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Campina Grande - PB

O que é de César e o que é de Deus?

21/10/2017 às 12:24

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

As elites politicas e lideranças religiosas de Israel sentiram-se profundamente atingidas pelas três parábolas (cf. Mt 21,28–22,14) que Jesus lhes dirigiu denunciando o seu fechamento ao anúncio do Reino e que refletimos nos últimos domingos. Agora essas lideranças passam ao ataque, tentando envolver Jesus com perguntas maliciosas que o condenassem por suas próprias palavras. (cf. Mt 22,15-22)

Tanto os fariseus como os partidários de Herodes sabiam muito bem que Jesus não atuava como uma liderança política, mas como líder religioso. E como tal eles nunca encontraram nele alguma falha, nem em suas palavras, nem em suas obras. Mas, ao mesmo tempo, notavam que a autoridade religiosa de Jesus era superior à autoridade que eles tinham ante seus partidários. Precisava encontrar o quanto antes algum meio para desautorizar a Jesus, ou desacreditá-lo junto ao povo. Para tanto tinham que mesclar a religião com a política para conseguir o seu intento.

Isto foi o que uniu estes dois grupos tão diferentes. Ambos são colaboracionistas do poder romano dominante e lucram com este seu apoio, ao contário dos zelotes ou dos saduceus que não aceitam este dominio.

A pergunta ardilosamente feita pelos fariseus a Jesus foi: “É lícito pagar imposto a César, ou não?” (v. 17) Jesus, em sua resposta, tinha que pôr-se necessariamente contra os fariseus, ou contra os herodianos. Hipócritas! Diz Jesus. Sua resposta surpreenderá a todos: “Mostrai-me a moeda do imposto. Apresentaram-lhe um denário. Disse ele: de quem é esta imagem e a inscrição? Responderam: De César. Então lhes disse: Dai, pois. O que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus.” (vv. 19-21)

A moeda de prata tinha a imagem de Tibério, e uma inscrição em latim que dizia mais ou menos assim: “Tibério César, filho do divino Augusto”. E no reverso da moeda se podia ver o mesmo “divino César” de perfil e a inscrição: “O sumo sacerdote”. Ao dizer: “mostrai-me a moeda do tributo” (v. 19) Jesus deixa que seus interlocutores se autodenunciem pelo fato de possuírem a moeda, de se beneficiarem economicamente desta situação de dominação e usarem a moeda em suas relações comerciais trocando-a pela moeda do templo, sem imagem alguma e que só circulava no interior do templo.

Esta resposta de Jesus tornou-se para a comunidade primitiva modelo para o seu relacionamento com os poderes políticos. Só percebemos o valor prático da resposta de Jesus se soubermos ouvi-la dentro do contexto de confronto político-religioso daquele tempo. A pergunta tem o seu peso dentro dessas circunstâncias. Aí percebemos a originalidade e a coragem da resposta de Jesus, se se considerar o fato de que as moedas, na antiguidade, não tinham apenas o seu valor real-representativo, mas também simbólico.

Pagar impostos com uma moeda que traz a imagem do imperador romano, como um deus, significava, para um judeu autêntico, reconhecer aquele regente pagão, cujas pretensões divinas ameaçavam constituir-se em insuportável rivalidade com o Senhor.

“Dai, pois. O que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus.” Estamos diante de um dos textos mais discutidos e mal compreendidos do evangelho, alvo das mais variadas interpretações. Esta frase passou para a história como uma definição da brecha que se abre entre Deus e o poder político. Inclusive nos tempos posteriores da “cristandade”, onde se confundiam os poderes político e religioso, espiritual e temporal, a resposta de Jesus ficou como um convite a não fazer política com o nome de Deus, ainda que fatalmente se fosse seguir, durante muitos séculos, e hoje mesmo, fazendo política.

Todavia, houve e há muita tentação em converter a religião em política, ou que essa mesma política mediatize a liberdade religiosa. E, sem sombra de dúvida, aí estão palavras de Jesus que marcam uma equidistância entre ambas as coisas.

Alguns entenderam os extremos da frase, César e Deus, Igreja e Estado como opostos e mutuamente exclusivos. As coisas de César, a política não deve ser misturada com as de Deus, a religião. Esta maneira de entender serve, naturalmente, aos interesses dos que têm o poder na sociedade que veem aqui uma justificativa para manter a religião longe da política, da economia, da justiça social, da ciência e da cultura.

Hoje se fala muito de “estado laico”, “laicidade” e “laicismo”. Em um sentido positivo, laicidade pode entender-se como a lógica autonomia e respeito entre o temporal e o religioso dentro de um estado laico ou não confessional. Mas esta autonomia não a entende bem quem nega qualquer intervenção do crente no temporal e reduzem sua atuação ao privado. Então caimos no “laicismo”, que trata de confinar o religioso como algo pertencente ao individuo isolado, negando à fé qualquer tipo de expressão ou manifestação. Inclusive provocam certo ódio ou perseguição a tudo o que significa religioso, considerando que causa dano à sociedade. Quem isto faz pratica um ateísmo confessional, que impede aos outros manifestarem um sentimento tão humano como é a fé religiosa.

A expressão “a Deus que é de Deus” implica reconhecer que é o que devemos fazer para honrá-lo e demonstrar-lhe nosso amor: sua vontade é que colaboremos na construção de um mundo mais humano e isto implica denunciar o que é injusto, eliminar as estruturas injustas de pecado e comprometer-se ou tomar partido no sentido positivo, em tudo aquilo que realiza o homem como pessoa e lhe confere a dignidade de filho de Deus.

Nada do que devemos a Deus damos a César. Só Deus é o Senhor da história. “Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus.” (Is 45,5) Mas, para poder plantar os valores do seu Reino na sociedade humana e na história é necessário que a fé, o cristão não fique fechado no âmbito do pessoal ou privado. Por isso, este evangelho dá para falar da importância que tem os cristãos participarem ativamente exercendo sua cidadania na vida política, reconhecendo o lugar de Deus e o de César.

O Papa Francisco está conseguindo com seu magistério minimizar as asperezas e o ódio para com a Igreja em certos setores da sociedade. Sua mensagem de uma “Igreja em saida” está propagando-se na sociedade. Muitos respeitam a atuação coerente de nosso Papa e isto, sem duvida, ajuda a toda a Igreja.

A fé cristã não pode ser vivida de uma maneira desligada das realidades deste mundo, não pode ser praticada apenas em segredo, no próprio quarto, ou somente entre quatro paredes da igreja. A religião condiciona todas as escolhas da pessoa e todas as horas da sua vida, portanto não pode deixar de influir também sobre opções políticas e sobre o cumprimento da cidadania.

O cristão deve ser o melhor cidadão. O melhor discípulo deve ser o melhor e mais completo cidadão.

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