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O demônio não é ateu

Padre José Assis Pereira. Publicado em 27 de janeiro de 2018 às 12:09

Por Padre José Assis Pereira

Depois de conhecermos a Boa notícia trazida por Jesus, e depois de Ele ter chamado seus primeiros quatro seguidores, São Marcos nos apresenta um “dia típico” na vida do portador do Evangelho e seus seguidores. Esse dia é um sábado, e o que Jesus fez nesse dia irá logo mais desencadear uma forte crise.

O relato do Evangelho de hoje (cf. Mc 1,21-28) apresenta Jesus acompanhado de sua pequena comunidade de discípulos ensinando na sinagoga de Cafarnaum. Jesus não adia o anúncio do Evangelho. A sua principal preocupação é comunicar a Palavra de Deus. Na sinagoga qualquer judeu adulto podia fazer a leitura e o sermão. Todavia, com o tempo, as sinagogas acabaram se tornando o reduto dos doutores da Lei e fariseus. Eles controlavam as sinagogas e, com sua doutrina, catequese e ensinamentos faziam a cabeça do povo.

A reação do povo ante a pregação de Jesus foi positiva: “as pessoas na sinagoga ficam admiradas com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade.“ (vv. 21) O ensinamento desse jovem pregador da Galileia é tão diferente do ensinamento dos doutores da Lei.

A perícope do evangelho de Marcos insiste, sobretudo na autoridade que emana de Jesus na hora de ensinar. Isso faz pensar na primazia da Palavra de Deus. A Palavra que deve ser ouvida, a Palavra que deve ser acolhida, a Palavra que deve ser anunciada. E as pessoas na sinagoga ficam admiradas, porque Jesus lhes ensinava como alguém que tem autoridade. Que significa essa “autoridade”? Significa que nas palavras humanas de Jesus se sentia toda a força da Palavra de Deus, se sentia a própria autoridade de Deus. E uma das características da Palavra de Deus é que realiza aquilo que diz. Porque a sua Palavra corresponde à sua vontade.

Nos casos de autoridade humana quase sempre vêm acompanhados de certos cenários de poder: desfiles militares, grandes cortejos e manifestações publicas. Mas a autoridade de Jesus é uma autoridade tranquila, repousante, suave, que representa sua divindade. E é essa autoridade, a que serve para inquietar aos demônios. Nós sabemos que estamos falando da lógica autoridade de Jesus, o Cristo, não pode ser de outra forma.

Marcos tem o costume de não mostrar Jesus fazendo longos discursos, como em outros evangelhos. Ele prefere comentar suas palavras com fatos concretos, gestos, atos de libertação, assim o fato vivido mostra que o Reino vai se aproximando sempre mais. Depois de ter pregado, Jesus demonstra imediatamente a sua autoridade libertando um homem, presente na sinagoga, que estava possuído por um espirito impuro (ou demônio) que gritou: “Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o santo de Deus”. (vv. 23-24) O momento é importante para Jesus, será o primeiro desafio e o seu primeiro milagre.

O demônio é o pior inimigo da pessoa, Marcos é o evangelista que mais insiste nisso. A possessão é a pior descaracterização e despersonalização que possa haver no ser humano. Descaracteriza o projeto que Deus traçou para cada pessoa. De fato, o possesso não fala por si mesmo, é o espirito impuro que fala por ele, não exprime sua vontade, mas a vontade do espirito impuro, não se mostra senhor, pois é escravo, está possuído, descaracterizado e despersonalizado.

O demônio não é ateu, sabe quem é Deus. Entre ele e nós os seres humanos há ao menos uma diferença; existe uma palavra que eles nunca pronunciam e nós sim podemos pronunciar. Eles podem dizer que Jesus é o Messias, o Santo de Deus, mas jamais o chamam de “Senhor”. Porque ao fazê-lo os levaria implicitamente a aceitar o senhorio de Deus. Reconhecer Deus como o Senhor implica aceitar a relação de proximidade e confiança entre a criatura e o Criador.

No evangelho de Marcos, os demônios têm um papel. Ironicamente reconhecem a Jesus como Messias, antes que o façam os apóstolos e muitos discípulos. É um paradoxo típico de Marcos. Ironia da história: nós mal começamos a descobrir “quem é Jesus” e o diabo já vem dizendo que sabe tudo. Naquela cultura conhecer a pessoa, conhecer seu nome e saber quem ele é tem sabor de domínio e superioridade. Significa controlar essa pessoa, mostrar-se mais forte do que ela, poder dominá-la. Será que o diabo é de fato tão forte?

São Marcos nos apresenta, no entanto a vitória de Jesus, a autoridade de sua Palavra, capaz de calar os demônios: “Jesus o intimou: Cala-te e sai dele! Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu.” (vv. 25-26) Com a chegada de Jesus, portador da Boa Notícia, chegou a ruina e a destruição de tudo o que aliena, descaracteriza e despersonaliza o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus.

Os demônios reconhecem a Jesus e o interrogam. Ele os expulsa. Para sair agitam o possuído, prova palpável que estavam dentro dele. O ser humano recupera a consciência e a liberdade. E essa novidade não pode ser calada, tem de ser espalhada para fora, nas redondezas.

Naquele tempo, dizia-se haver muitos milagreiros e exorcistas curando e exorcizando com gestos mágicos, bebidas, ervas e raízes. Jesus não faz nenhum gesto “mágico”. Põe os demônios para correr pela força de sua Palavra. A força de Jesus, seu convencimento pleno, a força divina que o acompanha vem de sua Palavra.

Ao mostrar Jesus com poder sobre os espíritos imundos o evangelista assinala a identidade de Jesus que veio acabar com o domínio da maldade, derrotar não tanto o inimigo de Deus, pois não há rival para Deus, mas sim o inimigo do ser humano. Porque para o diabo, o ser humano é o ser a conquistar, dominar, abater… através da mentira, da confusão e da divisão.

Jesus aparece como aquele que cura, liberta, devolve ao ser humano a verdade sobre si mesmo e sua identidade profunda como ser vinculado com seu Criador e Pai Deus. A Palavra de Jesus, portanto é criadora e recriadora do ser humano, exatamente como a Palavra de Deus que criou o mundo e o ser humano (cf. Gn 1,1-26).

Quanto ao demoníaco, é óbvio que negar a existência do demônio é como dar mais possibilidades à ação do mal. O mal existe, o espírito do mal segue atuando. Se não aceitamos que a gripe é uma enfermidade, não buscaremos remédios para terminar com ela. E se não conhecemos exatamente os mecanismos de como se gera a enfermidade, dificilmente poderemos lutar contra ela. Com o demônio se passa o mesmo. Ao negá-lo damos uma espécie de camuflagem para que atue com mais impunidade.

Todo aquele que crê tem sentido a proximidade de Deus em muitas coisas. E ainda que costume ser mais difícil, também nesse mesmo crente terá intuído em seu interior, a proximidade de outra força, negativa e obscura, que lhe separa do melhor caminho.

A mentira, o engano, o autoengano, uma inesperada distorção da realidade, a imprevista justificação do injustificável, são sintomas de que o demônio está perto e é preciso com ele lutar. È um combate que se desenvolve primeiro em nosso próprio interior quando as forças obscuras nos perturbam, nos envolvem, nos cegam e até nos derrubam. Mas temos de levantar-nos, Deus está ao nosso favor, luta conosco.

O melhor para todos nós neste Domingo é acrescentarmos um passo a mais em nosso conhecimento de Jesus, nosso Mestre e Amigo. O mal será vencido em nosso interior, o egoísmo será desterrado de nossa conduta se escutamos sua Palavra, o Evangelho que tem a força de mudar a vida! Ele nos transforma se nos deixarmos transformar se ouvirmos a voz do Senhor e não endurecermos o nosso coração.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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