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O vaqueiro de uma boiada imaginada

Jurani Clementino. Publicado em 22 de fevereiro de 2019 às 10:56

Por ali todo mundo o conhecia pelo nome de “Adelson doido”. Tratava-se de um cidadão que vagava pelas estradas ecoando aboios, com uma careta de couro pendurada nos ombros, um velho e surrado chapéu de couro na cabeça e um barulhento chocalho nas mãos. Também gostava de carregar consigo um pedaço de corda que dizia ser para amarrar o gado. Era uma figura que não gostava muito de cortar os cabelos, demorava a tomar banho e fazer a barba. Parecia um daqueles personagens de novelas ou filmes caracterizados para interpretar os vilões. Aquele tipo, socialmente estranho, metia medo na molecada. E quando algum menino desobedecia aos pais, ouvia logo uma ameaça do tipo: lá vem Adelson, ele vai te pegar. Talvez por isso, crianças nunca se acostumaram com a presença daquele homem.

Pelo que me informaram seu pai era um homem de posses. Daqueles ricos produtores rurais que ocuparam o sertão na metade do século passado. Mas Adelson não teve sorte, nasceu de uma aventura que esse homem tivera com uma jovem cabocla chamada Raimunda. Por isso nunca foi reconhecido pelo pai e sempre viveu vagando pelas estradas e tangendo uma boiada imaginada. Entre os sítios Carnaúbas, Lagoas, Queixada, Juazeirinho e Rebeira, Adelson se satisfazia prestando favores. Ajudava as pessoas a atravessar o Riacho do Machado no inverno e, de tanto atender aos pedidos para que ele lascasse lenha por aquelas comunidades, acabou ficando cego de um olho. Um graveto de madeira perfurou sua visão e desde aquele dia, ele só olhava para as pessoas com a cabeça torta, como se, mesmo inocente, escondesse a prova de um crime.

Adelson falava sem preocupação formal com o rigor da linguagem. Para ele as frases não precisavam ter um sentido lógico, bastavam ser entendidas. Dizia o que vinha e como vinha à cabeça. Pronunciava as palavras pela metade. Isso exigia do ouvinte um esforço para compreender as histórias por ele contadas. Quando alguém lhe perguntava por que ele andava com aquela corda de agave nas mãos, ele respondia:

Adé é vaquê. Se a vá mexer com adé, pau no xi, adé dá. (Adelson é vaqueiro. Se a vaca mexer com Adelson, pau no chifre, Adelson dar).

Quando bebia e ficava embriagado, Adelson falava muito palavrão, insultava as pessoas e muita gente batia nele sem dó nem piedade. Também andava meio desengonçado porque durante uma festa na localidade chamada de Quatro Bocas, sofreu uma facada que atingiu parte da coluna. As aventuras de Adelson faziam sua mãe sofrer. Foram incontáveis as vezes em que dona Raimunda recebeu a notícia de que o filho estava bêbado, caído em algum lugar e que alguém havia batido nele. Ao saber disso, aquela mãe desesperada amarrava um pano na cabeça, cruzava as sandálias e colocava em cima daquela espécie de touca e saia chorando, correndo pelas estradas a procura do filho. Certa vez, não se sabe se por sorte ou um milagre, Adelson escapou de um acidente de cavalo quando voltava do Sítio Queixada para as Lagoas. Estava embriagado e, juntamente com o cavalo caiu dentro de uma grota (vala, buraco). Adelson sobreviveu, mas o cavalo não teve a mesma sorte.

Morador do sítio Lagoas, Adelson ocupava sozinho um quarto numa velha construção ao lado da casa de Chico Nunes e Maroquinha. Sua vida foi marcada por um misto curiosidade e medo, principalmente por parte das crianças, mas ironicamente, depois que ele ficou depressivo, arredio e preferiu se isolar no quarto daquela casa velha, pouquíssimas pessoas tinham acesso a ele. Permitia apenas, além da dona da casa, que as crianças Elaine e Fransuar, netos de Chico Nunes, levassem a comida e os remédios dele. Em fevereiro de 2003, o vaqueiro Adelson foi encontrado sem vida, caído no pé de uma cerca de madeira, ao nascer do sol. Cardíaco, deve ter sido traído pelo coração numa daquelas solitárias madrugadas sertanejas. Naquele dia, enquanto seu corpo descansava dentro daquele caixão de madeira, praticamente todas as crianças da região foram olhar pra ele.

Jurani Clementino

Campina Grande – 21 de Fevereiro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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