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Campina Grande - PB

O essencial é o amor

28/10/2017 às 13:44

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

O evangelho deste Domingo (cf. Mt 22,34-45) continua a situar-nos com Jesus em Jerusalém na mesma linha do domingo passado; os fariseus voltam ao ataque, montam armadilhas destinadas a surpreender afirmações polêmicas de Jesus, capazes de ser usadas para conseguir a sua condenação.

Depois da controvérsia do tributo a César (cf. Mt 22,15-21) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33) fazem uma pergunta “para pô-lo à prova”: “qual é o maior mandamento da lei?” (v.36).

Jesus responde com as palavras do Deuteronômio: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Dt. 6,5), quer dizer, quem deve ser amado é “o Senhor teu Deus”, não se trata de um desconhecido ou estranho. Trata-se do Senhor, que demonstrou ao longo da História da Salvação sua bondade e poder, sobretudo seu amor a favor de seu povo Israel.

Sem um vivo reconhecimento do Senhor e da relação que existe com Ele, não se pode amar adequadamente. A partir da revelação de Jesus não se trata do amor a um ser divino abstrato, mas do amor ao Deus que se encarnou e revelou a sua face em seu Filho, Jesus. Ele vai nos ensinar um amor que faz nosso coração bater no ritmo do coração de Deus.

Este amor deve brotar “do coração, da alma e da mente”. O coração representa o centro vital do ser humano, de onde tem sua origem e sua sede o pensamento, a vontade e os sentimentos. A alma reúne em si a energia vital e a vontade de viver e ao mencionar a mente se põe em relevo uma vez mais o pensar. Estas três faculdades definem e representam todas as capacidades da pessoa humana.

O ser humano deve amar a Deus com todas as suas faculdades. Ele deve encher completamente todas as camadas do nosso ser: o coração deve conhecê-lo e deixar-se tocar por Ele; e assim também a alma, as energias do nosso querer e decidir, bem como a inteligência e o pensamento. Com isso se esclarece também que o amor não é um mero sentimento. O ser humano, de modo pessoal e na sua totalidade, com tudo o que vive nele, deve estar dirigido para Deus, deve abrir-se a Ele, buscá-lo, caminhar até Ele. Esta abertura a Deus, abertura ilimitada, viva e ativa, constitui a exigência principal para cada um de nós, que Deus esteja presente em nossa vida.

Jesus acrescenta a este mandamento algo que, na verdade, não tinha sido perguntado pelo doutor da lei: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (v. 39), mandamento que se encontra igualmente no

Antigo Testamento (cf. Lv 19,18). A novidade de Jesus é unir estes dois textos basilares e declarar que este segundo mandamento é semelhante ao primeiro. Há uma perfeita unidade, quando se ama a Deus. Temos que amar tudo aquilo que Deus ama.

A originalidade de Jesus com esses dois mandamentos é que Ele os equipara, quer dizer, que ninguém pode amar cristãmente a Deus se não ama cristãmente ao próximo e ninguém pode amar cristãmente ao próximo se não ama cristãmente a Deus. Na parábola do “bom samaritano” (cf. Lc 10,30-37), Jesus mostra que independentemente dos laços familiares ou de pertença a um mesmo povo, o próximo é cada pessoa que se encontra em necessidade e que requer ajuda. É necessário fazer-se irmão.

“Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (v. 40). Todos os demais mandamentos recebem destes dois seu significado e hão de contribuir quanto ao seu cumprimento. Escrupulosamente os fariseus, amavam a Lei mais Jesus tantas vezes os criticou, pois para Ele como para os Profetas não há amor sem justiça, portanto exigem não só cumprir a letra da Lei, mas cumprir com o verdadeiro espírito da Lei, que não é outro que amar cristãmente a Deus e ao próximo.

“Mas a palavra ‘amor’, uma das mais usadas, muitas vezes aparece desfigurada”, diz o Papa Francisco na “Amoris Laetitia”. As palavras “amor” e “amar” têem sido empregadas com múltiplos significados em nossa vida cotidiana. Por “amor” ou “desamor” se pode matar e salvar, construir ou destruir, ser feliz ou desgraçadamente infeliz, libertar ou escravizar… Por isso, é necessário, quando os cristãos falamos de amor, acrescentar a esta palavra o adjetivo “cristão”.

Em nossa sociedade onde abunda o egoísmo, a indiferença, o anonimato, a solidão, o vazio interior, a falta de afeto, carinho e ternura, é necessário mais que nunca anunciar que “Deus é Amor” e que Ele nos ama, não como nós nos amamos, pois nossa forma de amar é muitas vezes a de apropriar-nos das coisas e pessoas e torná-las nossas. Eu amo mais quero dominar, eu amo mais quero ser proprietário e o amor de Deus é diferente: Deus ama libertando, Deus ama promovendo, Deus ama emancipando, dando autonomia e esta é a grande diferença entre esta forma gulosa que nós humanos temos de amar intuitivamente e um amor gratuito de dom que se aprende a partir de Deus.

O cristianismo neste século XXI tem como missão fazer ecoar a principal mensagem de Cristo, levando ao ar as notas alegres do amor cristão, da paz, da luta pelo bem, da esperança… Deus conta com nossa cooperação sincera e generosa para difundir esse novo estilo de vida.

Não basta só a luta por justiça, é preciso amar, porque as pessoas são carentes e necessitam ser amadas. Podemos hoje gritar com o salmista (Sl 17(18)): “Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação”. Porém esse amor por Deus e de Deus se faz visível e concreto no amor ao próximo. Já o disse São João: “se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus que não vê, não poderá amar.” (1Jo 4,20).

Temos de entender o amor como Cristo o entendeu: como autodoação, como entrega de si mesmo, amar é dar-se e entregar-se num mistério de comunhão com outro, é “ágape”, é experiência de unidade e fraternidade. Viver como irmãos, supõe assumir um novo estilo de vida, valores novos que nos levam a viver em comunhão com todos, sobretudo os excluídos ou marginalizados, os preferidos de Deus.

Talvez nos façam falta despojar-nos de toda roupagem legalista e de rótulos com que temos coberto nossa fé cristã. O amor é a essência de nossa fé cristã.

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