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Campina Grande - PB

O último lugar

27/08/2016 às 16:41

Fonte: Da Redação

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O texto do Evangelho de hoje (cf. Lc 14,1.7-14), a propósito de uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus, no qual os convidados buscavam os primeiros lugares à mesa, dá lugar a Jesus para falar da humildade, através de uma parábola.

Primeiramente Jesus aceita o convite do fariseu para tomar uma refeição em sua casa e aproveita a ocasião para “propor” aos convidados o lugar que devem escolher ao sentar-se à mesa: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar” (v.8).

É normal ver hoje em dia também em qualquer evento, que os convidados ao chegar vão escolhendo os primeiros lugares, a melhor posição. Aparentemente isso pode nos parecer um detalhe sem muita importância, talvez alguém interprete como uma simples norma de etiqueta social ou boa conduta. Mas não é assim.

Este fato aparentemente trivial tem um significado mais profundo porque nos introduz em algo básico para a vida cristã, que é a humildade.

Para  um pessoa do século XXI, falar de humildade parece fora de moda. Não gostamos de falar de humildade. Imaginamos uma pessoa humilde como acanhada, encolhida, triste, à margem da vida, inconsciente dos seus direitos, que nunca defende nem reinvidica, e sem iniciativa em favor dos outros.

Mas a imagem da humildade que muitas vezes têm as pessoas não é a humildade de que nos fala o Evangelho.

A humildade é uma virtude difícil de entender porque vai de encontro às ambições e desejos próprios, muito básico como o egocentrismo e o protagonismo. Temos que admitir que hoje não está na moda nesta sociedade tão competitiva e prepotente o ser humilde, pois somos educados para competir, triunfar, para o sucesso.

Podemos ainda lembrar as competições das Olimpíadas Rio 2016 e a luta para subir nos primeiros lugares, no “podium” e receber o “ouro olímpico” do primeiro lugar. Vivemos imersos em um culto à personalidade, um centramento exagerado em “si mesmo” que faz do “outro” um simples objeto que conta muito pouco ou nada.

Saber passar despercebido, fazer o bem e desaparecer, sem esperar que nos agradeçam o que fizemos ou se mostrem agradecidos e contentes. É o que faz o sal e o fermento, cumprem sua missão e diluem-se.

Saibamos passar despercebidos. Quando vivemos com humildade, estaremos praticando uma outra virtude que não se fala muitas vezes: a naturalidade.

O cristão ao falar de humildade recorda as palavras de Jesus: “Aquele que quiser salvar a sua vida, vai perd~e-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (Mc 8,35). Perder para ganhar, esta é a disposição última do que entendeu a necessidade de fazer-se pequeno para entender a mensagem cristã.

Não é a negação do “Eu”, nem vai de enconto a necessidade que tem cada ser humano de formar-se e enriquecer sua personalidade sendo assim cada vez mais valioso para a comunidade através de seu esforço.

A autoestima é um valor pedagógico porque é bom reconhecer os próprios valores; a humildade não nega a autoestima, a enriquece, a completa.

Ser humilde é ser consciente da própria fragilidade: conhecer e reconhecer as próprias limitações, só assim podemos calibrar corretamente o alcance de nossas possibilidades.

Ser humilde é viver a gratuidade, é ser agradecido: saber que tudo o que somos e temos devemos a Deus e a pessoas que nos ajudaram a crescer e amadurecer no aspecto pessoal, vocacional e profissional.

Saber que nossos méritos não são nunca exclusivamente próprios, foi Deus que nos deu. É dele que procedem a vida, a beleza, a força, os talentos e a inteligência que temos. Nada nos pertence. De nada podemos nos vangloriar.

A mensagem evangélica de hoje se completa dizendo que “quando chegar quem te convidou, te dirá: Amigo, vem mais para cima” (v.10). É a recompensa ante a postura da pessoa discreta e humilde.

“Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (v.11). Assim termina a primeira parte deste relato.

A segunda parte é um conselho dirigido àqueles que organizam um banquete: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos.

Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria tua recompensa… Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; Então tu serás feliz! Porque eles não te poderm retribuir. Tu receberás quando na ressurreição dos justos” (v. 12).

A conduta dos que convidam esperando algum benefício tem sido sempre assim e segue sendo; dou algo para que me dês algo, te convido para que depois tu me convides.

Mas Jesus pede algo mais a seus seguidores, pede uma mudança de mentalidade que consiste na gratuidade do amor desinteressado, tal como Ele o praticou em sua vida e o pregou.

Os cristãos aprendem de Jesus a ser “manso e humilde de coração” (cf. Mt 11,29).  Em Jesus e de Jesus se nasce e se aprende a ser uma pessoa de coração humilde.

Aqui, a mim me parece, não cabe outra explicação para a humildade evangélica que o próprio mistério da humildade divina, que sendo o “todo poderoso”, se fez um de nós. Talvez a humildade seja então algo diferente do que nós pensamos habitualmente. E, de fato, é o que descobrimos, se olharmos melhor a obra de Jesus.

O que Jesus fez para ser humilde? Jesus se abaixou, desceu: não com palavras, ou com os sentimentos, mas com atitudes.  

A palavra usada no Novo Testamento para indicar o ato de humilhar-se significa literalmente: abaixar-se, fazer-se pequeno.

Durante a vida, Jesus foi sempre coerente com esta escolha: Ele, o Mestre, abaixa-se para lavar os pés dos discípulos, comporta-se como “aquele que serve”; desce, desce até que, tendo chegado ao ponto mais baixo, a morte de cruz, chega o Pai para o levantar, o eleva acima dos céus e o estabelece senhor do universo, colocando tudo sob os seus pés (cf. Fl 2,6-11).

Eis como Deus mesmo realizou sua Palavra: aquele que se humilhar será exaltado. Doravante, ser humilde significa algo muito simples: ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5), comportar-se como Jesus se comportou.

A humildade é necessário vivê-la, ela não é atitude abstrata, não se desenvolve nem amadurece de modo abstrato, é a vida com Jesus Cristo, nele amadurecemos os nossos comportamentos que nos caracterizam como seus seguidores.

A humildade será assim em nós a força moderadora de nossas ambições e vai nos dando a capacidade de perseverar no caminho que o próprio Jesus percorreu, “aprendei de mim”.

A verdadeira humildade procura não dar aparentes mostras de sê-lo, nem gasta muitas palavras em proclamá-la.

Vale a pena ler e reler, com muita atenção o breve conselho do sábio Sirac do Eclesiástico: “Quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça diante do Senhor: Numerosas são as pessoas altivas e famosas, mas é aos humildes que ele revela seus segredos.”  (Eclo 3,18-19)

*Padre Assis

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