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Campina Grande - PB

O seguimento de Cristo

20/01/2018 às 11:34

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

Começamos neste Domingo a leitura semicontínua do Evangelho de São Marcos. O evangelista nos vai acompanhar durante este ano litúrgico. E tudo começa com o inicio da pregação de Jesus na região onde Ele tinha maior liberdade de movimento, a Galileia (cf. Mc 1,14-20).

Marcos relata que Jesus começou a pregar “depois que João Batista foi preso” (v. 14). Precisamente no momento em que a voz profética de João, que anunciava a vinda do Reino de Deus é calada, Jesus começa a percorer os caminhos da sua terra para levar a todos, sobretudo aos pobres “o evangelho de Deus, dizendo: o tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho!” (v. 15)

São as primeiras palavras de Jesus no evangelho de São Marcos que expõe o conteúdo essencial da sua mensagem. Tudo o que Ele vem anunciar está resumido nesta afirmação: “Completou-se o tempo”. Chegou o momento decisivo; não há motivo para esperar por outro momento, porque o Reino de Deus já começou. “Jesus é Ele mesmo o cumprimento das promessas; é Ele mesmo a ‘boa nova’ a acreditar, acolher e comunicar aos homens e mulheres de todos os tempos, para que eles lhe confiem a sua existência.” (papa Francisco)

Esta proclamação da irrupção do reinado de Deus em nossa história compromete as pessoas situando-as ante uma tomada de decisão: “convertei-vos!” Não se pode continuar no caminho habitual; deve-se mudar de direção. A conversão a que Jesus chama, é uma profunda transformação de mente e coração, e esta conversão se faz crendo no Evangelho, no conteúdo da mensagem que Ele anuncia, o “evangelho de Deus”. Crer significa aqui confiar, tomar a sério e fazer desta afirmação – Deus é o Senhor e Deus está próximo – o fundamento da própria vida. O mandato vem só depois da mensagem, como convite a acolhê-lo.

Embora Jesus apareça pregando em público como um mestre entre tantos outros que havia naquele tempo. Marcos, desde o início, quer deixar bem claro que Jesus não é mais um “rabi”, em cuja escola qualquer candidato que o deseje pode se inscrever como discípulo, mas que, ao contrário, é Jesus quem escolhe quem Ele quer para ser seu discípulo, chamando com autoridade.

Marcos relata como primeira ação concreta de Jesus, o chamado dos primeiros quatro discipulos: “Passando junto à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus lhes disse: ‘Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens’. E eles deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus. Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, concertando as redes; e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu no barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus”. (vv. 16-20)

É óbvio que este texto não deve ser interpretado como um relato histórico do que aconteceu, ainda que de certa forma o seja; mas pretende ser o apoio direto da reação ao anúncio do evangelho pregado por Jesus na Galileia. Assim como urge o tempo, o chamado de Jesus é urgente e exige uma resposta, um seguimento incondicional. É Jesus quem chama os discípulos e lhes envia, não são eles que o escolhem, eles não se apresentam por própria iniciativa a Jesus, não solicitam participar em sua obra. Jesus, por sua parte, não os contrata como colaboradores. Ele chama, seu chamado é exigente, mas é capaz de dar pleno sentido à sua vida.

O chamado de Jesus alcança aos discípulos em meio aos seus afazeres profissionais. São pescadores, uns estão “lançando as redes ao mar” e os outros “estão na barca, concertando as redes”. Têm, pois, uma profissão, uma tarefa; não estão desocupados, vagando de um lado para o outro, sem nenhum objetivo. Eles são chamados a prosseguir em movimento, mas de maneira diferente: com Ele. Jesus aproveita o que eles já sabem fazer, lhes anima a seguir pescando… homens.

Vê-se aqui também a radicalidade do chamado que transforma profundamente suas vidas. Arrancam-os de seus costumes precedentes, atividades e vínculos. Não é compatível com outras ocupações. Exige decisão e abandono.

Segue-me”, o chmado de Jesus é orientado para sua pessoa; e eles “imediatamente seguiram a Jesus”. Ele não lhes propõe um programa determinado, convencendo-os de que é razoavel comprometer-se, a fundo nele mesmo. Os chama a Ele, e eles devem segui-lo. Ele lhes precede, e eles vêm atrás. Ele determina o caminho, indica a direção, e eles o seguem.

O conteúdo fundamental do chamado e, consequentemente, da nova vida dos discipulos, é a orientação a Jesus, a comunhão de vida com Ele. Os discipulos não sabem aonde os conduzirá o caminho. Eles apenas confiam e se deixam guiar por Jesus.

O chamado de Jesus é um convite a deixar-se formar por Ele: “farei de vós pescadores de homens”. Talvez não haja expressão mais tradicionalmente incompreendida do que este convite de Jesus. Ele mesmo lhes ensinará uma tarefa nova e Ele mesmo se compromete em prepará-los. Não se dedicarão já à pesca; levarão outros homens a percorrer o mesmo caminho que eles empreenderam, quer dizer, o caminho da comunhão de vida com Jesus.

O chamado de Jesus é também convite a entrar na comunidade dos discípulos em torno dele. Com esses primeiros chamados se forma já uma comunidade de discípulos. Os que seguem a Jesus não são uns individuos isolados, senão uma comunidade de discípulos. O chamado à comunhão de vida com Ele é ao mesmo tempo chamado a entrar na comunidade daqueles aos quais Ele dirigiu o mesmo convite.

Hoje também Jesus segue chamando e nos convidando a deixar “nossas redes” na barca para converter-nos em “pescadores de homens”. A tarefa é imensa, desafiante, mas apaixonante. O mundo de hoje necessita testemunhas de Jesus, estamos dispostos a escutar sua voz? Todos nós, com nossas qualidades, conhecimentos, costumes, forma de vida. Na verdade há pessoas que recebem a vocação de entregar sua vida numa especial consagração, mas a maioria dos cristãos são chamados à santificação de suas vidas nas realidades deste mundo: na família, no mundo da cultura e das artes, na política, na economia e, em geral, em todas as atividades humanas dignas e honestas.

Estamos sendo constantemente chamados por Jesus, a quem conhecemos de vê-lo rondando constantemente em nosso lago. Ele quer que o sigamos, que nos convertamos a Ele e à sua maneira de fazer as coisas. Esta é nossa conversão: fazer de nossa vida cotidiana um “evangelho”, e ter a coragem de vivê-la com coerência.

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