Fechar

logo

Fechar

Os Cordéis de Noêmia!

Jurani Clementino. Publicado em 14 de fevereiro de 2019 às 12:25

A gente do sertão é apresentado aos poetas, repentistas e emboladores, muito cedo porque eles são responsáveis pelas principais manifestações culturais que fazem (ou faziam) parte de nosso cotidiano. Foi assim que conheci a literatura de cordel. Eu ainda era uma criança. E quem me apresentou, acidentalmente, foi uma senhora chamada Noêmia. Ela era mãe de Zezinho um dos meus melhores amigos de infância. Noêmia tinha mais de meia dúzia de filhos, todos ainda muito jovens, quando fora abandonada pelo esposo que saiu de casa e nunca mais deu notícias. A gente não entendia direito aquela atitude masculina. Hoje sabemos que foi uma baita covardia. No fundo, ela também reconhecia e sentia isso. Sentia mas não falava nada. Vivia a sua dor em silêncio. Não deve ter sido fácil praquela família e muito menos praquela mulher que precisou trabalhar duro no roçado para criar aqueles filhos todos. No entanto, Noêmia encarou o desafio que é viver, com seriedade e contou com a ajuda de irmão, tios e vizinhos.

Mas a mãe daquele meu amigo de infância tinha em casa, além da solidão do abandono e das angustias de uma vida sofrida, uma coleção de folhetos clássicos das histórias mais interessantes que ouvi até então. Elas eram contadas em forma de versos. Não faço ideia como ela conseguiu aqueles cordéis. Mas recordo que eram edições modernas, ilustradas com capas exageradamente coloridas. Aqueles versos tratavam de histórias e enredos bastante envolventes para aquelas crianças e, me recordo que, para ajudar o nosso deslumbre, Noêmia não lia os cordéis, ela declamava. E de tanto declamar pra gente e pra outros meninos, algumas daquelas histórias ela já tinha decorado. Foi ali, sentado na sala daquela casa antiga, que ouvi falar sobre As Proezas de João Grilo, das aventuras de Pedro Malasartes, da bravura de Lampião, o Capitão do Cangaço e do deslumbrante Pavão Misterioso. E a gente ouvia atentamente porque era uma novidade aquela maneira rimada de contar histórias em versos.

Com a proximidade do centenário de nascimento do varzealegrense padre Antônio Vieira, um amigo, me pediu que escrevesse quatro estrofes em formato de sextilha (cada uma das estrofes com seis versos), homenageando o maior defensor do jumento. A ideia é lançar um folheto de cordéis ainda esse ano. Aí eu recorri às minhas memórias de infância para construir os versos. Confesso que não sou muito bom nisso, mas ofereço o que consegui produzir a dona Noêmia. Veja o que ainda fui capaz de fazer:

Nascido em dezenove

Filho de um velho tropeiro

Foi levado ao seminário

Formou-se em padre primeiro

Depois virou professor

Das línguas do mundo inteiro

Foi eleito Deputado

No ano sessenta e seis

Teve o mandato cassado

Pelo discurso que fez

Se estivesse hoje em Brasília

Era cassado outra vez

Da igreja foi um crítico

Das letras foi escritor

Dos jornais foi um cronista

Sempre lido com fervor

Das leis era advogado

Um excelente orador

Defensor dos animais

Criou logo um movimento

Fez o livro mais completo

Que se tem sobre o jumento

E chamou Zé Clementino

Que atendeu o chamamento

Jurani Clementino

Campina Grande – Sábado 09 de janeiro de 2019

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube