O mundo do cooperativismo

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 3 de outubro de 2018 às 9:06

Desde tempos imemoriais, o ser humano tem lutado para, usando de criatividade, e centrado na concepção de que cada pessoa enquanto livre e soberana, seja capaz de realizar o desenvolvimento próprio e o da comunidade.

Estamos hoje espremidos entre visões opostas do mundo: o liberalismo econômico, na versão mais pura de capitalismo de que o mercado deve funcionar livremente, e os regimes totalitários, em que o Estado é dono de tudo e o homem, independentemente de suas aptidões mais fortes, é apenas peça de uma máquina, um robô impedido de exercitar plenamente suas competências.

A ironia de tudo é que as economias mundiais de maior peso, com bases ideológicas divergentes, apresentam muitos pontos de convergência. Hoje, países como o Uruguai, de governo de tendência socialista, consagram o principio da economia de mercado. Os países escandinavos, tipicamente capitalistas, adotam políticas sociais de fazer inveja, trazendo bem-estar ao cidadão. Já a China, comunista, exercita a forma mais selvagem do capitalismo, com empresários bilionários convivendo com grande parte da população ainda sem auferir os benefícios do grande desenvolvimento econômico do país.

O equilíbrio entre as duas forças divergentes, tem sido buscado em todo o mundo e foi preconizado pelo economista John Maynard Keynes, que defendia a intervenção do governo na economia, visando, justamente, corrigir as desigualdades trazidas pelo mercado sem controle.

Uma das faces mais visíveis dessa briga eterna é, sem dúvida o sistema bancário, sempre acusado e defendido, com razão ou sem razão, por muitos interessados. O fato é que os bancos têm muito poder, sempre tiveram, e quanto maior sua concentração maior é o peso para a sociedade.

No Brasil, 32,48% dos ativos totais das instituições financeiras estão nas mãos de dois bancos oficiais e 37,6% com três bancos privados. Isto é, 70% dos ativos bancários estão com apenas cinco bancos. Isso é muito ruim. A falta de competição é, seguramente, a principal causa de juros tão altos no país.

Caminhos para fugir dessa realidade têm sido buscados. Uma das formas encontradas é o sistema cooperativista: as cooperativas, por serem “empresas com forte atuação local e regional, mantêm-se próximas de seus associados mesmo em períodos de dificuldades, trazendo os estímulos ao desenvolvimento e o apoio às comunidades em que estão inseridas.”

A principal característica das cooperativas é o controle democrático pelos sócios, através de: Participação econômica; Autonomia e independência; Educação, treinamento e informação; Cooperação entre cooperativas; Compromisso com a comunidade; Adesão livre e voluntária.

Num estudo do Banco Mundial abrangendo 145 países, foi constatado que existem 2,6 milhões de cooperativas com mais de um bilhão de associados e clientes. Juntas, as cooperativas empregam cerca de 12,6 milhões de funcionários e, nesse total, não se incluem aproximadamente um milhão de membros das cooperativas agrícolas da China. Os ativos mundiais das cooperativas superam os US$ 20 trilhões – mais de seis vezes o PIB do Brasil.

Em nosso país, os depósitos administrados pelas aproximadamente 1.000 instituições financeiras cooperativas (somadas ainda as centrais e os bancos cooperativos) cresceram entre, 2015 e 2016, 26% e as operações de crédito 9%. Segundo o Banco Central, 3,57% dos ativos totais, 6,64% dos depósitos, 5,5% do patrimônio líquido e 3,42 das operações de crédito, estão nas mãos das cooperativas financeiras. Tudo isso sem contar que as taxas remuneratórias nas cooperativas são, em muitos casos, 20% menores que as dos bancos tradicionais.

No Brasil, existem quase 7 mil cooperativas, nos mais diferentes setores da economia, abrangendo 13 ramos diferentes, com 13 milhões de cooperados e 350 mil empregados. Esses 13 ramos compreendem:

1 – Cooperativas agropecuárias – 48% (quase metade) de tudo que é produzido no campo brasileiro passa, de alguma forma, por uma cooperativa. Elas são responsáveis por quase 11% do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário brasileiro.

2 – Cooperativas de consumo – proporcionam aos associados fazer compras em comum, para uso doméstico, com preços menores e mantendo a qualidade.

3 – Cooperativas de crédito – Das quais já falamos. O maior sistema cooperativo financeiro do país, é o SICOOB com 2.697 agências e quatro milhões de cooperados.

4 – Cooperativas educacionais – Formadas por professores e/ou pais de alunos, é uma associação organizada para prestar serviços educacionais, com ensino de qualidade e preços melhores do que em uma escola comum.

5 – Cooperativas habitacionais – A Cooperativa habitacional tem por objetivo adquirir residências com custos mais acessíveis para seus cooperados.

6 – Cooperativas de infraestrutura – São cooperativas cuja finalidade é atender direta ou indiretamente os associados com serviços essenciais de infraestrutura (ex.: limpeza pública, saneamento, segurança, telefonia, energia, etc.). As cooperativas de eletrificação rural são a maioria desse ramo.

7 – Cooperativas de mineração – Formadas por garimpeiros e outros profissionais da mineração, têm por finalidade a pesquisa, a extração, a lavra, a industrialização, e a comercialização.

8 – Cooperativas de produção – Uma cooperativa de produção pode ser formada por trabalhadores de categorias diversas, todos envolvidos, produzindo, beneficiando, industrializando, e comercializando o produto escolhido.

9 – Cooperativas de saúde – São cooperativas formadas por trabalhadores da área da saúde, (ex.: médicos, dentistas, psicólogos, enfermeiros e profissionais de atividades afins). Hoje, o Brasil lidera o cooperativismo de profissionais de saúde no mundo, contando com 849 cooperativas e 250 mil cooperados, que atendem 24 milhões de pessoas.

10 – Cooperativas sociais – Também chamadas de cooperativas especiais, reúnem pessoas que precisam ser tuteladas ou estão em situação de desvantagem (ex.: deficientes, dependentes químicos ou psíquicos, egressos de prisão, condenados a penas alternativas, etc.). O objetivo geral é inserir social, profissional e/ou economicamente os seus membros.

11 – Cooperativas de trabalho – são integradas por uma categoria específica de profissionais (ex.: cooperativa de dentistas, cooperativa de costureiras, cooperativa de catadores, etc.), visando melhores condições de trabalho e valores superiores de contratação dos seus serviços.

12 – Cooperativas de transporte – formadas por trabalhadores que se dedicam especificamente à prestar serviços de transporte de cargas e/ou de passageiros.

13 – Cooperativas de turismo e lazer – prestam serviços turísticos, artísticos, de entretenimento, de esportes e de hotelaria, ou atendem direta e prioritariamente os seus associados nessas áreas.

As Cooperativas são um instrumento de participação do cidadão e podem exercer importante papel no futuro de nosso país. Você conhece alguma cooperativa mais adequada à sua demanda, ao tipo de atividade do seu interesse? Procure e encontrará.

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