realizar aquilo que aos olhos humanos parece impossível. A fé tem a capacidade de transformar as situações mais absurdas. A fé, portanto poderá ser avaliada como a força que desenraiza uma árvore de grande porte, mesmo que ela, a fé, seja tão pequenina como o grão de mostarda. Se pensarmos bem, não se trata da intensidade da fé, se grande ou pequena, mas de sua qualidade, se pura ou não.

A pouca fé que temos, mas que é pura e forte, com ela podemos dar testemunho de Jesus Cristo, ser cristãos com a vida, com o nosso exemplo; como nos diz são Paulo em sua carta a Timoteo, tão cheia de alusões pessoais. Escrevendo no cativeiro em Roma. Paulo exorta o seu fiel colaborador (cf. 2Tm 1,6-8.13-14) a perseverar incansavelmente no ministério: “reaviva a chama do dom de Deus que recebeste… pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade. Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho”.

Os verbos empregados no texto são os mais explícitos: “reaviva”, “não te envergonhes”, “sofre comigo”, “guarda o precioso depósito”. Tudo chama à ação, a não esperar que nos chegue a salvação, mas sim a trabalhar por ela. O apóstolo recorda-nos o que devemos fazer para poder seguir neste caminho da fé.

E o texto é tão rico, que preciosidade! Talvez seja somente necessário fazer uma leitura detalhada, e sem comentários. Terminando com um último desejo de pai que quase parece despedir-se: “Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós.”

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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