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Campina Grande - PB

O teu racismo não nega…

23/02/2017 às 7:46

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo (*)

Surgiu no pré-carnaval São Paulo uma polêmica a partir de que alguns blocos proibiram músicas discriminatórias, tanto raciais, como sexuais. Assim, a marchinha “O Teu Cabelo não Nega” seria banida do repertório de um ou outro bloco que se assumiu politicamente correto. Outros vetaram “A Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão”. A discussão está armada e até estranhei de um famoso filósofo na TV Cultura dizer que quem está proibindo é porque está querendo aparecer. Não acho tão simples assim. Mas acho importante que os setores se digladiem, polemizem e, principalmente, que os grupos étnicos, ou sexuais se manifestem, apresentem e defendam seus sentidos e sentimentos. Isso é democracia. E pode servir para a autoeducação étnico-racial.

Apesar de ser um clássico do carnaval carioca, sempre achei um conteúdo discriminatório em “O Teu Cabelo não Nega”, em que a própria frase já é diz tudo, “Porque és Mulata na cor”; o pior é o arremate: “Mas como a cor não pega…”. O compositor, talvez já farejando problemas com alguma comunidade que pudesse se sentir discriminada, tenta adoçar, criando novos sentidos como ‘alma cor de anil’ (fugindo do preconceito de alma branca?). O resto da letra: “Tens um sabor bem do Brasil/ Tens a alma cor de anil/ Mulata mulatinha meu amor/ Fui nomeado teu tenente interventor. Quem te inventou meu pancadão/ Teve uma consagração/ A lua te invejando faz careta/ Porque mulata tu não és deste planeta./ Quando meu bem vieste à terra/ Portugal declarou guerra/ A concorrência então foi colossal/ Vasco da gama contra o batalhão naval.

Tirando a discriminação, a letra é uma quase crônica que revela algo da época de Lamartine Babo, como ‘tenente interventor’, ou de uma paixão carioca, Vasco da Gama e assim por diante. Mas o grande problema é o termo ‘mulata’, que como se sabe foi criada pelos brancos escravistas, derivando de mula. Se isto não for trabalhado na educação brasileira, o racismo sempre estará em nossas mentes e comportamentos.

Isto para não rebuscar coisa mais sórdida ainda, como um frevo de minha infância que fazia comparação entre o ano 60, o jogo de bicho e o negro.

O pior é quando o próprio compositor é afrodescendente, como o autor de Fricote, “Nêga do cabelo duro”; ou, saindo do carnaval e vindo para o forró, o que fez um certo compositor paraibano, menos pelo ‘galeguinho dos óio azu’, mas mais pelas comparações de cores dos personagens. Em 1988, o Movimento Negro de Campina recebeu uma carta do Movimento de Fortaleza perguntando como se deixava passar isso, o tal forró chulo, sem um protesto etc. Houve um protesto, pois deu na imprensa local.

No plano sexual, também. Solta-se a discriminação e depois tenta-se dourar a pílula: “O sapatão está na moda/ O mundo aplaudiu/ É um barato, é um sucesso/ Dentro e fora do Brasil (de João Roberto Kelly e bastante divulgado por Chacrinha). A própria Cabelereira do Zezé, do mesmo compositor, mas sem a pílula dourada, deve ter perdido um pouco de sua verve, pois gravada em 63, quando começava o auge dos Beatles e do cabeludo Roberto Carlos, apenas poderia representar o pensamento conservador contra cabelos compridos: “Corta o cabelo dele/Corta o cabelo dele…”. A cabeleira virou rebeldia. Furou. E o pior era incorrer em discriminação religiosa: “Será que ele é Maomé?”

No plano racial da sexualidade, o carnaval revela esse jogo de posições e não parece que andamos muito desde a interpretação freyreana das três imagens femininas: “a branca para casar …”. Na mesma década de Casa Grande e Senzala, Braguinha cantava: “Loirinha, loirinha/ Dos olhos claros de cristal/ Desta vez em vez da moreninha/ Serás a rainha do meu carnaval”. A moreninha parece perdurar: “Linda morena, morena/ Morena que me faz penar/ A lua cheia que tanto brilha/ Não brilha tanto quanto o teu olhar. / Por tua causa já se faz revolução/ Vai haver transformação na cor da lua/ Antigamente a mulata era a rainha/Desta vez, ó, moreninha, a taça é tua”. E se volta à cor que não pega em branco.

E para terminar, uma discriminação contra a mulher negra é a tal da fantasia “Nêga Maluca”. Deve-se ao compositor pernambucano, Fernando Lobo, (que viveu em Campina e até estudou no Alfredo Dantas) e Evaldo Ruy, que compuseram, no Rio, o samba, Nêga Maluca, em 1950 e deu lugar à fantasia: “Tava jogando sinuca/ Uma nega maluca/ Me apareceu/ Vinha com um filho no colo/ E dizia pro povo/ Que o filho era meu, não senhor. /Tome que o filho é seu, não senhor/ Pegue o que Deus lhe deu, não senhor”. Nasceu, daí, mais um cenário discriminatório, mantido, hoje em dia, por brancos para fazer até comerciais (lembrar que não se ‘permite’ a atores negros fazer personagens universais; negros ‘só devem’ representar, no máximo, Otelos). E no caso da caricata ‘Nega Maluca’ sobre o que ninguém diz nada, parece, erradamente, que tentaram criar a ‘loura burra”? Racismo pega.

(*) Professor

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