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O Pão do Caminho

Padre José Assis Pereira. Publicado em 4 de agosto de 2018 às 16:41

A Palavra de Deus na Liturgia deste Domingo afirma que é feliz todo aquele que encontrou o absoluto de Deus no “Pão da Vida”.

Na linguagem bíblica: O pão simboliza o alimento: Pão e vinho significam não só o comer e beber, mas, uma comida de amizade, um símbolo da hospitalidade, pão da libertação e símbolo da providência de Deus sobre seu povo.

No Egito, na escravidão, o povo comia pão, mas era o pão da escravidão. A ruptura com o regime da escravidão supunha amassar um pão novo, o pão da libertação. Mas, na caminhada pelo deserto, aparece a insatisfação daqueles fugitivos do deserto.

No relato do Êxodo (cf. Ex 16, 2-4.12-15), o povo se encontra em situação crítica: foge da opressão do Egito e caminha para a pátria da liberdade. O caminho para a libertação é exigente e duro. Por todo lado surgem a precariedade, o perigo, a ameaça à vida. O povo reclama, murmura, queixa-se. Tem medo da liberdade e prova até a tentação do retrocesso, de voltar atrás. A comparação com o passado leva-o a desejar o que abandonou, o pão da escravidão em vez de enfrentar o futuro.

O povo se esquece de Deus. Não acredita na providência. Não lhe bastam utopias. Torna-se absolutamente necessário comprovar que os passos que estão dando são seguros. Mas falta o pão! Falta o alimento!  Moisés apresenta a Deus a situação. Deus responde e envia a solução. O povo, surpreso, exclama: “Que é isto?… Moisés respondeu-lhes: Isto é o pão que o Senhor vos deu como alimento” (v. 15).

O evangelho de João transformará o “maná” em uma das chaves interpretativas de Jesus o “Pão da vida”. João (cf. Jo 6, 24-35) nos leva até Cafarnaum depois da multiplicação dos pães. No deserto Jesus realizou um sinal da multiplicação dos pães e apareceu como um profeta-sinal. Era precisamente isto o que o povo esperava. Segundo antigos rabinos, assim como Moisés, o libertador, trouxe consigo o “maná”, assim deveria fazer o segundo libertador messiânico. Isto é o que as multidões esperavam: o povo seguia Jesus pelo caminho até entrar no deserto por causa dos sinais que Ele realizava (cf. Jo 6,2).

No deserto Jesus deu o “pão” àquela gente que no dia seguinte o procurou novamente. Ele reconhece que o povo não o buscava pelos sinais ou porque Ele era o profeta-sinal, mas sim porque viu saciada a sua fome. Então lhe falou de dois tipos de alimento: o que é perecível e o que dá a vida eterna: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará”. (v. 27)

Àquela gente obstinada, não lhe bastava o sinal libertador da multiplicação dos pães; queriam outro sinal parecido ao “maná”. Jesus lhes respondeu:

“Não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu, porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”. (v. 32-33) Esse pão é dado agora e a este povo, não aos antigos. Ante esta proposta, o povo suplicou: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (v. 34) Como o povo pede a Jesus o pão, se quem o dá é o Pai? Isso quer dizer que, ao menos provisoriamente o povo acolhe Jesus como enviado de Deus. Ele mesmo se auto-apresentou: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome”. (v. 35) Neste momento começa Jesus seu discurso do “pão da vida”.

Os rabinos consideravam que o maná era o sinal da Lei e esta, era o pão da vida; o evangelista João combate este simbolismo, pois o maná é um alimento que perece, pela mesma razão, nesta oposição entre Jesus e a Lei, se revela que a lei é um dom que perece para passar a algo que permanece para sempre.

Jesus é o verdadeiro pão da vida que Deus nos deu para dar sentido a nossa existência. Diríamos que João se nos está falando do “pão da verdade”, que é a Palavra de Jesus em oposição à Lei como fonte de verdade e de vida para os judeus.  O pão da vida desceu do céu, vem de Deus, alimenta a vida que nunca se pode descuidar.

Jesus o Pão da Vida tem três características do maná; vem das mãos do Pai, é enviado por Ele, desceu do céu e dá a vida ao mundo. Nesta primeira parte do discurso se fala, portanto, da encarnação: a Palavra de Deus descida do céu é o pão da vida. A única atitude válida ante este pão é a fé na pessoa de Jesus, único pão celestial dado por Deus e que dá a vida eterna.

O discurso do pão da vida, portanto é um claro convite a “encarnar” Jesus e sua opção pela vida, em nossa vida pessoal e comunitária. Quem é Jesus para nós? O buscamos porque queremos saciar nossa fome corporal ou bem mais, para satisfazer nossa sede de plenitude? Nós trabalhamos somente pelo alimento que perece, ou bem mais? Trabalhamos suficientemente pela comida que permanece para vida eterna?

Em Jesus, a Palavra eterna do Pai assumiu o humano com toda sua realidade, se “encarnou”, “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”. (Jo 1,14) Jesus, com sua vida e sua palavra nos mostrou como é Deus encarnado: compassivo, misericordioso, fiel, capaz de servir e dar a vida por amor. Esse é o pão vivo descido do céu, quer dizer, esse é o verdadeiro culto a Deus: assumir a vida tal como a assumiu Jesus.

Comer a carne e beber o sangue de Jesus significa viver como Ele, em entrega, serviço e dispostos a dar a própria vida por sua causa. Comer o “pão da vida”, a “carne” do Filho de Deus, nesta primeira parte do discurso significa metaforicamente “crer”. O pão da vida é a pessoa mesma de Jesus. O pão fica reduzido à pessoa de Jesus. Aí está a vida eterna.

Portanto, celebrar a Eucaristia não é tanto um ato de piedade individual; “meu Deus e eu”, em íntima e egoísta estreiteza. Se convertermos a Eucaristia em um ato intimista, por mais santidade e adoração que se lhe ponha, não deixa de ser um culto vazio, que não conduz à vida.

Há outra maneira de contemplar a Eucaristia. Não de modo estático. Não como uma realidade à qual se acorre para receber graça, mas como a resposta de Deus aos que se encontram a caminho, como o grande dom do Pai providente, que nunca abandona seus filhos e filhas desfalecidos.

Quando a desconfiança se espalha entre nós, quando perdemos o sentido do que fazemos, somente trabalhamos, fazemos coisas e nos queixamos do que vai mal, então perdemos o sentido eucarístico. O pão eucarístico é dom do Pai para o caminhante. É Jesus que se oferece a nós como pão do caminho.

Que nossas eucaristias sejam realmente comungar todo nosso ser com Cristo encarnado no hoje de nossa história para ter a vida eterna. Aproximemo-nos com fé e confiança do pão da Eucaristia, recebamos Cristo como alimento espiritual: Ele é a Palavra de Deus que escutamos e o pão e vinho eucarísticos que compartilhamos.

Não pode haver Eucaristia se não tratamos de colocar Jesus no centro de nossas vidas, se não o convertemos em nosso alimento, palavra, guia e modelo de nossa caminhada.

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Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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