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O destino do Carnaval

Noaldo Ribeiro. Publicado em 27 de fevereiro de 2018.

O Carnaval de Campina Grande já foi objeto de desejo de multidões. Até o final da década de 1970, do século passado, velhos, jovens e crianças sonhavam o ano inteiro com, a então, principal festa da cidade.

Na periferia, a gurizada se esbanjava no entrudo, brincadeira de mela-mela (herança portuguesa). A guerra de farinha, a cara da molecada branquinha. Bombas de sucção, improvisadas com cano de PVC, municiadas d’água, às vezes de esgoto, era a grande diversão. Patotas saiam pela cidade, fantasiadas de papangus – mascarados conhecidos em outras plagas como Clovis.

Nos bairros abastados essas brincadeiras se reproduziam, porém a lama era trocada por água limpa, a farinha por talcos perfumados e as vestimentas dos papangus, ao invés de estopa, era trocada por chita, quando não, por tecidos mais nobres.

Os Bailes e o Corso

Durante todo o ano, grupos de rapazes de classe média reservavam parte de suas mesadas para engordar um fundo com o fim de alugar carro (geralmente Jipe) para tirar onda no corso, na Rua Maciel Pinheiro. Enquanto isso, os clubes da cidade, do popular ao mais chique, realizavam bailes memoráveis. Além de transar “três, quatro cubas”, a lança-perfume era a vedete das mais aquinhoadas famílias. Aos desfiles carnavalescos agregavam-se bois, caboclinhos e reisados, normalmente originários de terreiros de matriz afrodescendente.

Escolas de Samba

Inspiradas no modelo carioca, dos anos sessenta, perdurando até o final da década seguinte, as escolas de samba também brilhavam nas ruas de Campina. A Noel Rosa, Os Acadêmicos de Monte Castelo, a Bambas do Ritmo, do velho Zepa. Havia também a Rosa de Ouro, e, das Malvinas, a voz do protesto dos Invasores do Samba, enquanto a Unidos da Liberdade abria as asas sobre nós.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro (berço das escolas de samba) fazia um carnaval modesto, criativo e legitimado pelas suas comunidades, portanto com lastro cultural. Quanto à estética apresentava-se, igualmente modesta, sem a necessidade de gastos extraordinários. Este fato, talvez, induzisse as escolas campinenses a sobreviverem sem grandes custos, visto que a sua fonte inspiradora não se revestia de maiores sofisticações.

Contudo, ainda nesta mesma década, acentuando-se nos anos 70\80, as agremiações cariocas começam a receber a aderência de gente da classe média, normalmente artistas – caso das saudosas Leila Diniz e Marília Pêra. Cenógrafos da estirpe de Joãozinho 30 e Fernando Pamplona abrem alas para outros, majoritariamente de formação acadêmica. Estrelas de TV e do cinema passam a se exibir em trajes minúsculos e os carros alegóricos, animados pela mágica da tecnologia ganham, além de beleza, proporções físicas gigantescas. O Carnaval do Rio ganha, enfim, o título de Maior Espetáculo da Terra, tornando-se referência para o país, particularmente para as escolas de samba que, curiosamente, são adotadas em São Paulo, Rio, João Pessoa e Campina Grande. Os carnavais mais famosos do Nordeste (Olinda\Recife e Salvador) são embalados por pequenos e grandes blocos.

Em franca desvantagem, diametralmente opostas às escolas cariocas, as escolas locais não conseguem realizar eventos para gerar recursos, como as famosas feijoadas da Mangueira, acompanhadas de samba no pé. Não organizam as costureiras da comunidade, os artesãos e demais profissionais que compõem a cadeia produtiva do carnaval, nem tampouco conta com o auxílio valioso dos Bicheiros e nem com o milhão de dólares, relativos aos direitos de imagem, transmitida por TVs do mundo inteiro.

Num momento em que todo o mundo tem acesso aos desfiles do chamado Maior Espetáculo da Terra, os carnavais que cultivam o modelo escola de samba sofrem impacto negativo. Resultado: das oito escolas, antes existentes, restaram duas: Bambas do Ritmo e Unidos da Liberdade – uma espécie de disputa repetitiva, tipo Treze X Campinense. Mesmo assim (salvo engano, graças à verba da PMCG) continuam a resistir e ainda arrastam para a avenida centenas de pessoas.

O Que Fazer?

Antes de qualquer consideração, deve-se reconhecer o esforço daqueles que lutam para colocar, aos trancos e barrancos, suas escolas na avenida. Deve-se reconhecer, também, o talento inconteste de carnavalescos da estirpe de Antonio José, Raimundo Formiga, da incansável e maravilhosa atriz Fátima Ribeiro, do infatigável Antonio Nunes, dos diretores, mestres-salas e de bateria e todos que não podem ser citados neste pequeno artigo. Contudo, esses renitentes heróis se veem de mãos atadas, impedidos de materializar sua genialidade por falta de condições materiais.

Por fim, para esta escrita ter alguma valia, seria proveitosa a realização de um debate sobre o destino do carnaval da cidade. Mas agora, faltando quase 01 ano? Sim, acabou um, passa-se imediatamente a planejar o outro. É assim que procede qualquer evento que se preze, principalmente nos dias atuais, no qual até as atividades realizadas pelo Poder Público contam com a participação da iniciativa privada – prática, não diria inaugurada, mas incentivada pela Lei Rouanet, atualmente injustamente demonizada.

Frente à dada conjuntura, convém discutir (renovando questões abordadas na matéria anterior) que Carnaval se quer, e quais as possibilidades de realizá-lo. Assim, repetem-se as questões: a) Conserva-se esse modelo disperso, com hiatos de folia em determinados dias? b) Articula-se um calendário concentrado, promovendo uma prévia carnavalesca com potencial para atrair gente de todo o Estado, a exemplo do Folias de Rua, na capital? c) Se aposta no carnaval de época, como sugere o Jacaré do Açude Velho e as escolas de samba? d) Como, finalmente, dotar as escolas de samba de atratividade, capaz de criar vínculos com suas comunidades e tornarem-se referência da cidade?

Por fim, uma pergunta aos campinenses: Há disposição de se renunciar o litoral paraibano e os carnavais de Olinda e Salvador?

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

falecom@fhc.com.br

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