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Campina Grande - PB

O Domingo da Luz

04/02/2017 às 17:17

Fonte: Da Redação

Por: Padre José Assis Pereira

“Luz da Luz”, eis como Jesus se nos apresenta no Evangelho de João: No prólogo (cf. Jo 1,1-18), referindo-se ao Verbo de Deus, à Palavra, ao Filho de Deus “a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo homem”; O mesmo Jesus proclamará diante de todos os judeus: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8,12)

Jesus disse várias vezes que Ele é a Luz para o mundo. Mas hoje, depois de ter proclamado para a multidão as “bem-aventuranças” (cf. Mt 5,1-12), se dirige aos discípulos de todos os tempos valendo-se de duas imagens fortes: o sal e a luz, para falar da grande responsabilidade da missão evangelizadora: “Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”. (cf. Mt 5,13-16)

“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada. Se não para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.” (Mt 5, 13) Na antiguidade o sal era um bem escasso e tinha um grande valor.

Em razão de suas propriedades de conservar e dar sabor aos alimentos, o sal era considerado como portador de especial força de vida. Por causa de seu efeito de purificação, o sal desempenhou também papel no culto. O Antigo Testamento usaria com o sal a ideia de força que conserva a vida e lhe dá duração.

Quando Jesus diz aos seus discípulos que devem ser “o sal da terra”, Ele está lhes dizendo que não se deixem corromper, que lutem contra a corrupção, e que deem sabor cristão a tudo o que dizem e fazem. Para não ser corrompidos é necessário ter a alma como que “blindada” com o sal do Evangelho, porque é facílimo deixar-se contaminar pela corrupção generalizada de nossa sociedade. Corrupção nas palavras e nas obras, corrupção na vida privada e na vida pública.

Às vezes dá a impressão de que só não são corruptos unicamente os que não o podem e não o sabem sê-lo. Sem generalizar de mais, claro, mas sim reconhecendo que a corrupção é um fenômeno bastante generalizado em todos os âmbitos da sociedade. Se os cristãos querem ser sal da terra, devem lutar contra esse fenômeno da corrupção.

Porém se o sal se tornar insosso, não servirá para mais nada. Jesus também chama a atenção dos discípulos quanto à qualidade de suas obras. Isso é o pior que pode acontecer ao cristianismo, deixar que ele se torne anódino, convencional, exterioridade, tradição cultural e até folclórica. Então pode ser jogado fora, porque pode ser substituído facilmente por outros ritos e costumes sociais igualmente meramente convencionais.

É que se o cristianismo não tem força interior, não é uma grande luz da alma, ficará só nisso: gestos externos, tradições seculares e costumes sociais e convencionais. Mais cedo ou mais tarde, acabará na insignificância e no nada.

Os outros, o mundo, não verão nem se sentirão iluminados por nossa luz. O Senhor Jesus não deixa lugar para duvidas. Temos de trabalhar muito para merecer sua luz e mostrá-la aos irmãos.

“Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte.”(Mt 5,14)Desde o Batismo o cristão é um filho da luz, uma pessoa iluminada que tem de acender e iluminar a quantos o rodeiam, perpetuando assim a presença do que é Luz de todas as gentes, Jesus Cristo nosso Senhor.

Jesus quer que seus discípulos sejam guias luminosos para a humanidade. Isto é uma responsabilidade enorme, converter-se em farol e guia dos irmãos. Inclusive é um projeto de tal magnitude que sem a ajuda de Deus será impossível acontecer.

A Bíblia nos ensina que as aparições de anjos, dos enviados de Deus, estavam rodeadas de uma luz muito especial e que seus rostos e vestes pareciam luminosos. Assim a Virgem Maria, a criatura mais perfeita que saiu das mãos de Deus, é contemplada pelo vidente de Patmos, como a mulher revestida com o sol, coroada de estrelas, emergindo fulgurante no azul profundo do céu, com a lua debaixo de seus pés. (cf. Ap 12,1)

Jesus disse que seus discípulos: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5,16) A luz iluminará nossas boas obras e elas servirão para entender que é Deus quem nos ajuda a realizá-las, até o ponto que podemos ser, indignamente, reflexo do mesmo Deus.

O foco divino projetado até nós não só servirá como guia, mas dará claridade a nossas mentes, mas, à sua vez, mostrará a nós próprio o que fazer. Temos que realizar obras boas para que a luz de Deus as ilumine.

As boas obras são fruto do verdadeiro amor, são as obras de misericórdia que se concretiza como o profeta Isaías (Is 58,7-10) anunciava: “repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres sem abrigo e peregrinos, levar roupa ao que não tem o que vestir…” isto é a luz das boas obras. Boas obras se convertem em luz que possibilita a outras pessoas descobrir o amor e a proximidade de Deus.

São sinais de uma evangelização que não se faz só com palavras, com discursos empolgantes, mas com gestos de amor, com gestos e maneiras de Jesus, que seguem sendo válidos e atuais. A caridade sempre foi uma característica decisiva da comunidade cristã desde os primeiros passos da Igreja.

O Evangelho deste Domingo nos convida a oferecer nossa luz acima de tudo: “Ninguém acende uma lâmpada, e a coloca debaixo de uma vasilha…” ser “uma cidade construída sobre um monte” (Mt 5,14-15) de onde se possa admirar a paisagem. A luz pela sua natureza é feita para iluminar, para mostrar visível e publicamente, não para ficar escondida ou no anonimato.

Acontece que há muitas pessoas que necessitam apagar a luz do outro, apagar seus valores, porque assim acreditam que elas brilharão mais, mas o certo é que esta é uma forma equivocada de ver o outro. Há muitas maneiras de esconder a luz: as críticas, a rejeição, a inveja, o ciúme… tudo gerado por esse olhar equivocado que nem sempre olha para sua realidade pessoal.

À luz dos verdadeiros cristãos, sua prática de uma justiça generosa e misericordiosa, deve iluminar a sociedade na qual vivemos. Distinguimos-nos precisamente os cristãos, dentro de nossa sociedade, por sermos pessoas especialmente generosas, misericordiosas e justas.

Temos em nossas mãos o sal do amor e a luz da fé. É-nos dado por Deus para fazer maravilhas no mundo. Que nos façamos presente na sociedade sem perder nossa identidade cristã, sem esconder nossa condição de seguidores de Jesus. Se nos conformarmos com ser cristãos só aqui, dentro do templo, deixaremos de ser a luz do mundo. Se reduzirmos nossa fé ao “saleiro” de nossa vida privada, seremos um sal insípido e uma luz escondida.

Não somos sal e luz só com palavras, mas com obras, não as obras do poder e da “mídia”, mas do amor aos pobres, nossa opção preferencial.  

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