Fechar

logo

Fechar

Orgânicos e inorgânicos

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 30 de agosto de 2018 às 10:52

Talvez por não ter formação técnica na área, há algum tempo venho tentando, com alguma dificuldade, organizar as ideias para escrever algo sobre os apelos comerciais relativos aos alimentos ditos orgânicos.

Geralmente, quando a minha esposa vai comprar frutas e verduras ela se preocupa em adquirir produtos que ela considera orgânicos. Então, brincando com ela, eu digo que nunca vi um pé de coentro que fosse inorgânico. Só conheço frutas e verduras orgânicas.

De fato, eu sei, e ela não se cansa de me explicar, que ao dizer que um produto agrícola é orgânico, ela está se referindo ao fato desse produto ter sido cultivado sem o emprego de fertilizantes, pesticidas ou herbicidas químicos de origem inorgânica.

Foi partindo desta brincadeira sobre o coentro inorgânico que comecei a lembrar das aulas de química orgânica, quando cursava o segundo grau, particularmente no que dizia respeito às propriedades do átomo de carbono e de seus compostos, naturais e artificiais.

Diferentemente da química inorgânica, que estudei por obrigação, a química orgânica estudei com prazer. Embora consciente da importância, no estudo da química inorgânica achei uma chatice decorar as posições dos elementos químicos na tabela periódica.

Se não fosse por prazer, eu não lembraria de uma aula de química orgânica na qual o professor explicou, em sala de aula, a síntese da ureia. Segundo ele, o químico alemão Friedrich Wöhler, em 1828, ao aquecer o cianeto de amônio fez com que esse composto inorgânico se transformasse em um composto orgânico: a ureia.

Assim, tomando como base a comprovação experimental de que compostos orgânicos poderiam ser obtidos a partir de compostos inorgânicos, teve início a produção industrial de produtos como o ácido acético (vinagre), álcool metílico, aldeído fórmico, acetileno etc.

Mas, voltando ao assunto da denominada agricultura orgânica, busquei na estante o exemplar do livro “A vingança de Gaia”, escrito pelo ambientalista britânico James Lovelock, para reler o capítulo 6, intitulado: “Produtos químicos, alimentos e matérias primas”.

Nesse capítulo, James Lovelock relata e discute alguns erros e acertos cometidos em nome do ambientalismo durante os quarenta anos, desde a publicação do livro “Silent spring” (Primavera silenciosa) de autoria da bióloga norte-americana Rachel Carlson, lançado em setembro de 1962.

Segundo a avaliação de Lovelock, ao denunciar o uso abusivo de pesticidas químicos Rachel Carlson fez com que estudantes inocentes, com o socialismo natural da juventude, imaginassem que o DDT teria sido inventado por um funcionário de uma indústria química monolítica, dirigida por capitalistas gananciosos voltados apenas para os lucros.

Na verdade, as propriedades inseticidas do DDT foram descobertas pelo professor suíço Paul Hermann Müller, em 1939, tendo sido agraciado como Prêmio Nobel pela descoberta que salvou mais vidas que qualquer outra substância química inventada antes, posto que o DDT foi originalmente usado contra doenças transmitidas por insetos, tais como os mosquitos transmissores da malária, tifo, febre amarela e outras doenças tropicais.

De fato, o DDT e outros inseticidas só se tornaram uma ameaça ambiental quando o agronegócio começou a empregá-los em larga escala para aumentar o rendimento das culturas agrícolas.

Outro fato interessante relatado por Lovelock foram as consequências catastróficas quando fazendeiros de Davon, zona rural da Inglaterra, decidiram substituir os fertilizantes de nitrato utilizados na agricultura por esterco, quer diretamente ou como estrume misturado com água.

Ainda conforme Lovelock, para um ambientalista urbano, tratava-se de uma forma orgânica apropriada para a atividade rural. Porém, depois de algum tempo, verificou-se que as chuvas, ao carrear a matéria orgânica para dentro do rio, as águas anteriormente límpidas haviam se tornado marrons e espumosas, matando os peixes, pois os níveis de oxigênio no rio caíram para zero.

Desta forma, nesse cenário dramático, todo o ecossistema do rio foi afetado, as plantas verdes que colocavam oxigênio na água, as numerosas espécies de insetos que viviam no rio e sob as pedras ao longo de seu leito morreram. Principalmente, por falta de luz para a realização da fotossíntese.

Estes são apenas alguns fatos que nos ajudam na reflexão que o mundo real é bem mais sutil e imprevisível do que imaginamos. Por isso, precisamos estar atentos aos modismos ambientalistas e às motivações comerciais e ideológicas contidos em certos textos, jornalísticos ou acadêmicos, nos quais mentiras travestidas de verdades são introduzidas, mediante o artifício da falsidade repetida.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Benedito Antonio Luciano
Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube