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O terceiro filho

Padre José Assis Pereira. Publicado em 30 de setembro de 2017 às 13:17

Por: Padre Assis

A parábola deste Domingo se enquadra dentro dos acontecimentos que tiveram lugar na etapa final da caminhada de Jesus. Depois da sua entrada em Jerusalém, (cf. Mt 21,1-11) da expulsão dos vendedores do Templo e da discussão sobre a sua autoridade (cf. Mt 21,23-27) o diálogo com os escribas e fariseus, os anciãos e lideres do povo recrudesceu.

Mateus pôs aí três parábolas, todas muito fortes e que têm como destinatários a elite dirigente do povo judeu e suas lideranças religiosas que aparecem como o motor da oposição a Jesus, pois não estão dispostos a reconhecê-lo como o Messias e a aceitar que Ele tenha autoridade para propor uma nova realidade, o Reino aos “de fora”: aos pecadores, aos não judeus.

A primeira parábola sobre os dois filhos (cf. Mt  21, 28-32) é própria de Mateus, que a deve ter guardado muito bem, porque ele era publicano de profissão e largara tudo para seguir o Mestre (Mt 9,9), ao escrevê-la demonstrou que não tinha nenhuma simpatia por aqueles ouvintes de Jesus.

A parábola faz entrar em cena três personagens: um pai e dois filhos. O pai mandou os dois filhos trabalharem na sua vinha. O primeiro deu uma resposta negativa: “não quero”, no entanto, acabou por reconsiderar e foi trabalhar (vv. 28-29). O segundo filho respondeu: “sim, senhor, eu vou”, no entanto, não foi trabalhar na vinha (v. 30).

A intenção do evangelista com esta parábola é fazer com que os seus ouvintes reflitam acerca das duas perguntas colocadas por Jesus: “Que vos parece?” e “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v. 31) A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer dificuldade em responder: “o primeiro”, aquele que foi trabalhar na vinha apesar da negativa inicial.

Mas poderíamos até provocar e dizer que nenhum dos dois é bom filho: o primeiro porque é hipócrita; o segundo porque é arrogante. Mas, a pergunta de Jesus não diz respeito a quem se comportou como “bom filho”, mas quem “fez a vontade do pai” e esta questão é também a nós dirigida: diante do chamamento do Senhor, qual a nossa resposta?

Jesus continuando a sua história usou umas palavras que eles não esperavam: “em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.” (v. 31) Estas palavras certamente feriram profundamente a seus ouvintes, a elite de Israel. Também a nós nos provocam!

A referência aos publicanos e prostitutas não significa que Jesus os apresente como modelos de cristãos. O único modelo é Ele mesmo. É sintomático que Mateus tenha posto essa parábola praticamente na semana que precedia a paixão do Senhor. Porque a verdadeira religião consiste em fazer plenamente a vontade do Pai e esta passava pela morte de Cruz. Jesus se torna, então, o verdadeiro modelo do cristão, cumprindo a vontade do Pai.

Os judeus, os fariseus, os sacerdotes e os anciãos do povo, bem sabemos, foram os primeiros a ser chamados por Deus, disseram “sim”. Israel fez muitas promessas, mas depois, não as cumpriu, por sua conduta infiel, por sua recusa a acolher o convite à conversão e a sua resistência a admitir o Messias, foi rejeitado, apesar das promessas feitas por seus líderes.

Ao contrário, os pagãos, os gentios, que são tidos como “cães”, indignos de ter parte no Reino, entrarão em primeiro lugar. Porque essa pobre gente, tão rejeitada, se sabe pecadora, se negou desde o princípio a admitir o convite do Pai, que os chamava carinhosamente, mas acolheu por fim o convite de João Batista à conversão e a proposta do Reino que Jesus lhes apresentou, reconheceu logo sua culpa com arrependimento, merecendo ser digno de alcançar a salvação.

O que quer dizer para nós esta parábola? Poderíamos cair num grave erro: imaginar que nós somos o segundo filho e que, portanto, não temos outra coisa a fazer senão alegrar-nos pela nossa fidelidade e condenar a arrogância dos judeus. Mas não é assim. Também hoje Deus continua a ter dois filhos.

Na Igreja, nas comunidades cristãs, no mundo, há sempre dois filhos: alguns, no Batismo, dizem “sim”, mas, depois na vida concreta, transformam o “sim” em muitos “nãos”. Por outro lado, há muitas pessoas que nunca disseram um “sim” explicito a Deus, mas na prática de cada dia, amam seus irmãos, sacrificam-se pelos outros, dedicam-se às obras de caridade. Estes, embora não batizados, comportam-se como verdadeiros filhos de Deus: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor entrará no Reino dos céus…” (Mt 7,21)

A essa altura podemos ainda nos perguntar, com qual dos dois filhos me pareço? Com o primeiro filho que é capaz de fazer solenes compromissos, mas esquece da vontade do Pai? Ou com o segundo que tem consciência de ter dito “não” a Deus, mas, na sua fragilidade, volta atrás e faz o que o Pai lhe pediu? Ou não seria melhor se fossemos como “um terceiro filho”: aquele que diz “sim”, faz a vontade do Pai e vai mesmo para a vinha!

Mas na parábola não se fala de um terceiro filho. Pois gostaria que houvesse muitos na comunidade cristã. Para sermos esse terceiro filho basta-nos o exemplo de Jesus. Ele diz “sim”, Ele “humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte de cruz”. Por isso lembra-nos São Paulo: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus.” (cf. Fl 2, 1-11)

Ser cristão é percorrer um caminho concreto, avançando no mesmo sentido indicado pelo Mestre, identificando-nos e configurando-nos a Ele, tornando-nos uma imagem sua, para as pessoas que encontramos.

Os “sentimentos”, segundo a antropologia de Paulo, não são as “emoções” que as diferentes circunstâncias provocam em nós, são antes os motivos, as convicções, do mais intimo da pessoa, que a levam a agir num sentido especifico. O sentimento bíblico envolve a pessoa: mente e coração; mãos e pés; é a disposição permanente para com um comportamento especifico.

“Ter os mesmos sentimentos de Jesus” supõe que o conheçamos através da leitura atenta do Evangelho, da oração e da celebração dos sacramentos, da vida da comunidade cristã e da caridade. Conhecer Jesus verdadeiramente a partir do interior: o seu agir; as suas preocupações; o seu critério na avaliação das pessoas e das circunstâncias; as suas opções na vida; a sua relação pessoal com o Pai; a sua disposição para com os outros.

Paulo, no desenvolvimento da Carta aos Filipenses, sublinha alguns dos sentimentos que Jesus viveu em profundidade: a fortaleza perante a prova; a compaixão perante as necessidades alheias; a humildade; a obediência à vontade do Pai (cf. Fl 5,6-8). Foram estes os motores da vida de Cristo que o conduziram aos acontecimentos salvíficos da sua morte e ressurreição.

Digamos nosso “sim” a Deus que se confirma num verdadeiro empenho na “vinha” do Senhor, vivendo dia a dia os valores do Evangelho, seguindo o Filho obediente do Pai nesse caminho de amor e de entrega que Ele mesmo percorreu, construindo com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão e de paz para todos.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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