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O mestre Josué Montello é homenageado na I Seccional PEN da Paraíba

José Mário. Publicado em 1 de setembro de 2017 às 9:44

Por José Mário da Silva (*)

O Clube Pensamento/Estudo/Nacionalidade – Primeira Seccional PEN da Paraíba, na retomada das suas atividades correspondentes ao segundo semestre do ano em curso, realizou, no último dia vinte e oito do recém-findo mês de agosto, uma bela sessão de reflexões literárias.

Na pauta, declamação de poemas, música, lançamento de livro e comunicação ensaística, num cardápio estético tão variado quanto saboroso. Indesviavelmente firmada no lema da Informalidade em Busca do Conhecimento, a Primeira Seccional PEN da Paraíba quer continuar sendo um espaço reservado para uma das mais difíceis e necessárias atividades do ser humano: pensar. Pensar que pressupõe trabalho e embate sério com o real que nos cerca, e no qual estamos inseridos.

Se “viver é muito perigoso”, conforme sentencia o mágico narrador de Grande Sertão- Veredas, grandiosa epopeia de João Guimarães Rosa, pensar, certamente, também é muito perigoso, porque desaloja, desestabiliza e emula contra os lugares comuns em que por vezes vai-se cristalizando o ser/fazer dos homens no trepidante e acidentado palco da história.

Contudo, em “Mar Português”, famoso poema de autoria de Fernando Pessoa, que se encontra inserido no livro Mensagem aprendemos que “Deus ao mar o perigo e o abismo deu/mas foi nele que espalhou o céu”. Ser de linguagem e, ao mesmo tempo, alimentado pela transfiguração das mais significativas experiências humanas, o poema tanto pode ser lido no silêncio da alcova quanto realizado no território mais ostensivo da oralidade pública, obviamente com o devido cuidado, a fim de que não seja desfigurado pela estridência de declamações pouco convincentes. Quando realizado oralmente, o que se busca no poema é, sobretudo, a sua tonalidade, que, nos ensaios enfeixados no livro Céu, Inferno, Ensaios de Crítica Literária e Ideológica, Alfredo Bosi conceitua como sendo a dimensão afetiva que recobre as camadas da expressão.

Por esse patamar, Maria Aparecida Pinto e Socorro Virgínio percorreram os vãos e desvãos de poemas de Conceição Araújo, ancorados, cada um deles, no porto da infância e na territorialidade do código familiar. Regina Sampaio, acompanhada por um violão seguro e íntimo das canções evocadas, interpretou, com singular brilho, “Carinhoso e Fascinação”, dois imortais tesouros da insecável fonte da Música Popular Brasileira. O senhor Ronieri encantou os presentes com uma valsa de sua autoria intitulada “Cheia de Gosto”, que foi executada com muita sensibilidade, ao som de uma dolente e lírica flauta, instrumento tão afeiçoado à índole e ao sentimento da alma nacional.

Tomada pelo impacto da emoção mais irresistível e impactante, a professora Conceição Araújo lançou o seu livro Memórias Possíveis de uma Menina Cheia de Gosto. Para a jornalista Eliana Brum, citada por Conceição Araújo na apresentação do livro, “as memórias não são fatos, são verdades para quem conta”. Já para o mestre Eduardo Portella, cuja morte recente a todos ainda entristece: “quem lembra não documenta”.

Em ambos os postulados, uma invariante básica se impõe, qual seja a de que memória não é relato transparente do vivido, mas reconstituição afetiva da vida que, mais que vivida, é imaginada. É o que Conceição Araújo faz o tempo todo: revisita, imaginando, os doces tempos de outrora, sabendo, com Alfredo Bosi, que a memória é, sobretudo, fonte de resistência, canto lírico e gesto épico, a rivalizarem contra a implacável aferição que o tempo exerce sobre todas as coisas.

A infância, a cidade, as amizades, dentre outros componentes de que se nutre o imaginário de Conceição Araújo, vão tecendo e destecendo os fios semânticos basilares das Memórias Possíveis de uma Menina Cheia de Gosto.

Finalizando a bela tarde/noite no aconchegante espaço da FIEP, a mim me coube a gratificante tarefa de proferir uma comunicação sobre a obra do grande mestre da literatura brasileira, o notável escritor maranhense Josué Montello que, se vivo estivesse, estaria completando cem anos de idade.

Homem de letras no sentido mais rigoroso da expressão, Josué Montello viveu como se a literatura, diria Machado de Assis, fosse uma espécie de sua “segunda alma”, o instrumento mais eficaz de comunicação entre os homens, daí ter composto ele um vasto e harmonioso sistema literário, no qual conviveram lado a lado, todos portando sóbria integridade estética, romances, contos, novelas, crônicas, biografias, ensaios, tradução, diários, totalizando cerca de aproximadamente cento e sessenta livros publicados.

Machadiano em seu estilo sumamente ático, Josué Montello foi, sobretudo, um consumado artista da língua portuguesa, cujas composições, refinadas ao extremo, eram sinônimos de perfeição formal e, ao mesmo tempo, vertical incursionamento pelos abismos da interioridade humana, conforme sinalizou o crítico literário Franklin de Oliveira em definitivo estudo que consagrou ao grande mestre maranhense.

Romancista primoroso, mestre Josué Montello também pontificou como um atilado cronista, cultivando o anfíbio gênero literário que, transido entre o imediatismo circunstancial e o apelo à transcendência, conforme acertada percepção de Eduardo Portella, constitui-se na esgarçada narrativa das migalhas do cotidiano, da chamada “vida ao rés do chão”, de acordo com o que foi preconizado pelo inesquecível crítico literário Antonio Candido.

Grande cronista, Josué Montello cantou a cidade, seja São Luís do Maranhão, seja o Rio de Janeiro, sejam as inúmeras geografias por onde andou ao longo de uma vida peregrina e rica de fecundas aprendizagens existenciais. Cantou a literatura, em crônicas eivadas de flagrantes diálogos intertextuais. Cantou os amigos, e as inúmeras vivências que lhe foram proporcionadas pelas sendas da literatura. Cantou, enfim, a vida, seja pelo viés da celebração, seja pelos caminhos da contestação a tudo quanto a amesquinha e rasura. Tudo temperado com uma equilibrada interação entre humor e leveza, sem adentrar os meandros da radicalidade doutrinária, o que, no final das contas, seria uma “decisão suicida”, ainda com o lúcido dizer de Eduardo Portella.

Louve-se, de igual modo, na produção montelliana, a cíclica elaboração de uma volumosa série de diários, nos quais, ora como testemunha, ora como protagonista das tramas desenoveladas por seu agudo senso de observação do real circundante, Josué Montello foi intérprete competente de decisivos lances da vida nacional. Enfim, por qualquer ângulo que a obra multifária de Josué Montello seja examinada revelará, sempre, um escritor da mais alta categoria estética, um mestre admirável, que, verdadeiramente, conferiu dignidade às letras nacionais.

(*) Docente da UFCG/ membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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