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Os 50 anos da guerra de Biafra

Josemir Camilo. Publicado em 12 de janeiro de 2017 às 22:17

Por  Josemir Camilo

Rompi ano, lendo a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, seu excelente romance Meio Sol Amarelo. Pretendo, aqui, apenas comentar a leitura do romance e colocar dúvidas sobre a produção literária de autores africanos brancos, os nascidos na África, de primeira ou segunda geração, se fazem literatura africana ou apenas literatura, universal.

Chimamanda, além de romancista premiada, ficou famosa, nas mídias eletrônicas, com a divulgação de sua conferência “O Perigo da História Única” (2009), que já teve mais de 12 milhões de visitas. Um ano antes, lançara, no Brasil, este romance, tomando como pano de fundo a guerra da secessão.

Quando jovem, estudante, no Recife, pude acompanhar pela Tv, em preto e branco, uma das guerras mais vergonhosas, na África, uma guerra interétnica. Passado meio século dessa atrocidade, a autora nigeriana nos mostra a tragédia da secessão, de sua província, da Nigéria. Em 1970 veio a derrota, não pelas armas, mas pela fome imposta pelo governo federal e mau gerenciamento dos rebeldes, nesta questão. A primeira vez que se desencadeou uma campanha mundial de ajuda humanitária contra a fome e, pela primeira vez, virava protagonista na Tv. A fome que dizimava os biafrenses, através da doença, Kwashiokor, desnutrição em escala degenerativa rápida.

Seu romance narra, a partir de um serviçal, o universo político, social e intelectual nigeriano se fracionando após a sua independência em 1960. Durante o colonialismo, aniversários de heróis brancos, como o de Churchill e do duque de Wellington eram comemorados pela nação de negros (o termo negro – nigrus, foi criado pelos romanos para designar os habitantes do rio Níger).

O próprio nome Nigéria foi uma criação dos administradores ingleses, que dividiram a região em Norte (muçulmano), sul (cristão) e sudeste, terra dos Ibos (ou Igbos), a elite intelectual e administrativa do país. No norte, o povo Hauçá, é narrado pelos personagens Ibo, como povo de vaqueiros, no sentido depreciativo. Os Ibos, infiéis, que estavam no poder, deviam ser passados a fio de facão, segundo os Hauçás, como de fato veio a acontecer. Os Ibos para se protegerem dos massacres decidiram pela secessão do país, fazendo de sua região um país, a Biafra.

Isto só para situar alguns dos povos que a narradora põe no romance: ioruba, ibo, hauçá e hauçá-fula(ou fulani), ijexa, tiv, jolof (wolof) kalabari (de onde o nosso Calabar?), rirers, ijo, efik e gente dos dialetos wawa, imo, aro e asaba, entre mais de 300 grupos étnicos e cerca de 520 línguas/dialetos. Como transformar toda esta realidade étnica em um só país? Todos estes povos, etnias, que existiam em torno do rio Níger, foram por imposição de uma cartografia colonialista, decidida pelos europeus, no congresso de Berlim, em 1884, tomados juntos como Nigéria e colocados sob um protetorado da Inglaterra. A raposa tomando conta do galinheiro.

A autora se vale do estilo de narrador onisciente neutro, a partir do serviçal, Ugwu, e prossegue a trama de romance em que a autora descreve o drama de casais em conflitos, a partir das confusões políticas da nova nação, cujo cenário é o entorno da guerra de Biafra (1967-70). Os (as) personagens vivem crise de valores, situações limites entre tradições e modernidade, vida urbana e aldeia, a ascensão de uma burguesia nativa, dividida etnicamente. A protagonista é a professora universitária e socióloga, Olanna, alter ego da escritora, secundada por sua irmã gêmea, Kainene.

Olanna se envolve com o revolucionário professor de estatística (alter ego do seu pai), enquanto a irmã se envolve com um jornalista inglês, de sobrenome Churchill; homens, personagens secundários. A autora busca o épico, o coletivo, tentando dosar com o psicológico (digamos, o pessoal), com toques detalhistas descritivos, mas de pouca densidade poética, talvez por se prender ao descritivo ‘realista’, fruto, talvez, de sua formação eclética: medicina (que abandonou) na Nigéria e, nos Estados Unidos, graduação em Comunicação e Ciências Políticas, mestrado em Estudos Africanos e doutorado em Letras, sempre escrevendo contos e romances, pelos quais recebeu vários prêmios.

A autora narra com naturalidade as relações conflituosas entre os grupos étnicos, onde a discriminação não é sobre o negro, mas sim, por etnias. Tanto que, para o leitor brasileiro, acostumado com a descrição monocrômica (só dá branco) da mídia, sua história nos leva a personagens universais e não, a negros.

O leitor (e eu me enquadro), portador de uma racismo mental, como todo brasileiro, só é despertado pela autora, quando descreve e louva a beleza policromática de seus personagens, dando-lhes tons (não 50), mas textura, brilho, variações que vão do brilho do preto ao marrom e ao caramelo, sem se desfazer dos personagens brancos, onde sempre a autora/narradora realça a cor dos olhos. E com a maior simplicidade, expõe o drama da mulher africana (a que segue o padrão ocidental), o cabelo: as personagens sempre usam perucas e muitas.

A autora expõe o racismo introjetado pelos brancos, associado o enunciado racista ao étnico particular. Uma tia da protagonista Olanna, pergunta, com despeito: “Isso é o que os parentes do macaco feio, enwe, disseram para ele, para fazê-lo se sentir melhor (…)”. E outra, para defender a sobrinha, pergunta à difamadora, em sua alienação: “Você vem do pessoa de sua mãe E seu pessoal não é meio parecido com o macaco”. Sem a intervenção da narradora, a discriminação migra para o étnico, em que a protagonista afirma: “Papai me mataria antes, se soubesse que eu cheguei a olhar para um hauçá”.

A narradora expõe o racismo do colonialismo (contra o negro, no geral) através do jornalista inglês, Richard, que vive com a irmã da professora. Este é capaz de rir com piadas racistas de seus conterrâneos, bem como se tornar defensor e falante da língua Ibo, sem se questionar eticamente. Chegava, antes, a rir com as piadas racistas como aquela em que um inglês, ao ver um africano passeando com o cachorro, perguntou: “‘O que você está fazendo com esse macaco?’ E o africano teria respondido: ‘Isto não é um macaco, é um cachorro’, e completa a narradora: “como se o inglês estivesse falando com ele!”. Personagem sem drama. Legado da civilização? Ou fruto da escolha do tipo de narração?

À crítica dos brancos de que o nigeriano deve abrir mão de suas etnicidades, o militante de esquerda, companheiro da personagem central se questiona: Por que negros e, não, Ibos? E Odenigbo arremata: “eu já era Ibo, quando os europeus inventaram o Negro”. Além desta mensagem étnica, a autora deixa uma mensagem, também através do co-protagonista: “A grande tragédia do mundo pós-colonial não é não ter dado à maior parte a chance de dizer se queria ou não esse novo mundo; a grande tragédia é que a maioria não recebeu as ferramentas para negociar nesse novo mundo”.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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