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O Rei Leão

Jurani Clementino. Publicado em 4 de agosto de 2017.

Por Jurani Clementino (*)

Recentemente, num desses dias que você não quer fazer nada, um amigo me convidou para assistir a um clássico do cinema mundial. E eu que não sou chegado a desenhos, fiquei encantado com a qualidade do material que atrasadamente (pra variar) via. Tratava-se do filme de animação O Rei Leão. Eu nunca tinha visto. Nunca tinha visto é forma de expressão. Porque à medida que o filme foi desenrolando, minhas memórias iam sendo acionadas e localizando imagens, sabores, resquícios daquela obra, no disco rígido do cérebro. Eu tinha visto O Rei Leão. Sabe quando você vê sem necessariamente ter visto? Pois é. Eu não era totalmente alheio ao que me aparecia ali.

 Na verdade, quando o filme foi lançado em 1994, eu morava num sítio, lá no interior do Ceará, que nem energia elétrica tinha. Era um lugar distante de quase tudo.  Mas tinha a bodega de seu Antônio Ferreira. Era lá, naquela bodega, que comprávamos os mantimentos que faltavam em casa (óleo, farinha, açúcar, café, rapadura, macarrão…). A bodega de seu Antônio Ferreira era uma conexão direta com o mundo moderno, civilizado. Eu adorava aquilo. Vendia de tudo. Vendia chiclete Ping Pong O Rei Leão. Eu comprava diariamente. Nem era muito chegado a chiclete, mas aquelas figurinhas do filme me encantavam. Estavam lá todas as cenas. Todos os personagens.

E pra meu espanto, vinte e três anos depois, eu me lembrava de tudo. E era uma lembrança gostosa. Acompanhada com o sabor do chiclete na boca. Como pode? Eu vivia com vinte anos de antecedência, completamente alheio, uma encantadora experiência transmidiática. E saber que hoje o povo fala de transmídia com um deslumbramento de uma grande novidade. Mal sabia eu que, nos idos dos anos 1990, eu participava de uma experiência transmídia, patrocinada pela Walt Disney. Experiência que só atribuiria sentido duas décadas depois. Deitado no sofá de casa em Campina Grande. Um menino, que nem havia nascido enquanto eu chupava aqueles chicletes temáticos, foi quem me apresentou O Rei Leão. Ah, essa juventude. Ah, aquela bodega.

Jurani Clementino – 04 de agosto de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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