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Os Campos, patrono e confrade da ALCG

Josemir Camilo. Publicado em 8 de dezembro de 2017.

Por Josemir Camilo de Melo (*)

No dia 8 de dezembro, a Academia de Letras comemora o natalício de seu co-fundador, Aluízio Afonso Campos, data só mantida em pauta pela Furne. Provavelmente, a coincidência da data, como feriado católico e nascimento de Aluízio, deve ter animado sua mãe, a fervorosa praticante, Yayá (Porfíria). Já, o pai, Afonso Campos, era ateu irredutível. Quem escreveu esse detalhe foi o cunhado de Yayá, Augusto Campos, décadas depois, em carta à sua prima, Esmeraldina (Passinha) Agra. E, para reforçar esse ateísmo, narrou os últimos momentos deste que veio a ser o Patrono da Cadeira nº1, da ALCG, Afonso Rodrigues de Souza Campos: “Quase moribundo, recusou a confissão, isto quando o desembargador Heráclito Cavalcante, seu extremoso amigo, lhe perguntou baixinho: Afonso, você quer se confessar? Resposta: “Não, o que desejo é um médico”. Minutos depois sofre uma síncope e voltando a si, disse: “venci a morte desta vez!”. Logo depois repete-se a crise, não voltando mais, lá se foi para o além”. Isto, em 1916.

Aluízio se criou sem pai, pois ficara órfão, antes de completar dois anos. No entanto, adquiriu vasta cultura jurídica, que pode ser mapeada, um pouco, com os livros remanescentes da biblioteca do pai, que foram incorporados a do filho. As leituras de Afonso Campos iam da área jurídica à ensaística, em geral, pois assinava Révue de Philosophie, dirigida por Ribaut, onde pontificavam Bergson e Freud; a revista Kósmos, lançada em 1904, dirigida por Jorge Schmidt, que ele adquiria na Livraria Penna, na capital paraibana.

Aluízio Campos, na Apresentação do livro Affonso Campos, um contemporâneo do futuro, alega que o acervo escrito de seu pai era pouco, pois era dado mais a oralidade (jurídica). Não se refere, no entanto, aos artigos de jornais que Affonso Campos escrevia, mas não assinava. Quantos aos livros, Aluízio confessa que ainda conservava “algumas joias da sua pequena biblioteca como Shakespeare’s Complete Works, Dante, Plutarco, Homero, Virgílio, Victor Hugo, Cervantes, Pascal, Montaigne, Tito Lívio, Aristóteles, Schopenhauer, e outros clássicos”, cita ainda a Revista de Filosofia (outra, ou Aluízio a traduz, aqui?). Embora não a cite, mas vimos pessoalmente em sua biblioteca, a Revista do Brasil, dirigida, então, por Júlio de Mesquita.

No acervo bibliográfico de Aluízio, ainda se encontram algumas preciosidades da biblioteca particular de Afonso Campos, como “Leçons de Politique Positive”, de J. V. Lastarria (1879), e “Théorie Genérale de L´État”, de Bluntschli (1891). Amante das letras, Afonso Campos adquirira “Ilíada de Homero”, em “verso portuguez” por Manoel Odorico Mendes (1874), adquirido na mesma livraria paraibana, Penna. Era tão cioso de seu material cultural que gostava, não só de apor seu nome nas folhas de rosto dos livros, marca de propriedade, mas até mesmo no prólogo, como deixou registrado, no da Ilíada. Acima de “Ao leitor”, Afonso Campos manuscreveu: “É de Aff. Campos”.

Outro exemplo de propriedade está na revista Kosmos, em que apunha seu nome logo acima, como se quisesse evitar apropriação indébita, ou para separar daquelas que, inicialmente, recebera de João Lyra Tavares, seu colega na redação de A República, órgão da ala dissidente, que criticava o jornal do governo A União.

Tanto Afonso Campos, quanto, posteriormente, o filho, Aluízio Campos, vivenciaram o cadinho intelectual e político (mais este) em que foram criados, para serem doutores e comandarem hostes políticas. No caso exclusivo de Afonso Campos, uma grande mantenedora deste habitus foi, sem dúvida, sua esposa, Porphiria Montenegro, que estudara no Recife e que, com a morte do esposo, encaminharia o filho, para a Faculdade e para a política. Perspicácia. É a história do berço, do entorno, do campo cultural, do campo político, é isto que performa o habitus (segundo o antropólogo e sociólogo francês, Pierre Bourdieu). De posse dessa cultura que lhe solidificava o habitus, estava a cavaleiro, tanto na banca e tribuna, como na política. A Academia rende, nesta data, pois, homenagem aos Campos campinenses (para distinguir, aqui, de outros Campos, famosos nacionalmente), patrono e fundador da Academia de Letras de Campina Grande.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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