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Os “sambas” fúnebres de Zé Madalena

Jurani Clementino. Publicado em 17 de janeiro de 2019 às 11:35

Eu não sei precisar ao certo em que ano Zé Madalena passou a residir, feito um sapo, na beirada daquela lagoa. Quando chegou por ali, aquelas terras ainda pertenciam a seu Antônio de Sousa, que na época era dono de boa parte das terras produtivas dos sítios Carnaúbas, Lagoa de Dentro, Umari e Lagoa dos Nunes. Mesmo depois que o proprietário faleceu, Zé Madalena conseguiu o direito de permanecer morando ali. Ficou muito conhecido por suas bebedeiras e os constantes sambas que varavam a noite e entravam pela madrugada. Às vezes amanhecíamos ouvindo o barulho do pandeiro disputando espaço com o cantarolar dos galos.

Com quase dois metros de altura, desses negros faceiros e desengonçados Zé Madalena só saía daquela pequena casa de taipa, ladeada por alguns pés de bananeiras para pescar, caçar ou verificar se alguma galinha d’água havia caído nas arapucas que ele mesmo armava em cima de suportes colocados dentro da lagoa. Ah, deixava sua morada ainda para ir comprar cachaça e pacotes de fumo nas bodegas dos sítios ali vizinhos. Fumava num cachimbo e bebia na boca da garrafa mesmo. Mas ele também era um homem espirituoso. Conectado com as questões sobrenaturais. Quando descobria que alguém pelas redondezas havia morrido Zé Madalena tratava logo de preparar um samba em homenagem a alma do falecido. A celebração envolvia, além do toque do pandeiro, a improvisação de músicas que ele mesmo inventava e altas doses de cachaça. Festanças compartilhadas quase que unicamente com suas três cachorras, apelidadas com os nomes de Marli, Marleide e Angelita. Ah, existia ainda um gato que se chamava Xavier.

Quando a lagoa estava cheia a água chegava bem próximo a sua casa e as pessoas que andavam por ali tinham que desviar o caminho e praticamente entrar no quintal da casa de Zé Madalena. Embora não mexesse com ninguém tinha fama de valentão, mal humorado e grosseiro, por isso as mulheres morriam de medo dele. E ele, que nunca casou, devia sentir uma falta danada de uma mulher para lhe fazer companhia nas frias noites a beira da lagoa. Mas nunca se ouviu falar dele faltar com respeito aos que por ali trafegavam.  Fiquei sabendo que quando ele era mais jovem vivia pela cidade de Cedro e ganhava a vida como artista de rua. Disseram que mesmo com aquela altura, Zé Madalena conseguia se equilibrar em cima de pernas de pau e animava a criançada com os bonecos de fantoche. Ao redor de sua casa plantava arroz, milho e feijão que ajudavam na sobrevivência. Quando alguém precisava de um choque, uma espécie de armadilha feito de madeira e usada para pescar nos poços e riachos, encomendava a Zé Madalena.

Já envelhecido, Zé Madalena recebia os cuidados de uma sobrinha. Maria de Chico Acena passava por lá todos os dias e providenciava tudo que ele precisava. Mas a mão perversa do destino tratou de exercer toda a sua crueldade para com Zé Madalena. E quem tanto festejou a morte alheia, teve um final trágico. Era um sábado de janeiro de 2005, Maria acompanhava o velório de um conhecido e não pode ir até a casa do tio. Ela estranhou porque não ouvira o fúnebre pandeiro tocar durante aquela noite. No dia seguinte chegou lá e percebeu que Zé Madalena não estava em casa. Resolveu procurar ali por perto e encontrou seu corpo caído dentro de um desses fornos rurais denominados de cavuca, onde se produz carvão vegetal. Embora o proprietário já tivesse retirado o carvão dali no dia anterior, o buraco feito no chão estava muito quente e devido a temperatura e também por está bastante embriagado, Zé Madalena não teria conseguido sair e morreu naquela cova quente e rasa, aos sessenta e cinco anos de idade.

 Jurani Clementino

Campina Grande – quarta-feira 16 de janeiro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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