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O mito do rei bonzinho

Josemir Camilo. Publicado em 18 de maio de 2018 às 17:02

Aproveito uma polêmica sobre título monárquico para uma revisão de conceitos. Esta semana, em Pernambuco ocorreu uma palestra sobre a situação política do país. Falaria uma pessoa com o título de Dom. Pensei que fosse bispo católico, mas a rede que o divulgava, anunciava membro da Família Real Brasileira. Imediatamente, repliquei que ele devia ser Dr. e não Dom, porque não há monarquia no Brasil. Deu um bate e volta bem interessante que terminou respingando em repúblicas sangrentas, bem como defesa, até, de colonialismo (em tempo: nunca diga colonização, quando um país invade outro; é colonialismo).

O brasileiro bagunçou a monarquia (entre estas bagunças gostosas, está, ao meu ver, o sotaque carioca), mas se deixou ficar com certos resquícios do imaginário monarquista. Temos reis para tudo que é estoque de melhor nisto, naquilo; rei do futebol, do baião, e até um rei absoluto, o Rei Roberto. Esse traço cultural bagunçado não está só; é a contra parte do mesmo discurso da supremacia branca de olhos azuis: os contos de fadas. Agora, com ajuda, até, da mídia, com esse novelão extra.

A monarquia, que existiu no Brasil, foi amaciada com um imaginário produzido por certos áulicos, que comandaram a formação do Estado nacional brasileiro, sob o comando do Visconde de Porto Seguro. O brasileiro criou um hiato entre o rei colonialista, duro, sanguinário, (Tiradentes e os alfaiates da Bahia que nos provem, corpos enforcados e rasgados com puxavantes de cavalos em cada membro) e o folclórico D. João VI. Aliás, numa das respostas que dei na polêmica, ao acusarem a república por causa dos ladrões atuais, fiz lembrar que quem primeiro limpou os fundos (epa!) do Banco do Brasil, foi o esperto D. João VI, levando, consigo, todo o dinheiro disponível. E ninguém o acusa de nada. Passa a borracha!

O hiato nos leva a aceitar uma monarquia ideal, bonita, justa, aquela que copiamos dos contos de fadas, até mesmo admitindo uma rainha má (ah isto é coisa de indivíduo, não do sistema – e Dona Maria Primeira, que mandou esquartejar Tiradentes, fica como ressalvas ou singularidade). Todas as monarquias do Ancient Régime (tempos medievais, renascentistas até o Iluminismo e as monarquias constitucionais) foram sanguinolentas, belicosas, e altamente exploradoras do trabalho obrigatório de servos e escravizados.

A minha pergunta àquele cidadão seria: como é que você (audácia do pé rapado, chamando sua alteza de você!) vê a repressão que sua Família Real Portuguesa e Brasileira cometeu contra os revolucionários republicanos de 1817, já que você defende a volta desta monarquia?

Temos uma saudade do que não pudemos ser, vassalos de lindos principezinhos e princesinhas de cachos dourados e peles brancas que se avermelhavam (o ruge nosso de cada dia?) diante de galanterias. Esquecemos que isto é um desejo, e que nunca nos vemos no papel de pobres e miseráveis servos, camponeses, sobre quem o rei exigia o direito da pernada, na primeira noite de núpcias do pobre casal. Ora, com uma História (a disciplina, digo) dirigida por uma mentalidade acomodada, conciliadora (não, deixe pra lá, isto foi no passado; já passou…), que fala que o Brasil foi descoberto, que os colonos (não os chamamos colonialistas) trouxeram o amor pelo trabalho, a língua, a religião etc. O amor pelo trabalho é mentira. Toda a riqueza produzida no Brasil, entre 1530 e 1888 partiu unicamente de uma só categoria social, aviltada, presa, torturada para trabalhar de graça para o grupo branco.

Então, para encurtar a história, ou este artigo, não é estranho que haja pessoas defendendo que o Poder venha a ser repassado a uma e única família, não bastassem as dezenas de famílias ricas que se enriquecem diária e anualmente, através de um mecanismo de acumulação primitiva de capital: a política. A classe? A oligarquia, com poderes (re)passados de pai pra filho e a família vai bem obrigado! Quando chegaremos a uma democracia, verdadeiramente, social?

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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