Fechar

Fechar

O pior mal é a indiferença

Padre José Assis Pereira. Publicado em 24 de setembro de 2016 às 16:57

Foto: Paraibaonline

Foto: Paraibaonline

A liturgia deste Domingo propõe-nos, de novo, a reflexão sobre a nossa relação com os bens deste mundo. Convida-nos a vê-los, não como algo que nos pertence de forma exclusiva, mas como dons que Deus colocou em nossas mãos, para que os administremos e partilhemos, com gratuidade e amor.

Amós, o “profeta da justiça social” (cf. Am 6,1-7), se revolta contra a vida fácil e cômoda dos ricos, seus conterrâneos, a sua profecia é uma censura ao verdadeiro culto ao conforto, à vida anestesiada perante os sofrimentos e carências dos outros.

Mas, não podemos imaginar Amós semelhante a um sindicalista moderno, que luta e faz reivindicações sociais. O profeta não foi um “panfletário radical”. Para ele o “povo escolhido”, Israel tem que viver segundo os critérios de Deus que pede justiça para todos.

Portanto, o que Amós questiona, sua ideologia é a daquele que sente que Deus não pode suportar a irresponsabilidade humana. A consciência crítica do profeta é um alerta sempre necessário. Incomoda nossa acomodação, nossa alienação, mas são imprescindíveis para nossa consciência adormecida e para nossa conversão.

“Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria…” (Am 6,1) O profeta denuncia a corrupção da classe dirigente ociosa, que vive no luxo à custa da miséria e exploração dos pobres e que não se preocupa minimamente com o sofrimento alheio.

Quem são os destinatários da profecia de Amós? A classe dirigente do Reino do Norte, seus compatriotas que enriqueceram e vivem comodamente nos seus palácios, esbanjando luxo, que vivem numa eterna festa; verdadeiros parasitas que se deitam “em leitos de marfim”, que comem alimentos selecionados, que bebem vinhos raros em excesso, que usam perfumes importados, que se divertem (cf. Am 6,4-6).

O mais grave, no entanto, que o profeta não diz diretamente, é que todo este luxo e esbanjamento resultam da exploração dos mais pobres. Esta classe rica vive mergulhada no seu mundo cômodo e não se preocupa minimamente com a miséria e o sofrimento que aflige os seus irmãos. Os pobres trabalham duramente, na miséria, para sustentarem o luxo da classe dirigente.

É evidente que Deus não está disposto a pactuar com isto, pois este sistema de injustiça não tem nada a ver com o seu projeto para a humanidade. Por isso, o castigo chegará em forma de exílio, o cativeiro na Assíria (séc. VIII a.C.).

A realidade descrita pelo profeta Amós é uma situação bem conhecida nossa… Essa crítica é incrivelmente atual, pode se aplicar a muitos de nós cristãos que vivemos alheios às carências e sofrimentos de muita gente.

A civilização do conforto leva as pessoas a fecharem-se egoisticamente em si mesmas, insensíveis e indiferentes aos problemas dos outros. É desumano fechar-nos em nossa “sociedade do bem estar”, ignorando totalmente essa outra “sociedade do mal estar”.

É cruel continuar alimentando essa ilusão de inocência que nos permite viver com a consciência tranquila, achando que não temos nada a ver com essa realidade, pensando que a culpa é de todos e de ninguém.

Uma vida confortável e luxuosa, unida a injustiças e opressões, conjugadas a uma religião intimista e um culto vazio, temperada com a presunçosa segurança de si. Eis o que Deus não pode suportar, pois tudo isso leva à desgraça. A fé deve traduzir-se em justiça que brota de uma relação perfeita com Deus.

A parábola de hoje (cf. Lc 16,19-31) é contada só por São Lucas, o evangelista mais preocupado com os pobres. Em cena aparece um homem rico, que se veste como um rei e que todos os dias faz festa, e Lázaro, o pobre. O rico cobre-se com vestes de valor. A púrpura é um tecido reservado aos reis ou aos nobres.

Linho fino era uma espécie de linho branco, delicado, que se punha sobre a pele. Chegam estes apontamentos iniciais para percebermos que há algo que não funciona. O rico veste-se de rei, mas não é lembrado pelo nome.

O pobre, que tem como vestido a sua pela chagada, tem um nome; chama-se Lázaro, que significa “Deus ajudou”.

Apesar de Lázaro jazer no portão da casa do rico, quando morre, é levado para o “seio de Abraão”. Inicia-se assim a lei do contraste: o rico, vestido de rei, está destinado ao anonimato; o pobre, que tem um nome, é lembrado para a eternidade.

A parábola é apresentada em dois atos: o primeiro mais breve é a história terrena dos dois protagonistas e no segundo ato mais longo, a do além.

As duas fases são contrastantes. Na vida terrena, o rico festeja todos os dias, ao passo que a Lázaro nem sequer são dadas as sobras da mesa; no além, Lázaro é consolado, ao passo que o rico nem tem uma gota de água para molhar a língua.

Os bens que o rico recebe e que são negados a Lázaro durante a vida terrena contrastam com a consolação em favor de Lázaro e com os tormentos para o rico.

A parábola do rico e do pobre Lázaro em nenhum momento fala que o rico tenha explorado o pobre ou que o tenha maltratado ou desprezado. No entanto, sua vida inteira é desumana, porque só vive o seu próprio bem-estar e ignora totalmente o pobre Lázaro.

Ele não o vê! Está logo ali em seu portão, mas o rico não é capaz de atravessar o jardim e ir cuidar dele.

Esta parábola não é coisa do passado, não descreve Jesus uma realidade dos anos 30 na Galileia. Ele está tentando sacudir a consciência de todos que nos acostumamos a viver na abundância, tendo junto à nossa porta os que vivem e morrem na miséria.

A parábola é atual, só que multiplicados os Lázaros por milhões e em situação mais dolorosa e escandalosa. Abarca as imensas multidões de famintos, mendigos, sem teto, sem cuidados médicos e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor, não se pode esquecer a existência desta realidade. Ignorá-la significaria parecermos o rico, que fingia não conhecer o mendigo Lázaro, postado no portão de sua casa.

O rico não se dava conta do sofrimento de Lázaro. Vai reconhecê-lo na morada dos mortos. E aí existe um abismo entre os infernos, onde se encontra o rico e o seio de Abraão, onde Lázaro foi acolhido.

Parece que é necessário que as coisas vão mal para que nos demos conta de nossa cegueira com respeito a nosso próximo sofredor.

No banquete da criação não se exclui ninguém e se respeita a dignidade de cada ser humano. O grito dos que estão fora se escuta. Os que estão fora gritam cada vez menos, porque já não têm forças e morrem aos milhões cada dia por causa da fome e da miséria.

Vemos os pobres mover-se, agitar-se, gritar atrás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e das revistas, porém seu grito nos chega como de muito longe. Não chega ao coração, ou chega aí só por um momento.

O primeiro que temos que fazer, é o respeito aos pobres, é, portanto, romper com a indiferença, a insensibilidade, botar abaixo as barreiras e deixar-se invadir por seu grito de auxilio, não podemos viver sem ouvir nenhum grito, gemido ou pranto.

Os pobres não são peças de museu, nem são invisíveis, têm nome e sobrenome. Dizia santa Madre Teresa de Calcutá que o pior mal de nosso mundo é a indiferença. “Comova-se” ante o sofrimento dos fracos, não sejamos indiferentes.

*Padre Assis

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube