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O fim ou a transformação deste mundo

Padre José Assis Pereira. Publicado em 12 de novembro de 2016 às 16:35

Foto: Paraíbaonline

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Estamos quase no final de um ciclo litúrgico e a poucos dias de encerrar o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. A Liturgia fala-nos sobre as últimas realidades da história.

A linguagem simbólica com uma série de imagens apocalípticas evoca o fim dos tempos, reflete o momento atual de nossa história cheia de contradições e nos leva a pensar na provisoriedade e fragilidade de nossa existência.

Assim chegamos à conclusão de que só Deus é permanente.

Todos têm nesta hora presente, uma sensação de proximidade de uma catástrofe, a impressão de que o “fim do mundo” está muito próximo. Às vezes temos a sensação de que o nosso mundo caminha para o abismo, para o caos e que nada o pode deter.

A crise econômica, por exemplo, tem variado consideravelmente as expectativas futuras dos países desenvolvidos. E o mau uso da riqueza, antecedendo à crise, faz com que os países pobres estejam agora em situação ainda pior.

Olhamos para a natureza e vemo-la devorada pelos interesses das multinacionais, provocando uma maior incidência de catástrofes naturais e ambientais, calamidades e epidemias ou levando ao colapso de recursos naturais não renováveis.

Quanto ao mapa dos conflitos, está pintado de sangue o presente e o futuro de tantos povos; as guerras e o terrorismo não cessam, como no Iraque, no Afeganistão ou na Síria; o drama terrível e sangrento do narcotráfico no México.

E, de vez em quando, se lê nos jornais que asteroides ameaçadores orbitam próximo do planeta Terra. Parece, então, que o fim do mundo é perfeitamente possível e mesmo imediato.

Porém, realmente, se estamos familiarizados com a atualidade em todas as épocas existe essa sensação de tragédia finalista, sem que obviamente o fim do mundo tenha chegado.

Quanto às pessoas, as vemos fechadas, desinteressadas das grandes questões, um quadro de desinteresse, de descomprometimento, de ausência de grandes ideais ou ainda, diante da catastrófica realidade da humanidade, há quem descarte qualquer possibilidade de mudança.

A toda hora, queixa-se dizendo: “o mundo, não tem mais jeito”. “Não adianta mais lutar”. Esse modo derrotista de pensar não faz parte da comunidade de fé. A questão é: A esperança ainda faz sentido? Este mundo tem saída?

No inicio da era cristã, os cristãos acreditavam que a Parusia ou segunda vinda de Cristo estava iminente: alguns cristãos afirmavam que este mundo estava a chegar ao fim e que Jesus estava para voltar e dar início a um mundo novo e a uma humanidade nova.

Diante da falsa ideia da iminência da Parusia, que circulava em Tessalônica e levava alguns à ociosidade e ao desinteresse pelo trabalho, pois estavam convencidos disto e sentiam que não valia a pena continuar a trabalhar.

Diante desta situação escandalosa e preocupante o Apóstolo Paulo (cf. 2Ts 3,7-12) depois de ter apresentado o seu exemplo de vida cita um provérbio popular:

“Quem não quer trabalhar, também não deve comer”(v. 10) e lembra aos cristãos que “trabalhando, comam na tranquilidade o seu próprio pão” (v. 12).

É, pois, na medida em que os cristãos assumem e se empenham nas realidades deste mundo, na medida em que realizam com qualidade o seu trabalho e cumprem na perfeição os seus deveres neste mundo, é que podem edificar o “mundo novo” que Jesus veio inaugurar.

Por isso, quem não trabalha, quem não põe à disposição dos irmãos suas capacidades, não colabora na construção do Reino de Deus.

Um profeta anônimo, Malaquias, há 2450 anos dá voz à esperança e garante-nos: Deus não nos abandonou; Ele vai intervir no mundo. É preciso ter consciência de que a intervenção libertadora de Deus não deve ser projetada apenas para o “último dia” do mundo.

Ela acontece a cada instante; e nós devemos estar numa espera vigilante e ativa, a fim de sabermos reconhecer e acolher a intervenção salvadora e libertadora de Deus.

Malaquias refere-se na sua profecia (cf. Ml 3,19-20) ao “dia do julgamento” – isto é, ao dia em que o Senhor vai intervir na história, no sentido de destruir o mal e fazer triunfar o bem.

Diante do fogo do Senhor, “serão como palha todos os soberbos e malfeitores” e o Senhor “não lhes deixará nem raiz nem ramo”; em contrapartida, para os que se mantêm nos caminhos da aliança e dos mandamentos, “nascerá o sol da justiça, trazendo nos seus raios a salvação”.

O profeta não está falando do “fim do mundo”. Está se referindo ao dia da intervenção de Deus na história. Trata-se, fundamentalmente, de um apelo à esperança: apesar da situação caótica em que estamos, não desanimemos, mantenhamo-nos fiéis ao Senhor, pois Deus vai fazer aparecer um “mundo novo”. Para os cristãos, esta profecia se refere a Jesus: ele é o “Sol de Justiça” que brilha no mundo e que insere a humanidade na dinâmica de um mundo novo – a dinâmica do “Reino”.

O Evangelho deste Domingo (cf. Lc 21,5-19) nos leva com Jesus a Jerusalém, aos arredores do Templo onde as pessoas falavam da sua beleza e isso leva Jesus a uma catequese sobre os últimos tempos, uma catequese escatológica. Ele anuncia a destruição de Jerusalém.

Lucas sugere que, após a destruição de Jerusalém, surgirão falsos messias que anunciarão o fim, mas ele avisa: “não sigais essa gente”; e esclarece: “não será logo o fim” (vv. 8-9).

Mas Lucas está comprometido em eliminar a febre escatológica que crescia em certos setores cristãos: em lugar de viverem obcecados pelo medo do “fim do mundo”, os cristãos devem preocupar-se em viver uma vida cristã cada vez mais comprometida com a “transformação deste mundo”.

Com imagens apocalípticas Lucas diz aos cristãos o que acontecerá nesse “tempo de espera”: paulatinamente, irá surgindo um mundo novo.

“Povo contra povo e país atacará outro país”; “grandes terremotos, fomes e epidemias; haverá fenômenos espantosos e grandes sinais no céu” (vv. 10-11). E põe os cristãos de sobreaviso para as dificuldades e perseguições que marcarão a caminhada da Igreja até à segunda vinda de Cristo.

Hoje numerosos irmãos e irmãs cristãos em tantas partes do mundo sofrem perseguições por causa da sua fé, porque permanecem fiéis a Jesus Cristo.

Talvez mais do que nos primeiros séculos. São Lucas lembra-lhes, contudo, que não estão sós, Jesus está com eles; será com a sua força que eles enfrentarão os adversários, até, resistir à dor de ser traídos pelos próprios familiares e amigos.

E nós também estamos a eles unidos mediante a oração. Portanto, os cristãos devem viver este tempo da expectativa da vinda do Senhor como tempo do testemunho e da perseverança: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (v. 19).

O que parece, aqui, fundamental, não é o discurso sobre o “fim do mundo”, mas trata-se de uma caminhada que não nos leva à destruição, ao fracasso total, mas à vida nova; por isso, deve ser uma caminhada que devemos percorrer cheios de alegria e de esperança.

É, sem dúvida, uma caminhada cheia de dificuldades, de lutas; mas é um percurso aonde o mundo novo irá surgindo.

A nossa vida não pode ser um ficar de braços cruzados a olhar para o céu, mas um compromisso sério e empenhado, de forma a que floresça o mundo novo da justiça, do amor e da paz. Sabemos que não estamos sós, Deus está conosco.

É essa presença constante e amorosa que nos permitirá enfrentar as forças da morte, tentando impedir que o mundo novo apareça.

Alguns sinais de desagregação do mundo velho, que todos os dias contemplamos, não devem assustar-nos: eles são, apenas, sinais de que estamos a nascer para algo novo e melhor.

*Por Padre Assis

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Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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