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O Pobre no Brasil

Pe. Luciano Guedes da Silva. Publicado em 18 de novembro de 2017 às 8:52

*Pe. Luciano Guedes

Após a chegada de Cabral nesta terra tupiniquim, cerca de 3,6 milhões de negros africanos atravessaram o Atlântico para garantir a mão-de-obra escrava que sustentou nossa empresa colonial. Mais tarde, já no século XIX foi a vez dos imigrantes italianos, alemães, japoneses e outros chegarem aqui com uma missão civilizatória, empreendida pelo nosso Segundo Reinado: incluir o Brasil no rol  do progresso e da modernidade, no conjunto das grandes nações  do mundo, deixando para trás o seu passado inglório de atraso e ignorância representado pelo cativeiro, que deveria ser para sempre esquecido.

Importante observar que a maior parte dos europeus que desembarcou aqui desde os tempos da colonização chegou para recomeçar a vida. O Brasil para eles representava o paraíso das oportunidades e ao mesmo tempo o inferno dos trópicos, com o seu clima abrasador e a dureza do trabalho a ser conquistado. Não vieram os mais abastados, vieram os desgraçados pela sorte, os desafortunados, os que perderam posses e riquezas nas grandes crises econômicas, políticas e militares que varreram a história. Por isto mesmo, nossa língua portuguesa editou a palavra “saudade” – na prosa dos navegantes – para designar o desejo de um dia voltar ao mundo civilizado, ou seja, voltar para a Metrópole.  Aqui, curiosamente, reinventou-se o ideal de elite, com a aquisição de títulos de nobreza, mesmo quando o receptor da honraria tinha subido na escala social, mas permanecia analfabeto.

Destas experiências que sedimentaram nosso tecido social, convencionou-se em muitos espaços, públicos e privados, certa mentalidade de que o pobre é o sujeito fraco, que tem pouca habilidade, cultiva o desleixo, é inadequado, desorganiza a ordem das coisas pensadas e estabelecidas. Quando o pobre, com seu próprio esforço estuda, investe numa carreira profissional e melhora a sua renda ou se torna notável pelos dons artísticos que possui, ele passa a ser um cidadão, o seu sobrenome começa a ser mencionado, numa tentativa de associar sua genealogia com alguma parentela influente.  Os preconceitos quanto à sua origem são desfeitos e finalmente ele pode “consumir” os bens que alimentam os sonhos de felicidade, de realização pessoal, ele deixa de ser um custo e resulta num contribuinte e patrocinador desejado.

Somos ainda um país, onde a grande vergonha social é ser pobre, parecer pobre, ter cara de pobre. Há evidentemente outros problemas arquitetados pelas diferenças de cor ou relacionados à moralidade, mas o que se impõe como fator de exclusão mesmo é ser pobre! Se o indivíduo angariar dinheiro, fama e riqueza, os preconceitos são contornados, desditos e esquecidos.  Por isto mesmo, há quem afirme, que a “contradição” e para outros a “hipocrisia” social, em alguns casos aqui, beira o disfarce e a loucura.  Quem sabe um dia, não precisemos qualificar as pessoas pela renda que possuem, pela escola que frequentaram ou pelo grotão de onde surgiram na linda cidade. Afinal, nós “brasileiros”, somos consequência dos grandes deslocamentos geográficos e dos equívocos sociais que compuseram este povo de rostos tão diversos, onde as identidades ainda necessitam fazer as pazes!

Na perspectiva da fé cristã a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre.  É um caminho atrás dele e com Ele: um caminho que conduz a bem-aventurança do Reino dos Céus (Mt 5,3; Lc 6,20). O Papa Francisco em sua mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres nos diz que a “pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação da onipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira, o luxo. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos”.  (Papa Francisco, 13/06/2007)

A tarefa de construir uma cultura de justiça, respeito e paz será de todas as pessoas de boa-vontade e comunhão que acreditam na dignidade do ser humano e na importância de uma sociedade mais fraterna. O querido Brasil em suas contradições sociais, étnicas e históricas tem neste sentido uma grande tarefa: sepultar velhas e novas formas de preconceitos, violências e exclusões que segregam os filhos da mesma Mãe Pátria.

(*) Pároco da Catedral Diocesana de Campina Grande

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Pe. Luciano Guedes da Silva

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