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Olarias e caieiras

Jurani Clementino. Publicado em 21 de junho de 2019 às 13:01

As paredes das casas sertanejas, quando não eram feitas de taipa – uma mistura de barro e madeira, tinham a sua construção à base de tijolos de barro. Geralmente as casas fabricadas com esse tipo de material pertenciam às pessoas com melhores condições financeiras na região: donos de terra, criadores de gado, grandes produtores rurais, fazendeiros. No geral essa pessoa era representada na figura mítica do coronel.  Com o processo de modernização atingindo também as zonas rurais e uma reconfiguração das estruturas sociais, esse tipo de construção foi se popularizando. Além dos coronéis ou fazendeiros, pessoas comuns passaram a construir as suas casas com esses pequenos blocos preparados com argila crua, ou barro. Mas para levantar as paredes da construção era preciso, antes de tudo, fabricar e queimar esses tais tijolos. Na crônica de hoje, vou falar sobre isso.

A fabricação dos tijolos acontecia em olarias improvisadas em terrenos de pequenos proprietários ou emprestados, alugados pelos grandes proprietários de terras. Nesse local se dava o processo inicial do trabalho que incluía: cavar o chão, triturar o barro e molhar a terra. Aquela terra molhada ficava “descansando ou depurando” por, pelo menos, vinte e quatro horas, até que, no dia seguinte, um segundo processo era iniciado. A ele dava-se o nome de “amassar ou traçar barro”. Um trabalho braçal que envolvia bastante esforço físico e disposição do homem sertanejo. Com o barro completamente amassado, ou “macio” como os trabalhadores chamavam, passava-se a colocar na forma. Essas formas eram feitas de madeira. Para a madeira se desprender com facilidade da argila, os trabalhadores molhavam a forma com água. E para que o barro molhado não ficasse preso ao solo após a secagem, palhas de arroz eram jogadas ao chão plano (chamado de terreiro). Cada forma fabricava dois tijolos por vez.

Dependendo do clima, esses tijolos ficavam por dois ou três dias ali no chão, secando ao sol. Em seguida eram contados e organizados nas chamadas caieiras. Uma espécie de forno construído com os próprios tijolos. Essas caieiras possuíam o que a gente chamava de boca, que são na verdade fornalhas por onde se colocava a lenha para o processo de queima dos tijolos. Depois que a caieira estava pronta com os tijolos ainda crus, um grupo de trabalhadores ia para a mata cortar a lenha que seria usada para cozer ou assar os tijolos. A lenha era transportada em mulas e burros. O cálculo da madeira necessária para a queima daqueles blocos de argila era feito da seguinte forma: a cada mil tijolos, duas cargas de lenha. Uma carga de lenha correspondia a quantidade de madeira que cada animal podia transportar por viagem.

O momento mais festivo de todo esse longo processo de fabricação do tijolo era exatamente o que eles chamavam de “queimar a caieira”. Era um evento que reunia quase toda a comunidade. Como se tratava de um demorado processo que tinha início no final da tarde e entrava pela madrugada, os trabalhadores consumiam muita cachaça. As vezes amanhecia o dia e, dependendo do tamanho da caieira, ainda tinha gente empurrando madeira naquelas fornalhas. Com o raiar do sol, a caieira estava ardendo em brasa, os tijolos vermelhos, os trabalhadores muitos deles embriagados e, naturalmente, as garrafas de cachaça vazias. Durante dez, vinte dias, aquele amontoado organizado de tijolos, ainda fumegava. Só depois desse tempo, eram retirados alguns blocos na lateral da caieira para conferir se haviam queimado direito.

Bem, isso era apenas o inicio de um processo demorado e dispendioso para quem quisesse e pudesse construir uma casa de tijolo no sertão. Por isso muita gente não possuía condições nem disposição para uma empreitada que estava apenas começando. Depois tinha que chamar Zé da Velha para, à base de muito cigarro “pé de burro”, café feito na hora e cachaça, levantar as paredes daquele imóvel requintado para os velhos costumes do sertão. Só que isso é uma outra história.

Jurani Clementino

Campina Grande – PB. 19 de junho de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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