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O Deus dos excluídos

Padre José Assis Pereira. Publicado em 10 de fevereiro de 2018.

Por Padre José Assis Pereira

Os camponeses da Galileia e nós hoje podemos comprovar que Jesus continua surpreendendo a todos: Deus está chegando, mas não como o “Deus dos justos”, e sim como o “Deus dos que sofrem”. Jesus o profeta do reino de Deus não tem nenhuma duvida: o que preocupa a Deus é o sofrimento dos mais desgraçados; o que o move a agir no meio de seu povo é seu amor compassivo; o Deus que quer reinar entre os homens e mulheres é um “Deus que cura”.

No texto evangélico deste VI Domingo do Tempo Comum (cf. Mc 1,40-45), Marcos nos narra com a sobriedade que lhe é própria, a atitude de Jesus diante da marginalização social e religiosa que representava o drama da “lepra” no antigo Israel. São poucos versículos nos quais transparece como pulsa o coração de Cristo. Trata-se segundo São Marcos, do terceiro milagre realizado por Jesus. Depois de libertar um homem do poder do maligno na sinagoga e de curar a enferma sogra de Simão, agora Jesus liberta um “leproso” da exclusão social.

Os leprosos no evangelho não são as vitimas da “lepra” que a medicina atual conhece como “hanseníase”, mas abrange um conjunto de doenças de pele, que, ao causar erupções, chagas purulentas, psoríase, eczemas etc., provocam repugnância.

Porém, a tragédia destes enfermos não consiste tanto no mal que dilacera seu corpo, quanto na vergonha e humilhação de sentirem-se seres sujos e repugnantes que todos evitam. Seu verdadeiro drama é serem segregados da comunidade, condenados ao ostracismo.

Os leprosos são separados não pelo mero temor do contágio, mas porque são considerados “impuros”. A prescrição legal era cruel: “Quando uma pessoa tiver na pele uma inflamação, um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra […] o sacerdote o declarará completamente impuro. Quem for declarado leproso, deverá andar com as roupas rasgadas e despenteado, cobrirá o rosto e gritará: ‘Impuro! Impuro!’ […] viverá separado e habitará fora do acampamento.” (cf. Lv 13, 1-2.44-46)

Numa sociedade como a da Galileia, onde o individuo só pode viver integrado em sua família e em sua aldeia, esta exclusão e isolamento significa uma tragédia. A maior angústia do leproso é pensar que talvez nunca mais possa retornar à sua comunidade.

Abandonados e estigmatizados por seus vizinhos, excluídos da convivência, estes doentes constituem, provavelmente, o setor mais marginalizado da sociedade daquele tempo. Jesus vai dedicar-se a eles antes que a quaisquer outros. Aproxima-se dos que se consideram abandonados por Deus para integrá-los no povo de Deus. Esses pareciam ser os primeiros a experimentar essa proximidade de Deus, sentem o amor e a misericórdia do Pai e a chegada de seu reino.

Os atos de Jesus para o evangelista Marcos, sobretudo os milagrosos, não são só sinais do reino presente, senão também seu modo mais importante de ensinar. É a melhor “parábola” para que todos compreendam que Deus é, antes de tudo, o Deus dos que sofrem o desamparo e a exclusão.

O leproso do relato de Marcos sabe sua situação. Não obstante, crendo que Jesus de Nazaré o pode curar decide aproximar-se dele, saltando os códigos sociais e implorando não que Jesus o cure, mas que o “limpe” da sua impureza e tenha com ele essa “compaixão” que não encontra na sociedade: “Se queres tens o poder de purificar-me.” (v. 40) Sua atitude e seus gestos como ficar de joelhos, expressam não só sua impotência ante a situação que vive, senão muito mais a fé com a qual ele suplica ao Senhor que o ajude.

Ante aquele drama social e religioso Jesus não passa indiferente: “Movido de compaixão estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: ‘Eu quero, sê purificado.’” (v. 41) Jesus reage com um gesto intencional: “estende a mão e o toca”. Ao tocá-lo, Ele o liberta da exclusão, Ele não só cura o enfermo, mas faz um apelo a toda a sociedade para aproximar-se do outro, interessar-se por sua vida e integrá-lo porque está chegando o reino de Deus. É preciso construir a vida de outra maneira: os impuros podem ser tocados, os excluídos devem ser acolhidos. Os enfermos não devem ser olhados com medo, mas com compaixão como Deus os olha.

Ao ter compaixão Jesus põe-se no lugar de quem é considerado como um estorvo social e que por sua enfermidade está impedido até de expressar ritualmente sua fé. Suas palavras, mas, sobretudo seus gestos, falam de sua empatia ante o drama pessoal daquele leproso.

São Marcos relata no seu texto catequético que o primeiro movimento de Jesus não foi nem a cura nem um sermão ético, mas o aproximar-se daquele que havia esquecido o que era o contato físico e humano, a proximidade dos outros, o abraço e o carinho expressado pelo tato e toda expressão que indicasse acolhimento pelos outros. Jesus também salta as normas sociais e toca a quem tinha sido proibido tocar.

Jesus tem seu estilo próprio de curar. Cura com a força de sua Palavra, mas, sobretudo com os gestos de suas mãos. É um de seus traços característicos. Não pronuncia fórmulas secretas como os magos. Sua Palavra é clara. Todos podem ouvir e entender. Ao mesmo tempo, Jesus “toca” com suas mãos o enfermo, para expressar-lhe sua proximidade e compaixão e devolver-lhe o sentido de pertença.

As mãos de Jesus abençoam os que se sentem malditos, tocam os leprosos que ninguém toca, comunicam força aos mergulhados na impotência, transmitem confiança aos que se veem abandonados por Deus, acariciam com ternura os excluídos. Era seu estilo de curar. Finalmente Jesus indicou ao enfermo como voltar a reintegrar-se à vida social e religiosa do seu povo: “Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purificação o que Moisés prescreveu, para que lhe sirva de prova.” (v. 44)

Jesus reconcilia o enfermo com a sociedade, pois para Ele enfermidade e marginalização estão tão estreitamente unidas que a cura não é efetiva enquanto os enfermos não se veem integrados na sociedade. Por isso, Jesus elimina as barreiras que os mantêm excluídos da comunidade. A sociedade não deve temê-los, mas cuidar deles e acolhê-los. A vontade de Jesus é integrar novamente os enfermos à convivência.

A súplica do leproso a Jesus segue sendo profundamente atual em nosso tempo. Muitas pessoas vivem de joelhos por causa de situações que lhes levam à marginalização e à segregação social. Hoje não será o drama da lepra, mas sim, outros dramas existenciais e sociais que fazem ver os outros como “impuros”, não “dignos” de pertencer ao grupo social, cultural ou religioso. O drama do leproso era algo devastador, posto que não podia sequer aproximar-se de quem representava a solução de seus problemas, quer dizer, Deus. A marginalização social e cultural chegava até a exclusão religiosa.

Sejamos imitadores de Cristo. A luta contra a marginalização e a exclusão inicia-se com uma atitude: “a compaixão”. Mas deve lhe seguir o ato que leve esta atitude a sua plenitude: “aproximar-se e tocar” o outro, tocar a realidade dos outros e colaborar com o que somos e temos. Às vezes o que faz falta é somente um gesto de aproximação e carinho, como um abraço acolhedor.

É preciso continuar realizando sinais da compaixão e misericórdia de Deus no mundo. Essa será precisamente a missão que Jesus confia a seus seguidores: “Quando entrardes numa cidade […] curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: o reino de Deus está próximo de vós.” (Mt 10, 7-8)

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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