Fechar

Fechar

O Senhor é o único Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 26 de maio de 2018 às 12:30

A solenidade litúrgica da Santíssima Trindade deste domingo guarda uma clara relação com a de Pentecostes, celebrada no último domingo e marca a retomada da segunda etapa do Tempo Comum do Ano Litúrgico.

Hoje celebramos o centro do cristianismo, um mistério, que distingue a religião cristã de todas as outras religiões. Uma verdade fundamental da fé, que expressamos inúmeras vezes por palavras e gestos na sagrada liturgia.

A solenidade da Santíssima Trindade é, antes de mais, um convite a descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Deixemo-nos questionar hoje por Moisés: “Existe, porventura, algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe…? Ou terá jamais algum Deus vindo escolher para si um povo entre as nações…?” (cf. Dt 4,32-34) e ainda: Em que Deus acreditamos? Qual a imagem de Deus que temos? Qual o rosto do nosso Deus? Qual a imagem do Deus que adoramos? Qual a relação de Deus com os homens? Este Domingo deve ser, sobretudo, para a contemplação e à adoração de um Deus que se apresenta como o único Deus: “Reconhece, pois hoje, e grava-o em teu coração, que o Senhor é o Deus lá em cima do céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele” (Dt 4,39). Trata-se de um Deus impessoal, mas não abstrato, o absoluto, um Deus próximo, um Deus que fala, mantendo-se transcendente, mas ao mesmo tempo imanente na pessoa de seu Filho Jesus Cristo, mantendo-se único nesta unidade do Espírito que é o Amor. É assim o Deus de Israel e o Deus dos cristãos, sua natureza divina é o Amor, para Ele amar e existir é a mesma coisa.

Chegados aqui temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue ‘dizer’ o indizível, não consegue definir o mistério de Deus. Como disse Origines: “Confirmo livremente uma sentença proferida por um homem sábio e fiel, que  frequentemente me vem à lembrança: de Deus é perigoso falar, mesmo com verdade. Com efeito, não são somente as ideias falsas as perigosas, mas também as verdadeiras, se não forem ditas oportunamente”.

Também podemos dizer com as palavras do Apóstolo Paulo: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (cf. Rm 8,14-17). De acordo com esta catequese o nosso Deus é o Deus de uma relação de proximidade familiar, que vem ao encontro da humanidade para integrá-la na sua família amando-a com amor de Pai, tornando-nos todos irmãos, filhos no Filho, consanguíneos e herdeiros da vida plena e definitiva.

Batizados, mergulhamos no mistério do Deus Trindade. Ser filhos de um Deus trinitário é ser filhos de um Deus que é Amor; vivamos, pois, no Amor e viveremos como autênticos filhos de Deus. O batismo introduz-nos no circulo trinitário através do nascimento para a vida de adoção filial por Deus, como testemunha o seu Espírito em nós: “se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8, 17).

É nesse espírito que Jesus dá a seus discípulos a missão de formar a sua Igreja, como a família dos filhos deste “Abá Pai”, a comunidade: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei” (cf. Mt 28,16-20). Mateus faz menção explicita da Trindade na fórmula do batismo, que reflete, sem duvida, a práxis batismal da igreja apostólica. Com esse Espírito, a comunidade cristã realiza a missão de anunciar Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo.

É um mandato missionário e também comunitário: fazer discípulos e incorporá-los a essa família através do batismo. É, sobretudo, uma tarefa evangelizadora: é preciso ensiná-los a viver o evangelho. Mas, o mais importante é a consciência de que nunca se estará só nesta missão: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Ele nos acompanhará com sua presença, fazendo assim que o Evangelho não caduque, mas se atualize permanentemente e sempre seja a alegre e “boa notícia” para todas as gerações que queiram aderir à sua mensagem salvadora.

Deus vence nossas solidões. A solidão é um peso que oprime grande número de pessoas de todas as idades, nos nossos dias. A solidão cria insegurança e mergulha suas vitimas na tristeza, na melancolia, podendo fechá-las no egoísmo ou em atitudes antissociais. Os excluídos do convívio humano, isolados de tudo e de todos, não são apenas os idosos e os doentes. São já as crianças abandonadas pelos pais aos cuidados de terceiros, como se pudesse terceirizar amor e cuidado, são os jovens que se deixam prender nas malhas dos vícios e até da marginalidade.

Deus oferece-nos o remédio contra esta solidão de muitos e ajuda-nos a vencê-la, chamando-nos a uma vida de comunhão e comunicação do Amor com o Pai e o Filho e o Espírito Santo, já experimentada aqui na terra. Nunca em toda a história das religiões da antiguidade os homens foram capazes de imaginar tal proximidade e familiaridade com Deus que Ele revela e chama-nos à comunhão com Ele.

Desde o batismo fomos constituídos templos vivos da Santíssima Trindade. Podemos nos relacionar com este Deus que nos conhece e descobri-lo habitando em nós, de quem temos experiência de sua presença que modela nosso caminho. Deste modo é possível perceber a dinâmica amorosa de Deus que nos garante que nunca nos encontramos na solidão, porque o Ressuscitado, o Vivente está conosco, está em nós todos os dias, como Mateus o define também na sua Encarnação: o “Immanuel” (Mt 1,23), Emanuel, Deus conosco.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube