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O Novo Quilo e o Quebra-Quilos

Josemir Camilo. Publicado em 18 de novembro de 2018 às 9:44

– Vai um quebra quilo, aí, madame? Pergunta o feirante à sua freguesa, na feira de Campina Grande. Trata-se de um contrapeso. Mas, na História da cidade e da região esse quebra (-) quilo deu muita dor de cabeça ao povo e às autoridades.

Aproveitando a notícia de que o quilo original perdeu 50 microgramas em 100 anos, e a brincadeira, no facebook, do engenheiro agrônomo e amigo, Daniel Duarte, se teríamos um novo quebra-quilos, aproveito a ocasião para revisitar meu artigo “Os Duzentos Anos do Sistema Métrico Decimal”, publicado na Revista Ariús, Nº 6, Vol. 7, UFPB (UFCG), em 1995.

O atual Sistema Internacional de Unidades foi adotado em 1960, sobre a base do antigo sistema metro-quilograma-segundo, que fora alterado em 1937, com a inclusão de medidas de unidade de energia, a de força e a de poder (watt). São 7 unidades básicas: o Metro (a distância da Luz no vácuo), o Quilograma (baseado no quilo de platinum e irídio), o Segundo (baseado na radiação do átomo do césio) o Ampere (corrente de um volt produzida por dois fios no espaço separado um e outro por um metro) Luz (que tem como base a candela) o Mol (quantidade de substância) e Kelvin (para temperaturas termodinâmicas).

O Sistema Métrico Decimal foi introduzido durante a Revolução Francesa, em 1790, baseado nas medidas do planeta. Foi tomado o meridiano, que passa em Paris, para determinar o metro: 1/10.000.000 daquela distância entre o Polo Norte e o Polo Sul. Formava-se aí, um sistema, cuja unidade de peso seria derivado do peso de um metro cúbico de água. Tal sistema só entraria em prática, em 1799: o Metro (a medida acima); o Grama (a massa de um centímetro quadrado de água pura na temperatura de quatro graus); o Quilograma (um cilindro de platinum e irídio, com 1.000 gramas – este, o da mudança atual); o Litro (volume de um cubo com um decímetro de extensão); o Are (acre, um quadrado de 10 metros de lado; o Hectare -100 ares – tornou-se a principal unidade); o Stere (unidade de volume, equivalente a 1m cúbico).

No entanto, o sistema só entrou, para valer, na França, em 1840. Em Portugal, em 1857; Os Estados Unidos usou um sistema misto e  só, em 1970, é que o oficializou. A Inglaterra se recusou, alegando que o Sistema era fruto da Revolução republicana Francesa.

O Brasil adotou-o em 1862, mas dando o prazo de uma década para a adaptação da economia. Em 1872, outro decreto obrigava o uso do Sistema, a partir de 1 de janeiro de 1874. Sua implementação causou diversas revoltas, no que é hoje o Nordeste, que ficaram conhecidas como Quebra-Quilos. No dia 31 de outubro de 1874, estourou, na feira da vila de Fagundes, município de Campina Grande, o movimento popular contra a implantação do Sistema Métrico Decimal. No sábado seguinte, foi a vez dos camponeses e feirantes de Campina Grande se rebelarem contra a modernidade do Sistema. Estas revoltas atingiram cidades pernambucanas e se espalharam da Paraíba para o Rio Grande do Norte.

O movimento espontâneo do povo consistiu em quebrar as peças de madeira e os pesos, jogando-os no açude velho, sendo, então muito reprimido, com prisões, amarrados e com coletes de couro, marchando até a capital, em que alguns morreram. No entanto, o que resultou dessa imposição, foi um sistema híbrido, onde o oficial funcionava para a produção e a exportação, enquanto as relações comerciais internas continuaram num misto dos dois sistemas, como se deparam de documentos entre 1873 e 1882. Para tecido, usavam-se peças (de algodão), corte, varas e côvados (este como sendo a medida entre o cotovelo e a ponta do dedo médio de reis medievais); para o peso pequeno, usava-se a libra, que tinha três medidas: 600, 500 e 480 gramas (para pólvora e natureza igual e, até mesmo, com produtos domésticos: café, açúcar). Líquidos eram medidos em ancoreta, pipas, canadas, barril, galão etc. Extensão e área, em como como para lenha, cerca de terreno, usava-se a braça; pesos maiores iam em arroba de minério (18 kg), de algodão (16), e carne (12); barricas e caixas, depois sacas, para o açúcar; depois, arroba, bem como para o algodão.

Um documento de época especificava para os comerciantes: “Nenhum negociante ou taberneiro, ainda mesmo Guarda Nacional, poderá vender em cuia, que é ladroeira”. Portanto, o fenômeno Quebra-Quilos foi uma reação à modernidade capitalista, levado a efeito por uma população rural, uma massa camponesa, existente na faixa do Agreste da Borborema, que conformava sua atividade econômica na produção de subsistência e excedente mercantilizável. Por aí se vê a extrema complexidade em que se tornou a relação agrícola-mercantil, por volta de 1874, com respeito à correlação medidas/valores, o que complicava a compreensão da massa camponesa analfabeta. As próprias ferrovias tiveram que adaptar sua contabilidade na cobrança de fretes, o que nem sempre era compreendido pelo produtor, na relação quilômetro/toneladas, quando antes era a de arrobas/léguas.

A aplicação do Sistema Métrico Decimal foi uma tentativa de atender o mercado internacional, dentro do laissez-faire, laissez-passer. O algodão era exportado, ao mesmo tempo, em “balas”, sacas, fardos, além de o peso dos fardos ser aleatório: enquanto o peso do nosso era de 4 arrobas e 30 libras, o do Egito pesava 34 arrobas. Tratava-se de falta de técnica rentável no enfardamento e prensagem do nosso algodão. O mesmo acontecia com o açúcar, onde se falava na produção de “pães” de açúcar e, na exportação, de caixas, sacas e até barris. Os “espíritos” (aguardente) eram exportados confusamente em canadas, pipas, barris etc. Este universo caótico era acompanhado de perto pela emissão monetária e suas tantas subdivisões. Daí, aumentou a confusão, uma vez que as medidas antigas estavam correlacionadas a preços que, a partir de 1874, passavam a se relacionar com novos pesos e medidas.

Não haverá ‘revolução’ por esse contrapeso, 50 microgramas; com certeza!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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