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O túmulo de Irenêo Joffily

Vanderley de Brito. Publicado em 2 de julho de 2019 às 11:10

Amanheceu nublado o dia 07 de fevereiro de 1902 em Campina Grande, pois, dum vistoso casarão branco, de oitões livres, com três janelas de frente e seis de lado, quase em frente à Igreja Matriz de N. S. da Conceição, saia o ataúde de Irenêo Joffily, conduzido modestamente por matutos, de pés no chão e saco às costas, com destino à sua última morada, no cemitério do Carmo, no Monte Santo. Hortensio Ribeiro, que ainda menino presenciou, ficou impressionado com a simplicidade daquele cortejo fúnebre, por se tratar de um homem de posses e grande importância, mas todos na cidade sabiam a devoção que Joffily dedicara à causa dos matutos.

Numa trajetória de advogado,  promotor público em São João do Cariri, Juiz municipal em Campina Grande, cronista, vereador por Campina Grande, deputado provincial, e ainda foi eleito deputado geral, mas a proclamação da república lhe cassou o cargo antes mesmo de assumir. Foi também jornalista, fundando em 1888 uma folha sabática intitulada Gazeta do Sertão, o primeiro jornal semanário de Campina Grande. Somado a tudo isso, além de militante republicano e abolicionista, com afinco, Joffily se dedicou à pesquisa histórica e geográfica do Estado, tanto de campo como de arquivos, publicando em 1892 o livro “Notas sobre a Parahyba” e, em 1893, “Sinopse das Sesmarias da Capitania da Parahyba”, livros que ultrapassa em muito a simples compreensão intelectual dos fatos. Enfim, nesse dia nublado, Campina Grande e a Paraíba perdiam seu mais insigne idealista e historiador.

Enfermo de hanseníase, Joffily faleceu com 59 anos de idade. Seus restos mortais ainda hoje jazem no Cemitério do Monte Santo. Unicamente os seus, pois os de sua viúva e de seus sete filhos não foram depositados na tumba. Não se sabe quando, mas a família Joffily partiu de Campina Grande. Há registros de que pelo menos até 1920 sua esposa Rachel ainda residia na cidade, mas em pouco tempo todos deixaram a Rainha da Borborema e o túmulo onde jazem os despojos de Joffily ficou em total abandono.

Por quase um século sem cuidados, como um leproso na alameda principal do cemitério do Monte Santo, o túmulo de Joffily acumulou uma crosta de matéria preta e gordurosa, produto da decomposição de poeira com detritos vegetais, denunciando sofrer de descuido. Mas, sensibilizado com o estado amnésico em que se encontrava o jazigo daquele que foi um dos maiores vultos da Paraíba, o Instituto Histórico de Campina Grande, numa sessão especial de diretoria, decidiu que, daqui por diante, se responsabilizaria pela sua manutenção e zelo, de modo que, no frescor de um sol tímido, em 07 de fevereiro de 2019, aniversário de 117 anos de sua morte, o IHCG mobilizou uma equipe, com baldes e escovas, para uma lavagem e reparos do túmulo.

A ação, que foi coroada por um arranjo de flores, demonstra que, embora voltemos todos ao pó, a imortalidade de uma pessoa está ligada à memória de seu talento e contribuição para com a sociedade, e Joffily foi um desses, cuja vida não foi em vão.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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