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Campina Grande - PB

Ouro branco manchado de suor

20/10/2017 às 7:49

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

No dia seguinte à exibição do programa Ideia Livre, da TV Itararé, sobre o aniversário da cidade e sua História, uma pessoa no calçadão me parou para conversar sobre meu comentário como entrevistador. O cidadão veio me cumprimentar, por ter-me visto no programa e achar que eu era daquelas bandas de Itabaiana, de onde ele era também, mas expliquei, que meus pais largaram o cabo da enxada, diante de tanta exploração, emigraram e eu terminei nascendo no Recife.

Ele se referia à minha crítica dessa visão de Campina como o lugar do ‘Ouro branco”, quando citei o caso do meu avô e meu pai, os Camilo, junto com os Gomes da Silva, de minha mãe. Os Camilo, primeiro, tinham arrendado terra em Manoel de Matos, divisa com Pernambuco (na altura de Timbaúba). Com o tempo, a família crescendo e, quando a renda da terra não dava mais para pagar o foro, o velho, Pedro Camilo apalavrou terras na fazenda Ramalho, quase às portas de Itabaiana. Ia ser melhor, deve ter pensado, até, para vender as sobras da roça na feira. Além de roça, plantava algodão, mas só podia ser vendido ao fazendeiro, pelo preço que ele estipulava e pelo peso falso de uma pedra que ele dizia ter 25 quilos. E os camponeses se danavam a botar algodão na balança para tarar a pedra e nada. Um deles me contou que chegavam até jogar um pouco de areia, às escondidas, por que aquele peso ‘da mulesta’ não tinha algodão que batesse. Outra saída, inventada, foi a de escapulir, de madrugada, com o algodão no lombo de um burro e ir vender em Timbaúba, que tinha preço melhor. Se fosse levado para Itabaiana, os moradores do Ramalho iam ser reconhecidos e denunciados, até através de cochichos, ao proprietário.

Pois bem, o cidadão que me abordou no calçadão, disse que era de Mogeiro (originário de Timbaúba) e confirmava tudo o que eu tinha dito contra o endeusamento (discursivo) do ‘ouro branco’. Contou que, lá, em Mogeiro, nos anos 60 e 70, ele e os irmãos colhiam algodão para encher uma saca de 80 quilos. Falou da dificuldade que era para chegar a tal peso, que ficava pendurado no teto para socar com os pés o algodão e os irmãos só botando algodão, botando algodão e ele socando para ver se dava 80 quilos. Confirmou, também, essa história da pedra de 25 quilos.

Também confirmou que sua família era obrigada a vender só ao dono da terra, os Borges e pelo preço que ele botava. Só podia vender na fazenda dele. Tudo o que eu disse de pai e avô, nos anos 30 e 40, em Itabaiana, continuava a se repetir em outro tempo e lugar, próximos. Em particular, me perguntou se eu sabia do destino daqueles Borges, que terminaram por irem se matando uns aos outros, e disse que um ramo deles é o da Várzea. Ignorava esta parte.

Outro detalhe que ele acrescentou e que foi outra vez de eu me identificar, foi quando falou que Mogeiro era o maior produtor de amendoim. Aí, eu disse que todo sábado, dois tios meus desciam de Itabaiana e Serrinha, com, exatamente o amendoim de Mogeiro, para vender na feira de Goiana. Eu ia, lá, e enchia os bolsos e saía comendo pela feira. “Ques’ coisa? Como diria meu povo do agreste.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

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