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O enciclopédico Umberto Eco

Governo anuncia ´festival´ de privatizações e inclui aeroportos de João Pessoa e CG - image data on https://paraibaonline.com.br30/06/2016 às 11:45

Fonte: Da Redação

jose-marioPor José Mário da Silva*

A morte de Umberto Eco deixa uma lacuna impreenchível no universo da cultura contemporânea. Um dos últimos pensadores holísticos do estilhaçado mundo da atualidade, Umberto Eco moveu-se, com impressionante desembaraço, pelos mais variados campos do conhecimento, em todos imprimindo não o selo de uma erudição epidérmica, ainda que glamourosa, mas, sim, a singular marca de um pesquisador sério e profundamente apaixonado por tudo quanto ocupou o deu desbordante horizonte de expectativas e interesses intelectuais.

Romancista, semiólogo, ensaísta, Professor universitário, dentre tantas atividades que desenvolveu, ao longo dos oitenta e quatro anos de existência, Umberto Eco, a meu ver, pontificou como uma espécie de livre pensador, sempre pródigo e pronto em tomar parte nos debates suscitados pelos, diria Bauman, tempos líquidos do agora. Antidogmático por natureza, Umberto Eco soube ser capaz de interessar-se, sobretudo, por realidades nas quais ele não depositava nenhum vestígio de crença. Nesse particular, as manifestações do fenômeno religioso sempre se constituíram em alvos privilegiados dos seus consistentes enfoques.

Umberto Eco nada tinha daquela idiotice da objetividade a que se referiu certa feita, com a habitual mordacidade que lhe caracterizava os pronunciamentos, o grande Nelson Rodrigues. Idiotice que faz com que tais objetivistas combatam o que presumem ser o dogmatismo alheio com um dogmatismo ainda mais feroz. No lugar dessa intolerável estreiteza mental, Umberto Eco, em sua pluridimensional e aberta obra, fez-se um acolhedor de todas as alteridades.

Amplo conhecedor da alta cultura, não cerrou os olhos para o numeroso e quase incontornável universo das culturas populares. Entre apocalípticos e integrados, soube colocar o seu vasto e generoso bloco na rua, conduzido pelos estandartes da reflexão aguda e do diálogo desfronteirizado. Grande teórico da literatura, suas obras se tornaram verdadeiros clássicos. Emulando contra as vertentes mais ortodoxas do estruturalismo, que pôs a história entre parêntesis e, como fez Platão, sobretudo, com o poeta lírico na República, expulsou o leitor das suas cogitações mais efetivas, Umberto Eco, em A Obra Aberta, recoloca o leitor no centro seminal da hermenêutica estética, certo de que, conforme preconizou Sartre, “a literatura é um estranho pião que só existe em movimento, e fora da realidade da leitura o que há são traços negros espalhados na face branca do papel”.

Mais tarde, ao contemplar, diria Luiz Costa Lima, as apreciações literárias centradas no signo da arbitrariedade mais ostensiva, Umberto Eco lança Os Limites da Interpretação. Aqui, os sentidos e significações textuais emergem da confluência dialética que consorcia as intenções do autor, do leitor e do texto: instâncias que devem ser equilibradamente respeitadas; caso contrário, a interpretação vira superinterpretação, uma espécie de abordagem em que o texto não passa de um pretexto para todas as viagens (im) possíveis. Intelectual completo, Umberto morre, mas o Eco da sua superior inteligência continua a reverberar em todos nós, principalmente porque com Emerson aprendemos que “o homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”.

(*) Membro da APL

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