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Campina Grande - PB

O Intelectual está morto

02/09/2016 às 21:51

Fonte: Da Redação

Lembrou-se exatamente no dia em que começou a morrer. Tinha deixado de rir. Seu senso de humor sempre fora o seu melhor termômetro. Agora de nada mais restava esforço algum pois sua alma gélida só sentia algum tipo de calor, que não mais o humano, através dos holofotes da nova mídia que acabara de abraçar. Televisão era lugar de muita estrela para pouco céu, mas para quem cresceu nos bastidores do teatro exercitando a volátil prática da egolatria, sabia como “cobra criada” que era, utilizar do melhor dom que aprendera, fingir sempre que fosse necessário.

Na vida nunca teve amigos ou inimigos. Considerava-os, no máximo, possíveis obstáculos no caso de interrupção do seu alpinismo intelectual.  Não se achava uma pessoa ruim, mas naquele novo posto, a tal vitrine televisiva, ai de quem “pisasse no seu calo”. Na verdade seu risco de perda naquele ambiente era muito pequeno, ou quase nenhum, já que dos seus melhores papéis interpretados até hoje, o seu personagem de ‘bom amigo’ merecia aplausos e reconhecimento dignos de um Moliere. Já tinha cativado todo mundo, na certa. Era um mestre na arte da farsa.

Mas tal qual a escola onde foi forjado, silêncio e tranquilidade eram sinais de que o “desconfiômetro” deveria estar sempre em alerta. Mesmo seguro do que fazia, sabia que surpresas deveriam ser consideradas, e quase sempre em dias de calmaria seu coração palpitava num tic tac retrógrado  até que um dos fios imaginários, vermelho ou azul, pudesse ser contado antes que a contagem zerasse.

Buscou inspiração para redigir uma sinopse para alguma peça. Há tempos não redigia nada, dos textos ligeiros sem muita profundidade, mas que geravam um bom público. Levou apenas a pecha de dramaturgo. Um das ácidas piadas por parte dos seus desafetos que o chamavam de (Milk) SHAKE ESPIRRO.

Entendia que tudo na vida era uma questão de relação, seu talento com verve para humor tinha sido corroído bem na base pela insegurança que sentia sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre sua trajetória. Preferiu permutar toda a sua fragilidade e insegurança por ações mais ríspidas, que o deixasse livre e longe de todos aqueles a qual nutria algum sentimento, fosse ele de carinho, de aversão ou até mesmo de inveja.

Interrompido em seus pensamentos pela voz doce da estagiária que trazia em seus olhos a eterna gratidão pela chance dada por ele, desdenhou do texto insípido da capiau vinda do interior que buscava brilhar na cidade grande. De repente diante dos seus olhos, a moça feia do interior, se transformava numa musa do show bizz, esbanjando glamour, mas que trazia uma escamosidade na pele e uma língua bifurcada que naquele instante se dirigia para atacá-lo.

Acordou ofegante com as mãos trêmulas, enxugou o suor do rosto e logo percebera que aquele sonho recorrente agora se tornava algo definitivo no seu ocaso de vida. Desde 1964 quando ainda jovem optou pela ‘nova mídia’ que abraçava talentos do teatro, carregava a dúvida se aquela tinha sido uma escolha coerente. O relativo conhecimento dado pela opinião pública, de forma quase que instantânea, bem lá no fundo nunca preencheu a lacuna da alma. Anos depois olhava para trás e reconhecia que o preço pago pela permuta era o cheiro podre das realizações verdadeiramente não concretizadas. Hoje buscava apenas paz, um sentimento silencioso, sem voz, sem adversidade. Naquele apartamento sentado na poltrona às duas e meia da madrugada, o solitário intelectual não se reconhecia como narciso de outrora que se bastava em si mesmo sem a necessidade de espelho. As lições do tempo foram as únicas a penetrar o âmago de ferro do pensador das coxias. Ao tentar desligar o televisor, sua face enrijeceu como se uma dor profunda lhe viesse abater naquele momento. Reconhecia num desses talk shows de fim de noite, a antiga capiau que falava sobre sua carreira na TV, preservando ainda um leve sotaque caipira. Para ele era o momento da mesma se redimir e finalmente dar os devidos créditos a grande colaboração em sua carreira como o verdadeiro padrinho da estrela.

Pelo que se viu a mágoa carregada há anos parecia que perduraria por  mais tempo, pois sequer uma frase sobre ele foi dita. Voltou a falar os velhos impropérios de sempre, toda a vez que a via, acabou de secar a garrafa de Jack Daniel’s sorvida em um só gole, e voltou a sorrir quando viu que as rugas presentes na “cascavel de saias” já não podiam ser disfarçadas, nem mesmo por trás das mais pesadas das maquiagens. Sorriu vingativo, no meio do apartamento quase sem móveis. Ouvia ecos do que agora era uma gargalhada sem fim. Dirigiu-se à cama, realizado: o tempo era o senhor de tudo.

Por Ribamildo Bezerra

 

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