Fechar

Fechar

Os santos anônimos

Padre José Assis Pereira. Publicado em 5 de novembro de 2016 às 19:31

padre_assis6

Por Pe. José Assis

“Eu João, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro, trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão.” (cf. Ap 7,2-4.9-14) Estamos diante de uma das visões de São João em seu exílio. O céu abre suas portas e deixa que o olhar penetrante do vidente, como de uma águia, contemple o mistério dos que foram salvos da hecatombe apocalíptica.

Desde suas origens, o dia de todos os santos foi uma festa instituída pela Igreja para venerar num só dia todos os santos e santos, que não têm uma festa própria no calendário litúrgico.

Os santos anônimos são uma multidão imensa, como aqueles primeiros mártires cristãos dos quais fala o livro do Apocalipse, que “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro.” (Ap 7,14)

A maioria de nós teve a sorte de conhecer ou conviver com vários destes santos anônimos, entre eles certamente estão muitos dos nossos parentes, amigos e conhecidos.

A santidade às vezes, não se manifesta em grandes obras nem em sucessos extraordinários. Santos são todas aquelas pessoas que viveram movidas pelo amor a Deus e aos irmãos. Em todos os momentos, bons ou maus mantiveram viva e ativa sua fé e sua confiança em Deus. Talvez o amor fiel até ao esquecimento de si mesmo, e à entrega total aos outros, com a renúncia ou sacrifício dos seus próprios projetos e planos, foi o sinal pelo qual foram mais conhecidos e admirados. Exerceram em grau máximo a virtude da caridade. Estes santos anônimos sempre estiveram perto das pessoas pobres, abandonadas, enfermas, tristes ou marginalizadas.

Ser santo significa participar da santidade de Deus, como uma imagem refletida num espelho. Estes homens e mulheres se deixaram seduzir pela beleza de Deus. Madre Teresa de Calcutá, recentemente canonizada, considerava-se apenas um lápis nas mãos de Deus: “Muito frequentemente me sinto como um pequeno lápis nas mãos de Deus. Ele escreve, Ele pensa, Ele faz os movimentos. Eu só tenho que ser o lápis” (discurso de Madre Teresa, Roma, 07/03/1979). Ela estava convencida de que Deus usava o seu “nada” para mostrar a sua grandeza. Nunca se considerou a autora das coisas que realizava e sempre tentou desviar a atenção que recebia, para Deus e para “a obra Dele” junto aos mais pobres dos pobres.

Os santos, não se conformaram com o que encontram ou conquistaram no solo, com as proposta caducas de felicidade. Eles apostaram alto, descobriram que Deus era o máximo e deram o firme testemunho dele.

Ainda está em moda ser santo. A vocação a santidade é para todos. É possível seguir Jesus em meio a tanta mediocridade! Sendo diferente dos modelos que nos propõem uma sociedade saturada de egoísmo, individualismo, amor utilitarista e falsos ídolos; porém necessitada de autênticos referenciais de justiça, verdade, amor e paz.

É possível seguir Jesus porque, outros irmãs e irmãos nossos, também como nós, lutaram por isso e entre outras coisas, foram imensamente felizes assim. Onde está, então, o segredo da felicidade de todos os santos? Na beleza interior. Como nós, eles tiveram um ponto de partida, o Batismo, mas tomaram a peito a fascinante tarefa de chegar à meta da santidade a partir de Deus, sem esquecê-lo.

Uns sem querer, não passaram despercebidos, não permaneceram desconhecidos, deixaram marcas por onde passaram. Outros, porque assim o quiseram, brilharam só para Deus. Por isso só Ele conhece quem são, nós continuamos sem o saber, porém são santos. Outros ainda, estão vivos, são os santos do próximo século. Homens e mulheres que, em tempos difíceis para a fé proclamaram com coragem e com espírito bem-aventurado que vale a pena seguir Jesus. E em meio a tudo isso, estamos nós. Sim, nós também somos chamados à perfeição e a santidade, da caridade, da misericórdia e do amor, da alegria verdadeira e da esperança cristã.

Para Jesus, o Reino de Deus é entendido no Evangelho como a realização plena da nossa felicidade, o ponto de chegada dos nossos melhores anseios. Todos os que desejam e sonham ser verdadeiramente felizes encontrarão sua plena realização neste Reino proclamado por Jesus. Para chegar lá, todos podem tomar o caminho das “bem-aventuranças” (cf. Mt 5,1-12) indicado por Cristo.

As bem-aventuranças ou sermão da montanha, talvez um dos textos evangélicos mais admirados por todos, crentes ou não crentes e que permanece tão atual, ajuda a compreender que a santidade é esse estilo feliz de vida cristã, essa transformação de nossas mentes e corações para ver o mundo e as pessoas como Deus os vê e para estar no mundo com os sentimentos e as esperanças de Deus.

Nas bem-aventuranças devemos escutar, sobretudo e com a máxima atenção, o que elas nos dizem sobre Deus. Geralmente estamos preocupados por aquilo que devemos fazer. Mas antes, temos de saber ver a Deus tal como Jesus nos revela, nas promessas que fundamentam cada bem-aventurança. Elas nos deixam uma maravilhosa mensagem sobre Deus e sobre sua relação com as pessoas.

Essencialmente, a mensagem de Jesus é uma mensagem sobre Deus nosso Pai, que nos dá a bem-aventurança na comunhão com Ele. Isto se nos comunica pela fé. Jesus nos anuncia o Pai. Não o faz diretamente, visível e experimentável. Mas, em sua ação, Ele nos dá a conhecer a bondade e a fidelidade do Pai e, em seu modo de viver, nos mostra a plena confiança e a alegria bem-aventurada nele. Nesta mensagem nos indica a meta a que, já desde agora, cheios de alegria, podemos alcançar. Devemos fazer nossa cada vez mais a boa noticia de Deus, que enche da bem-aventurança, e do comportamento que a ela corresponde.

Jesus inverte a escala de valores do mundo, sua mensagem é revolucionária. Muitas vezes já se quis deformar ou ocultar a exigência radical do Evangelho. Mas, suas palavras são tão claras, que confesso a minha dificuldade em comentá-las ou acrescentar algo ao que o Senhor disse. As bem-aventuranças propõem um ideal de vida que, como todo ideal, é inalcançável em sua totalidade. Na medida em que sejamos capazes de vivê-las estaremos mais perto de Deus e do que Ele quer. Mas, não devemos desanimar se nunca chegarmos à perfeição que este ideal sugere. Simplesmente, temos de tentá-lo.

Enfim, as bem-aventuranças são características simples que podem ser encontradas em qualquer pessoa: ser pobre ou estar aflito, ser manso ou humilde, ter fome e sede de justiça, ser misericordioso, ter um coração limpo, trabalhar ou promover a paz, manter-se feliz mesmo perseguido, perseverar em sua fé, apesar da incompreensão. Pensando bem, essas coisas não são difíceis da gente fazer. Elas só são difíceis para quem não quer se esforçar para construir a sua felicidade. Nesse sentido, as bem-aventuranças são também um apelo de Cristo a abraçarmos esse estilo de vida. A felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito à alegria das promessas de Cristo.

Celebrar a festa de todos os santos não significa ficar na sua simples contemplação. Honrar a memória de todos os santos é continuar a mesma adesão deles a Jesus e saber crescer espiritualmente ainda que em meio aos defeitos e debilidades optando claramente outra vez, pelo caminho da conversão.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube