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O olhar misericordioso de Jesus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 29 de outubro de 2016 às 11:14

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Por Padre José Assis Pereira

Mais uma vez o Evangelho nos apresenta um publicano, só que desta vez não é personagem de uma parábola, mas sim um homem concreto, personagem real, que busca encontrar-se com alguém que preencha seu vazio existencial. O publicano Zaqueu que se encontra com Jesus no caminho para Jerusalém, episódio descrito somente por São Lucas em seu evangelho (cf. Lc 19,1-10).

A conversão de Zaqueu é a bela história do encontro dos olhares de dois homens que se buscam através de uma multidão que os separa. Na verdade no episódio identificamos três olhares, três modos de ver. Zaqueu procurava ver Jesus, não somente por pura curiosidade, não conseguia por causa da multidão, pois era muito baixo, passa por ridículo ante seus concidadãos, correndo à frente da multidão e subindo em uma árvore (vv. 3-4).

A multidão que impede o passo de Jesus por pura curiosidade pôs em Zaqueu um rótulo: “ladrão e pecador” e é assim que ela o vê. Ele era um homem desprezado por todo o povo. Um ser humano com um drama tremendo que lhe impedia viver livremente e ser feliz. Um homem com profundos complexos de inferioridade que pretendia ocultar com a acumulação de riqueza, para sentir-se importante ou subir em árvores para estar acima dos outros. No entanto, o publicano era alguém que não havia esmagado totalmente sua consciência humana e estava enfastiado de tanta vaidade boba em sua vida. Busca o novo, busca ver Jesus em quem via uma luz de esperança para sua entediante vida.

Também Jesus quer ver Zaqueu e por isso levanta os olhos e o vê em cima da árvore e lhe diz: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” (v.6) A atitude de Jesus é surpreendente, diríamos até escandalosa para os padrões de seu tempo e provoca criticas, desta vez não só da elite religiosa, mas também de todo o povo. Como este mestre não só aceita o convite para sentar-se a mesa de pecadores, mas agora se autoconvida.

Mas, finalmente Jesus encontrou o homem que a multidão lhe impedia de ver. Jesus não se importa com o rótulo que havia posto em Zaqueu. O olhar de Jesus atravessa aquela casca de pecado e chega àquele coração e encontra outra pessoa. Encontra a esse Zaqueu ainda por descobrir. É o mesmo olhar que descobriu o verdadeiro Pedro em meio às suas negações. O mesmo olhar que amou o homem rico e poderia convertê-lo em discípulo se ele quisesse. Jesus acreditou em Zaqueu, o vê de maneira totalmente diferente da multidão e vai ao seu encontro e lhe dá o seu amor, pois seu olhar é misericordioso.

Imagino quanto impressionou a Zaqueu aquele olhar de Jesus. Olhou-o com carinho, como um pai ou mãe, olham para seu filho ou filha rebelde. “Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura.” (Sl 144)

Deus repreende com amor, com paciência, pouco a pouco, dando a cada um seu tempo para que se corrija e volte ao bom caminho. Porque, como disse o Livro da Sabedoria: “De todos tens compaixão… fechas os olhos aos pecados dos homens, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que fizeste… Senhor amigo da vida”. (cf. Sb 11,22-12,2)

Quanto bem faria o olhar de Jesus em Zaqueu! Ele se sentiu pela primeira vez em sua vida amado de verdade por alguém. E não só isso, Jesus lhe pede para ficar em sua casa. Zaqueu se sentiu honrado, mas a multidão, os “perfeitos”, criticavam Jesus que “ele foi hospedar-se ena casa de um pecador!” (v. 7) A multidão não crê em Zaqueu nem em Jesus e o seu olhar converte Jesus em pecador e amigo de pecadores. Jesus aceitou Zaqueu como pessoa e como filho de Deus e se atreveu a acreditar no bem que podia realizar este homem rico e injusto, desprezado por todos. Não o rejeitou como ser humano nem teve um olhar de reprovação ante suas atitudes, apenas ofereceu-lhe sua amizade e lhe manifestou seu desejo de ficar em sua casa, quer dizer, de entrar em seu mundo, em sua vida e fazer-se seu amigo.

Zaqueu compreendeu que diante de seus olhos havia uma oportunidade única que talvez nunca voltasse a ter. Por isso sem pensar duas vezes, com alegria recebeu Jesus em sua casa e em sua mesa. Tratou-se de um ato de fé e de um voto de confiança em Jesus. Zaqueu acreditou em Jesus e lhe abriu as portas de seu coração para que Ele entrasse em sua vida e a transformasse.

O olhar de Jesus é que produz a conversão. Zaqueu iluminado pela fé em Jesus, manifesta o seu desejo de compartilhar sua própria miséria, seu pecado, roubo, fraude e corrupção. Também a fé que Jesus pôs em Zaqueu lhe fez descobrir naquela multidão que o rejeitava irmãos aos quais ele os havia enganado, irmãos aos quais havia roubado e traído, toma então sua decisão: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, vou devolver quatro vezes mais”. (v. 8) E disse-lhe Jesus: “hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão.” (v.9)

A conversão e o hoje da salvação são os temas centrais desse encontro de Jesus com Zaqueu. A presença do Messias e a conversão de Zaqueu torna possível o hoje da salvação, tornando-se realidade que “o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (v. 9)

Há muitos “Zaqueus” no mundo. Hoje Zaqueu sou eu ou você, pois esta pode ser também a nossa história de conversão. Ponhamo-nos no lugar deste pecador. Jesus nos chama também à conversão nos convida a mudarmos radicalmente nossa vida.

Se buscarmos ver Deus, Ele sempre nos encontrará. O importante é que o busquemos, afastando de nosso caminho todos aqueles obstáculos que nos impedem de vê-lo: nossa baixa estatura moral ou social, nossas covardias e temores, nosso orgulho e nosso desejo de sobressair acima de nossas possibilidades, nossas paixões incontroladas ou nosso egoísmo. Jesus é a encarnação do bem, da verdade, da justiça e do amor. Se nós caminharmos pelos caminhos da mentira, da maldade, da injustiça, do desamor, nunca poderemos ser vistos e encontrados por Deus, “pois os meus caminhos não são os vossos caminhos”. E se vemos a Cristo, estejamos certos que nossa vida mudará radicalmente.

Jesus crê em cada um de nós. Ele vê no fundo de nosso coração um novo eu que pode sair. Apesar de tudo, Jesus segue sempre crendo e esperando por nós. Mesmo que todos deixem de acreditar em nós, Jesus segue acreditando. Para Ele nunca sou um ser perdido. Deus faz que cada um de nós sinta esse olhar misericordioso de seu Filho e nasça em nós uma fé nele capaz de abrir nossos olhos aos irmãos aos quais com nossa vida temos decepcionado.

Aceitemos o olhar misericordioso de Jesus, deixemos que Ele se encontre conosco e o convidemos à nossa casa. Não tenhamos medo, deixemo-nos seduzir por Ele, lhe confessemos nossas mentiras, arrependidos expressemos nossas necessidades e, quem sabe, devolvamos o que roubamos aos outros. Não duvidemos, Jesus nos dará a graça de seu perdão.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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