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O Testamento de Dom Agápito, de Helder Moura

Josemir Camilo. Publicado em 29 de junho de 2018 às 8:43

O jornalista Helder Moura se lançou na literatura ao publicar, pela Editora Chiado (2012), em Portugal, o romance “O Incrível Testamento de Dom Agápito”. Agora, em junho, em lançamento coletivo, na Câmara Municipal de Campina Grande, nos deu a 4ª edição pela Editora Miró (São Paulo, 2016). O Posfácio é da premiada Maria Valéria Rezende. O livro já foi lançado em outros países da Europa e no Uruguai.

À primeira vista, não parece um romance, mas, sim, um conto estendido, tal seu fecho. É um livro magro, texto quase árido, curto; no fundo, parecendo crônicas (em número de 46 – sua ‘quarentena’, conforme discursou na Câmara?). Graças à sessão, na Câmara, que lhe outorgou a Comenda de Mérito Cultural, a que assisti, representando a Academia de Letras, fiquei inteirado do contexto em que este livrinho chegou à atual edição. Também, tomei conhecimento do alto investimento em conhecimentos acadêmicos a que o autor tem buscado, sucessivamente. Portanto, não é uma produção ingênua para um leitor igual. Muito embora cometa o mesmo expediente de um romance tradicional, conforme aprendi em leituras de teóricos do romance, em que ao se ler um dois capítulos iniciais e o mesmo, com finais, o leitor domina o conteúdo da obra.

O final, com estilo de conto, é estendido, quase como disfarce. Parodiando um chiste de Machado de Assis, sobre a ‘a mocinha coxa’, pode-se dizer: é bom, porém é conto. Quero dizer que falo como leitor e não como crítico, que não o sou.

A trama é singular, simples, direta, mas curta. Os (as) personagens não têm densidade romanesca, em toda a trama que não ultrapassa o marco temporal de um ou dois dias, em que se desenrola a leitura do testamento de um personagem, não de todo encarnado, na trama, como todo o universo da história, pois o autor faz questão de ‘não amarrar o bode’ em qualquer certidão. A começar com o cenário Óbidos, um lugar nenhum, uma aparente petição de princípio literária, mas claramente desabonado tal lugar, pois não é a cidade portuguesa, nem a paraense; é um lá e cá, de encosto e desaviso, porque, em verdade, nada desta cartografia interessa. E, sim, o fundo, um panorama universal das ambições e humanas.

Teatro fosse, comédia seria, lembrando Ariano Suassuna, em o testamento da morte da cachorra da mulher do padeiro (parte de A Compadecida). Com uma narrativa do presente, autor narrador, a entrada é direta, sem enfeitamento, dialogando com o leitor. Seu humor tende, quase, à caricatura. Sua cartografia, intencionalmente frouxa, é a de sua terra campinense e entornos (a terra do sisal, os ‘cotós’) e, provavelmente, seus personagens e figurantes; alguns podem ser buscados diretamente pelo nome: Padre Calixto, Vigário da Terra de Ninguém; Calistrato e a alusão, distante, dos ‘cotós’ a uma piada de ironia pseudo-esquerdista. Quem for de convivência com o autor, atuando, há décadas, na imprensa da capital paraibana, na certa, identificará personagens e figurantes ironizados no texto, assim como o terrível grupinho da TLI (Turma da Língua Impiedosa)

O livro lembra algo de folhetim, para um público de leitura digesta, rápida, no ônibus, com cada suposto capítulo, de uma a três páginas, intercalado por reprodução em preto e branco, e parcial, da belíssima capa de Davi Queiroz, representando o Castelo de Óbidos. Perde um pouco de literariedade ao explicar ou complementar os signos, talvez vícios da profissão (o acosto da verdade dita, ou a fonte). O jornalista Helder Moura militou na imprensa campinense por muito tempo, iniciando-se na Gazeta do Sertão, de Edvaldo do Ó, naquela que foi a terceira fase de homenagear o jornal fundado no século XIX, por Irenêo Joffily. Além de jornalista, o autor é poeta premiado, professor de Lógica do IFPB e doutorando em Psicanálise e Literatura.

Li seu “Testamento”, quase de um fôlego só. Há um lugar, na Academia de Letras de Campina Grande, para este filho do Zé Pinheiro!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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