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Olhando a agenda de Jesus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 3 de fevereiro de 2018 às 10:24

Por Padre José Assis Pereira

Acompanhado de seus primeiros discípulos, Jesus concretiza o seu projeto pastoral em Cafarnaum, às margens do lago de Tiberíades, proclamado no anúncio: “O reino de Deus está próximo” (Mc 1,15)

Para Jesus ninguém lhe é alheio na intensa agenda de sua atividade diária, para a qual se sente vocacionado pelo irresistível impulso de seu Pai Deus. Depois de ter participado na liturgia oficial da sinagoga (lugar do encontro com Deus), no dia de sábado, Jesus leva o seu ensinamento novo feito de palavras e sinais de curas (cf. Mc 1,21-39) também às casas, lugar das relações mais íntimas e junto às portas, símbolo da abertura às multidões ou a todos.

Retira-se também aos lugares solitários para a oração pessoal. É esta intimidade com Deus que o guia e o sustenta, se sente apoiado e autorizado por sua presença na hora de atender cuidadosamente qualquer situação humana, seja no espaço íntimo e familiar da casa de Simão Pedro e André, seja no espaço público da multidão aglomerada à porta da casa.

As diferentes cenas (sinagoga – casa – porta) que sequenciam o relato do primeiro evangelho, nos vão desvelando qual é a atitude bondosa e solícita que preside o plano salvífico de Deus, manifestado em Jesus de vencer todas as forças do mal que ameaçam a vida das pessoas nas diversas situações existenciais.

Da sinagoga passamos à casa de Simão Pedro e André, a segunda cena do dia típico de Jesus, no Evangelho de São Marcos. No seu estilo de escrever, a cena é bem rápida. Quem está doente é a sogra de Simão Pedro, o relato mostrará que Jesus transgredirá as convenções do tempo, que o impediam de se aproximar e de tocar as mulheres doentes: “Ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu, e ela começou a servi-los.” (v. 31)

Na sua ação pastoral, o Filho de Deus apresentou-se como “médico das almas e dos corpos”, levando assim a cumprimento o sonho de Deus, já anunciado pelos profetas e encarnando o amor do Pai. Jesus colocou-se completamente ao serviço do projeto de vida do Pai (cf. Jo 4,34): para permanecer fiel desobedeceu aos costumes do seu tempo. Curando os males físicos, Jesus restitui dignidade e liberdade às pessoas e revelou o verdadeiro rosto de Deus.

A sogra de Pedro é uma das figuras do Evangelho que, com sua atitude, nos ensina aonde deve levar-nos a fé, a gratuidade e o amor de Jesus Cristo. Não se contenta em ser libertada da febre, vai expressar sua gratidão pela sua cura pondo-se imediatamente a serviço de Cristo e dos irmãos.

Recordamos em primeiro lugar que é sábado. As atividades deviam cessar nesse dia. Mas, aquela senhora, como Jesus, vai por a vida acima dos preceitos. Em segundo lugar, recordemos que, ao ser batizado, Jesus foi mostrado como Messias servidor, dedicado a servir à vida. A sogra de Simão descobriu isso e respondeu com o serviço. Finalmente, deve-se ter presente que na cultura daquele tempo e lugar, a febre era considerada de origem demoníaca. Todas as coisas ruins que não tinham explicação eram atribuídas ao demônio. Curar a febre, nesse caso, é mais que receitar um analgésico. O episódio está ligado ao anterior do homem possesso e deve ser visto como algo que impede a pessoa de ser ela mesma, podando-lhe a liberdade e a autonomia.

A terceira cena é posta no pôr-do-sol, no fim do dia, passado o sábado, e ocupa o espaço em frente da casa de Simão. Há mais gente do que nas duas cenas anteriores, pois a Boa Notícia se espalhou, e “levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. A cidade inteira se reuniu em frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios.” (vv. 32-34)

Tem-se a impressão de que o dia inteiro Jesus combateu os demônios, e ainda agora há possessos libertados e doentes curados. É a segunda vez que Marcos toca nessa questão tão presente no seu evangelho: os demônios sabem “quem é Jesus”. E é a segunda vez que Ele os manda calar num sinal evidente de que as forças demoníacas, que desde sempre tornaram difícil a vida das pessoas; a doença, naquele tempo era um sinal evidente disso, são aniquiladas por Jesus e reduzidas ao silêncio.

Em Marcos, como sabemos, um tema é importante e chamou a atenção de estudiosos. É a questão do “segredo messiânico”. Jesus não “deixava que os demônios falassem, pois sabiam que ele era.” (v. 34) Ele não permite que as pessoas divulguem quem Ele é ou o que Ele faz. Por quê? Foram dadas várias respostas. Lendo Marcos com olhar catequético, podemos antecipar algumas tentativas de resposta: Em primeiro lugar, os demônios, embora sabendo “quem é Jesus”, são proibidos de dizer, porque essa é tarefa e obrigação dos discípulos de ontem e de hoje. Seria péssimo se Jesus se tornasse conhecido graças à divulgação dos espíritos impuros ou de demônios. Que propaganda de Jesus fariam eles? Os seus seguidores sim, é que devem responder a essa pergunta e divulgar “quem é Jesus”.

Em segundo lugar, devemos reconhecer que um milagre sozinho não é uma visão ampla e acabada de “quem é Jesus”. Em outras palavras, os milagres são como pedras que vão completando um mosaico. Somente no fim do evangelho de Marcos, depois de passar pela cruz e ressuscitar, o quadro estará completo e a resposta será clara.

Em terceiro lugar, os milagres não bastam. O próprio Pedro se enganou, na metade do Evangelho (8,29), pois tinha uma ideia errada a respeito do Messias. Dito de outro modo, Pedro tinha feito um Jesus à sua imagem, ao sabor dos seus interesses. Talvez seja por isso que, com esse evangelho, estamos sempre começando e aprendendo.

São Marcos nos mostra além dos endemoniados, uma multidão de rostos gravemente feridos, de pessoas marcadas pelo sofrimento: prostradas, estressadas, aflitas, paralisadas, deprimidas, ignoradas… que desfilam diariamente ante os olhos de todos e aos quais tão pouca atenção sabemos prestar. Rostos desfigurados pela dor e a angustia, invisíveis e perdidos entre o anonimato da multidão, pessoas que buscam uma solução de seus males.

Jesus sim se aproximava e visitava a todos. Mostra-lhes o rosto bondoso da salvação de Deus, o Deus amigo dos pobres “que conforta os corações despedaçados, enfaixa suas feridas e as cura(Sl 146).

“Todos estão te procurando?” (v. 37) Jesus sente em seu intimo a tensão entre a vontade das pessoas e a missão que recebeu do Pai. De madrugada, retira-se para orar e depois decide estender sua atividade: “a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim.” (vv. 38-39) Esta é a sua prioridade, a missão que Jesus compartilha com seus discípulos. Para mostrar o mesmo caminho escolhido por Deus em sua maneira de acolher incondicionalmente a debilidade humana. Caminho que começa ao sair da sinagoga e vai aos mais próximos do espaço íntimo e familiar da casa, que lhes levará à multidão à porta e que lhes abrirá finalmente o horizonte às fronteiras da Galiléia com os povos vizinhos para anunciar o Reino de Deus por toda a Galiléia. A missão não compreende limites, nem fronteiras, nem periferias existenciais, como tampouco as tem a humanidade sofredora.

Esta também é a tarefa que devemos como Igreja abraçar cada dia, em nossa agenda pastoral: anunciar ou testemunhar o Evangelho com amor e coragem; curar, aliviar, consolar, dar esperança, solidarizar-se com as pessoas que sofrem e que com seus motivos encontram-se por si mesmas incapazes de descobrir esta mensagem do Reino. Levá-las a encontrar Jesus, ajudando-as a ver o seu sofrimento à luz da fé e a descobrir o caminho que conduz com paciência a esperança e a salvação.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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