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O Natal nas rugas do tempo

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 26 de dezembro de 2018 às 10:45

Este texto foi concebido antes do Natal 2018, tendo como inspiração o poema “Natal, 1987”, presente no livro “O Câncer no Pêssego”, obra de autoria de José Antonio Assunção, lançada em 1992.

Escritos em três estrofes, os dez versos de “Natal, 1987”são os seguintes: “O perdido gesto/ de vasculhar os sapatos/ na Manhã dos Sinos. / Os próprios sapatos/ (itinerários de ti?) / já quedam rotos/ nas rugas do tempo. / E o menino antigo, / só de teimoso, / suporta o presente. ”

 Ao escolher o poema “Natal, 1987” em o “O Câncer no Pêssego”, o fiz por conta de uma lembrança saudosa de minha infância, quando ao acordar nas manhãs de Natal passava a mão por baixo da cama em busca do presente de Papai Noel: “O perdido gesto/ de vasculhar os sapatos/ na Manhã dos Sinos. ”

Tempo de criança. Tempo de inocência. Inocência perdida quando descobri que, ao invés de Papai Noel, quem deixava o meu presente de Natal era, de fato, o meu pai. Isso aconteceu quando certa vez acordei mais cedo e ao passar a mão por baixo da cama não encontrei nada.

Então, pensei: por algum motivo Papai Noel havia se atrasado e esta seria uma boa oportunidade de eu vê-lo. Fingi estar dormindo, mas deixei uma fresta no lençol. Foi através dela que vi o meu pai cuidadosamente colocando um carrinho de madeira debaixo da minha cama: era o meu presente de Natal.

Com a perda da inocência, fui expulso do paraíso da ilusão natalina e essa foi a última vez que o meu pai colocou presente debaixo de minha cama no dia de Natal. Daí por diante, metaforicamente, os meus sapatos se tornaram os meus próprios itinerários nas rugas do tempo e o menino antigo se tornou homem.

Voltando ao livro “O Câncer no Pêssego”, sem pretensão de fazer crítica literária, mesmo porque esse não é o meu ofício, apresento apenas algumas considerações a respeito dessa obra densa de autoria de um dos melhores poetas da minha geração.

Dividido em três partes: – Nas Crinas da paixão (O Enleio de Sísifo), O Exercício de Sísifo (O Dublé) e Outro Exercício de Sísifo (O Duplo Duelo) – os poemas nelas contidas formam uma trama urdida pela palavra trabalhada, imbricada e esculpida com rigor e precisão que só encontramos em uma verdadeira obra-de-arte.

Se o poema “Natal, 1987” é quase memória, há em “O Câncer no Pêssego” outros poemas nos quais o leitor é conduzido a uma leitura diferenciada do amor, um amor distante de clichês românticos e de lugares-comuns. O amor do canto das sereias e que o mar não responde. O amor entre flauta e sopro. O amor entre voo e ave (“o quanto ele tem de plumas por entre as garras”). O amor entre pérola e ostra. O amor entre beijo e boca. O amor entre mar e mangue (“Amor: contradição de mar e mangue; convulsão de mitos em céu de pântano”).

Conforme Milton Marques Júnior, Professor de Literatura da UFPB, o poeta José Antonio “também assume o exercício de Sísifo para falar da criação poética, na aprendizagem da poesia com as três irmãs que engendram e fiam o destino dos homens: as Parcas”.

Ainda segundo o citado professor: “Ao enfrentar o duplo duelo, o poeta como Sísifo luta por ver o seu trabalho concluído: a leitura do outro. O poema como tessitura de silêncios se completa com a leitura do outro”.

Assim, temporariamente, dou por encerrada, essa tarefa de Sísifo neste ano de 2018, mesmo sabendo que, em 2019, a pedra voltará a rolar sobre mim, reiniciando o exercício difícil de converter pensamentos em textos inteligíveis, tendo como foco o leitor.

O autor é professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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