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O que é patrimônio?

Josemir Camilo. Publicado em 14 de agosto de 2018 às 7:59

Convidado pela Secretaria de Educação de Campina Grande para abrir a Semana Municipal do Patrimônio Histórico, falando para a garotada da rede municipal, preparei um texto lítero-pedagógico.

Vou começar contando um caso. Todos os dias, uma criança saía da creche, com seu pai ou sua mãe e saía contente; atravessavam um terreno com algumas árvores, mato e formigueiros, algumas flores. A menina gostava de se esconder atrás das árvores, ‘curiar’ a casa das formigas e colher alguma florzinha. Depois da creche, continuou na mesma escola e fez o mesmo caminho, por uns cinco anos seguidos, até que no ano seguinte foi para outra escola, mais distante. Depois de uns três anos ou mais, a menina passou, com o pai, pelo antigo caminho da creche e viu que todas as árvores haviam sido derrubadas, os formigueiros destruídos e o mato roçado; o terreno estava escavado e estavam construindo um prédio. A menina ficou com raiva, e disse: pai eu me lembrava de todas as árvores, de cada formigueiro, que eu escapava deles, e de cada flor que eu pegava, e agora esses homens malvados destruíram meu cantinho. E a menina chorou de tristeza. Tinham apagado suas memórias, destruído seu patrimônio de emoções.

Quem, da gente, não tem essa experiência de ver apagada, na vida, a lembrança de um lugar, de uma brincadeira, de umas casas, de uma paisagem? Esta memória de afeto pelas coisas de que já vivemos chama-se patrimônio. Cada indivíduo tem o direito a ter uma memória gostosa e manter esta memória, pela qual, às vezes, se compra uma briga. Assim como as pessoas, as cidades, os bairros, as ruas também têm esta memória. A memória das ruas, dos lugares de nossa cidade é patrimônio. Mas esta palavra, para muitos, tem outro significado: o de valor material, valor de dinheiro, de riqueza. Este é outro tipo de patrimônio. Quem tem um livro, tem um patrimônio; quem tem uma bola ou uma boneca, tem um patrimônio. Então, uma cidade, a cidade em que nascemos, também tem seu patrimônio; tem as coisas de valor de riqueza, de dinheiro e tem as coisas de valor de amor, de memória, de afeto. Uma praça, em que nossos pais namoraram, é um patrimônio afetivo deles. Se eles pudessem, aquela praça nunca seria modificada, nem retirada do mapa. Um cinema, onde nossos pais, quando solteiros se divertiram e amaram, também é um patrimônio afetivo deles. Assim, uma cidade está cheia de patrimônios individuais, que as pessoas nem sequer sabem quem têm mais aquela saudade, aquela memória; mas quando a prefeitura, ou um proprietário ou empresa vem e tenta destruir aquele lugar onde nossos avós e pais foram felizes, eles ficam tristes e vão fazer de tudo para defender que estes lugares permaneçam de pé pela vida afora e contam aos seus filhos e netos como era, antigamente, o divertimento deles, a felicidade deles.

Do jeito que prédios, praças, ruas guardam a memória de nossos pais e avós, alguns lugares guardam a lembrança das brincadeiras de criança que cada um já foi um dia: jogar pião, brincar de barra-bandeira, brincar de roda, soltar fogos, fazer fogueira, cantar, brincar de adivinhação, jogar bola, brincar de cozinhar, jogar academia, tudo isto é patrimônio da criança e deve ser mantido, é seu patrimônio.

Assim, a gente vê que há dois tipos de patrimônio: um que é mais físico, material, como bola, bonecos, caminhão de brinquedo, pião etc.; outro que é mais da memória, de decorar e de cantar, de contar histórias, e dançar; e fazer imagens em barro, em madeira, inventar de fazer carros e corridas, só no pensamento e no barulho imitando o motor, isto é um patrimônio que a gente tem e que não é material, é totalmente cultural, feito de hábitos, costumes, crenças, até medo e felicidade.

Desse mesmo jeito é a cidade da gente; ela tem uma parte material, os prédios, as praças, as casas antigas, os lugares onde antigamente as pessoas passeavam, ou trabalhavam, as fábricas, os engenhos, as lojas e armazéns, tudo isto é patrimônio material de nossa cidade. Também, na cidade a gente encontra gestos, palavras, cantigas, ditados, formas de divertimentos, danças, histórias de Trancoso ou histórias reais, lendas, mitos, personagens, mestres do conhecimento de danças e cantos, mestres raizeiros que mantêm a medicina dos nossos avós e bisavós indígenas, maneiras religiosas de respeitar o que é sagrado, tudo isto é o patrimônio imaterial de nossa cidade.

Mas, para ter essa memória de afeto de um lugar é preciso ter vivido neste lugar e ter crescido nele, como se aquele chão, aquele território fosse seu, em que cada um conhece detalhes, ruas, becos, matos, histórias e, naquele pedaço, a pessoa reina como um rei e rainha, inventa suas histórias para ser ouvido por todos. O lugar pertence à pessoa que lá vive; a pessoa pertence ao lugar em que mora. Cada um morador sabe identificar quem é quem na rua, e até no bairro, porque aquela pessoa que nasceu ou que pode até não ter nascido, lá, mas se criou a vida toda, naquele lugar, aquele lugar lhe pertence. Assim é a cidade em que nascemos ou crescemos nela. Quando a gente visita outra cidade, a gente vai logo botando defeito nela, porque a nossa é melhor, tem isso, tem aquilo. Tudo isto é a ideia de pertencer a uma comunidade, sua rua ou seu bairro, de pertencer a uma cidade, a sua cidade. Só com essa ideia de pertencer a uma comunidade ou a uma cidade é que pode haver memória afetiva e havendo memória afetiva pela comunidade ou pela cidade, isto é patrimônio. Quem não é do lugar não tem essa sensação, esse sentimento de pertencer ao lugar e não vai se identificar com o lugar. Não se identificando, não vai ter a memória afetiva que os outros têm e talvez nunca vá defender uma memória que esta pessoa nunca teve. Porque ela não tem a sensação de ter nascido ou crescido neste lugar. Só as pessoas que nasceram ou cresceram num lugar são capazes de amar este lugar e defender sua memória, sua história. São pessoas, que pode parecer simples, mas são ricas de patrimônio cultural. Toda cidade tem seu patrimônio cultural e só as pessoas que lá nasceram ou se criaram, ou também porque estudaram e têm consciência do valor da cidade em que moram, são capazes de amar esta cidade, guardar sua memória e honrar seu patrimônio.

Patrimônio: Ver, sentir e pertencer.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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